Ouvinte-internauta: Vamos invadir o Ibirapuera

Por Sandro Tubertini

Vivo em Londres há três anos onde trabalho como arquiteto para uma consultoria especializada em projetos sustentáveis. Escuto seu programa sempre que posso via internet e pude seguir todas as discussões a respeito das mudanças no zoneamento vigente na região do Parque do Ibirapuera, mais precisamente sobre a construção ou não de novos edifícios no entorno do parque. Corrija-me se estiver enganado, mas entendo que a região tem um zoneamento que permite uso e ocupação maiores dos hoje existentes, entretanto uma resolução do Conpresp limita, desde de 1997, as construções a um gabarito máximo de 10 metros.

Trago esse assunto novamente a tona pois fui convidado pela A.A. (Architectural Association), uma das mais antigas e respeitadas escolas de arquitetura da Inglaterra, para fazer parte de uma banca de examinadores. O tema de trabalho sugerido aos alunos do último ano do curso de arquitetura era uma intervenção no edifício do Detran, em São Paulo, para transformá-lo em uma nova sede para o Museu de Arte Contemporânea (MAC). Quase todos tiveram a oportunidade de visitar o parque e constatar como este é usado durante o fim de semana e durante os dias úteis,bem como as condições da estrutura de apoio disponível ao público. Eu, como o representante paulistano na banca, tinha previsto o papel de avaliar a adequação dos projetos ao clima local bem como o produto final dos trabalhos. Entretanto, perdi mais tempo explicando as duas constatações mais gritantes de quase todos os alunos. Primeiro, a diferença do uso do parque durante os dias de semana e fins de semana; e segundo, a dificuldade de acessar o edifício do Detran, tanto a partir do Parque do Ibirapuera quanto a partir dos meios de transporte, mesmo que individual. Essa segunda característica foi também constatada pelos alunos quanto à acessibilidade ao Parque do Ibirapuera.

A questão de acessibilidade é importante, porque não faz sentido promover um museu em um local onde são constatados sérios problemas de acessibilidade. A discussão sobre esse tema se estendeu para entender por que o Parque do Ibirapuera não tem sua marquise cheia durante a semana da mesma forma que aos fins de semana. Ou mesmo porque a marquise é o espaço mais utilizado do parque. O clima ameno de São Paulo, onde sombra e áreas verdes como a do parque criam um ambiente extremamente agradável, pode responder parte dessa questão, mas ficava faltando responder ao pouco uso durante a semana.

Comparando o Ibirapuera com os parques urbanos europeus e mesmo com o Central Park de Nova Iorque fica evidente a diferença que há no envoltório desses locais. Áreas lindeiras a parques são privilegiadas e por isso são mais valorizadas. Sendo o parque público o ideal é ampliar ao máximo o uso desses espaços lindeiros, permitindo que mais gente trabalhe, estude e more próximo a ele. Afinal quem mantém o parque são os impostos pagos por toda a população de São Paulo.

Contrapondo esse argumento ao dos contrários a densificação da porção sul do parque fica claro que a atitude de manter o entorno congelado vai na direção contraria ao interesse do cidadão paulistano. A baixa densidade do parque o torna um bem cada vez mais caro para o contribuinte, e proibir investimentos na região que poderiam gerar mais recursos para a preservação do mesmo (mais área construída gera maior arrecadação de impostos).

Do ponto de vista ambiental a construção na vizinhança não prejudica de forma alguma o parque. Na verdade, a proximidade com o parque é benéfica para os que estão ao seu entorno. Sendo esse mais um motivo para que se permita que todos usufruam desse bem público.”

Sandro Tubertini é ouvinte-internauta do CBN São Paulo, arquiteto, e imagina um dia ver o Parque do Ibirapuera cheio de paulistanos durante a semana.

5 comentários sobre “Ouvinte-internauta: Vamos invadir o Ibirapuera

  1. Sr Carlos Magno
    Concordo em gênero, número e grau
    SP atual com onze milhões de habitantes, seis milhões de veiculos, congestionamentos totalizando mais de 200 km por dia, sem falar na periferia que cresce dia a dia, a grande SP.
    E ainda quer mais prédios em SP?
    Sem mais comentários ne?
    Armando Italo
    SP/SP

  2. não vou discutir a questão patrimonial (tanto a questão imobiliária quanto aquela relacionada ao patrimônio histórico…), pois o espaço é pequeno

    gostaria apenas de trazer uma recordação simples: o modelo de verticalização adotado pelo mercado em são paulo REDUZ a densidade habitacional e expulsa moradores (ou seja, a construção de prédios altos, ao invés de trazer moradores, os afasta). Não seria o caso da área lindeira ao parque, pois lá a densidade já é baixa e o espaço bastante elitista. No entanto, se fosse permitida a construção de habitação verticalizada no local, não há dúvida: seriam POUCAS unidades reservadas para POUCOS e endinheirados (além de devidamente motorizados e poluentes). O discurso do “interesse público” é uma falácia neste caso… (mesmo porque eu duvido que alguém tenha a coragem de sugerir a demarcação de ZEIS naquele bairro, único instrumento que poderia democratizar o acesso ao espaço urbano naquele contexto)

  3. Um exemplo como é feita a degradação da cidade de São Paulo.

    Quatro casas são demolidas para dar lugar a um predio com mais de quinze andares, mais de 500 pessoas e a praticamente o mesmo numero de veiculos ou mais, passarão a residir neste predio.
    E desta forma bairros tradicionais, historicos, com terrenos arborizados a exemplo do absurdo que está acontecendo na Vila Nova Conceição, Campo Belo, Vila Olimpia, antes bairros arborizados com suas casas construidas em terrenos arborizados, agora estão sendo literalmente devastados e destruidos, degradados, invadidos por construtoras construindo de forma desenfreada as “suas torres” respaldadas na lei do uso e de ocupação do solo, do plano diretor, predios e mais predios, causando mais zonas de calor, degradação ambiental, tirando a luz solar e o horizonte dos antigos moradores, sol é vida é saude.
    Ja imaginaram você caminhando no Ibirapuera num dia lindo de sol e ao olhar para a Vila Nova Conceição, ao invez de ver árvores ter a visão de grandes predios?

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