Da idéia de Deus

Por Maria Lucia Solla

Olá,

A cada porção de tempo, minhas crenças e valores sofrem uma gigantesca embaralhada, assim como se o vento das emoções soprasse tudo, sem dó nem piedade, e deixasse uma confusão sem fim. Não consigo ainda deixar de ficar em pânico, quando tudo está de pernas para o ar dentro de mim, mas pouco a pouco vou encarando o processo e, rindo ou chorando, vou encontrando ordem na confusão. Dá um trabalho danado e exige a energia que muitas vezes custo a encontrar.

Nesta específica porção de tempo, depois de sopradas particularmente fortes do vento das emoções, tenho pensado muito sobre o conceito Deus. Nunca fui fiel ou agregada a nenhuma religião por vontade própria, mas meu interesse por elas nasceu de um diálogo com o Père Roland, diretor da escola onde eu cursava o primário, e professor de catecismo. A escola era dirigida por padres canadenses, super-hiper-modernos. Andavam sem batinas, com calça esporte, e só usavam o colarinho branco que os identificava como padres, sob a gola da camisa. Circulavam pelo bairro, de motocicleta. Da igreja à escola, e vice-versa. Seres que eu nunca vou esquecer. Às vezes penso que não eram deste planeta. Quem sabe…

Eu sempre ficava triste na aula de catecismo. Um dia o Père Roland viu que eu estava engolindo o choro e pediu para eu ficar mais uns minutos na sala, para conversar. Foi só ele perguntar, Maria Lucia, por que você fica sempre tão triste, que eu abri as comportas. Chorei uma cachoeira e meia e ele esperou que eu terminasse. Foi a primeira vez que alguém me ofereceu tanta regalia ao mesmo tempo. Respondi, tenho muita pena de Deus, e buá, chorei de novo. E por quê? Perguntou, reprimindo os olhos azuis para não escancararem a ponto de eu me assustar. Ele é muito sozinho, eu disse. Não tem mulher, e seu único filho morreu. Père Roland, surpreso, me presenteou com um sorriso cúmplice. Passou a mão pelo meu cabelo e disse. Ele não está sozinho; Ele tem você e eu. E me fez sorrir.

Desde então, tento entender esse Ser tão inacreditavelmente poderoso. Lá, no diálogo com meu professor, entendo agora, eu expunha a minha solidão, chamando-a de solidão de Deus; mas e o resto da humanidade, como lida com isso? Gregos e troianos idearam não um, mas muitos deuses. Deuses e deusas. Eles os idearam à sua imagem e semelhança. Os deuses tinham emoções, exatamente como os humanos, se apaixonavam por humanos, faziam semideuses com eles, saciavam sua fome e sua sede. Tinham as mesmas qualidades dos humanos. As consideradas positivas e as consideradas negativas. Sabiam ser ciumentos e vingativos. Combatiam entre si e construíam armadilhas uns para os outros. Hoje, evoluídos que somos, ideamos um Deus único, perfeito, onipotente, onipresente e onisciente, e dizemos que foi Ele que nos criou, à sua imagem e semelhança. Durma com um barulho desses!

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.

7 comentários sobre “Da idéia de Deus

  1. Pensando nisso acredito: -A idéia de Deus, vem evoluindo. Em um tempo ainda mais distante perceberemos que enxergar no outro o nosso proprio reflexo, como em um espelho,nos fará perceber que não só, somos sua imagem e semelhança, como cada um de nós tem o próprio Deus dentro de si. Mas isto tem que ser aprendido e apreendido, não pode ser dado a nós, o tempo que irá demorar, não importa. Deus é eterno e não tem pressa. Quem deveria ter pressa? – Cada um de nós, porque, enquanto “uma” pessoa sofrer neste mundo ninguém poderá ter paz (-“absoluta paz”), sem paz não poderemos nunca saber quem realmente somos e muito menos quem é Deus, este texto me fez relembrar o que de vez em quando esqueço,minha idéia de Deus. Obrigado.

  2. Olá, Lenice, Viver é mais ou menos como comer. A gente leva anos instalando o programa errado, para de repente se dar conta de que o negócio é mudar ou mudar. Sempre. Obrigada pelo comentário.
    Beijo,
    maria lucia

  3. Oi Lùzinha, a Lenice expressou de forma perfeita , meu sentimento em relação ao texto de hoje , principalmente , no que se refere a paz. Bjs,
    Maryur

  4. A meu ver, acreditar em um Deus ou Deuses, enfim, pode ser uma forma de acreditar em uma força que nos conduz na vida. Não necessariamente ser aquela imagem que vemos em quadros, imagens e livros, mas um sentimento de sobrevivência, algo que nós procuramos de um jeito ou de outro. Reformar conceitos, preparar-se para mudanças e entender que temos sempre algo para aprender significa abrir a alma para a sabedoria, acredito.

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