Reproduzo neste espaço texto de apresentação do livro “Desacelerada Mecânica Cotidiana” do escritor e fotógrafo Arlindo Gonçalves, lançado nesta semana, pela Editora Horizontes:
“Cidade que não pára, frenética, corrida. Esses são apenas alguns dos predicados que
recebe a capital paulista. São Paulo é tudo isso sim. Mas nela há também espaço para
ritmos mais amenos, movimentos letárgicos no amanhecer de trabalhadores que
caminham para pontos de ônibus, estações de metrô, locais de trabalho. Ações mecânicas e
lentas que muitos podem julgar patéticas, como é o clima de alguns ambientes para os quais este livro traça um retrato afetivo.
São velhos bares, padarias, baixos de viadutos todos povoados por pessoas esquecidas,
desempregados ou subempregados na sua maior parte. Uma gente que convive em lugares que,
apesar do frenesi da cidade, parecem parados no tempo, congelados de tal forma que tudo neles se mostra ultrapassado.
E, se o ritmo desses ambientes contrasta tanto com o da Paulicéia, seria natural esperar que as
vidas dos que os freqüentam estariam também numa inércia semelhante, em que nada de
importante acontece. Mas não é. Então, quase que imperceptivelmente, eventos únicos tomam
forma…
Duas vítimas de violência passam décadas cultivando uma amizade que as ajudará a superar
seus traumas. Um músico fracassado e pobre ajuda crianças doentes. Um homem atormentado
pela lembrança da morte de sua esposa passa as horas livres ouvindo e apoiando alcoólatras em bares. Uma terceira vítima de violência cultiva a atenção dos freqüentadores do boteco onde trabalha. Um engraxate otimista e bem-humorado ilumina a vida de todos os que conhece pelas ruas. Um fotógrafo desempregado tenta superar suas tristezas e limitações artísticas pelo carinho que nutre pela cidade. E uma velha analfabeta reza desesperadamente pela sorte de todos eles.
Desacelerada mecânica cotidiana faz um recorte representativo dessa realidade. Marasmo e tédio seriam o que se esperaria dos palcos em que se passam as narrativas deste livro. No entanto, sem que suas personagens notem, pequenas revoluções são empreendidas, ficando latente que o ser humano nunca é um derrotado. E que, se faltam as posses, podem sobrar as coisas realmente essenciais: a amizade despretensiosa, o respeito às diferenças e a solidariedade como mecanismos de resistência à violência e ao desamparo.”
me ajude a publicar o meu livro [ cem dias morto ] 200paginas sou ex morador de rua em sao paulo