Por Fernanda Campagnucci
Um ônibus passa rasgando a avenida Alcântara Machado, ao lado do viaduto de mesmo nome. Dois, três carros sobem atrás dele, apressados em direção à zona leste. Quem estava embaixo dali, como eu naquela tarde de sábado, via os carros pelo vão do concreto…
… mas, entre o chão e o viaduto propriamente dito, havia mais coisas do que supõe a nossa vã filosofia (ou o nosso cansado senso-comum). Ringues, sacos de boxe e pneus improvisados, bicicletas ergométricas, aparelhos de musculação, livros, brinquedos. A academia de boxe e biblioteca Cora-Garrido não é o que se espera de um baixo de viaduto. Mas o que esperar de um lugar que é um não-lugar?
Responda rápido, sem pensar. Diante da pergunta o que vem à sua cabeça quando se fala em viaduto?, pessoas na rua disseram sem pestanejar: mendigos. Violência. Drogas. Criminalidade. Falta de iluminação. Alguns pareciam surpresos: é só um lugar de passagem. O que mais seria?
O arquiteto Igor Guatelli explica que o baixo de viaduto é um espaço não-projetado e não tem significados a priori ele mesmo define o espaço como um entre. Pode ganhar novos sentidos com iniciativas como aquela, do boxeador amador Nilson Garrido. Segundo Guatelli, quando a ocupação de um espaço surge espontaneamente, da própria comunidade, ela se transforma em uma verdadeira máquina social.
Para os moradores mais atentos da Paulicéia, pode ser que a academia de boxe do viaduto Alcântara Machado, que fica no Brás, não seja novidade. É que Garrido já havia começado com sua loucura anos antes, primeiro no viaduto do Chá e, depois, no Viaduto do Café, na Bela Vista. , ele ouvia. Mas não ligava. Os maiores homens do mundo foram considerados loucos. Se você está me congratulando com essa palavra… , dispara, bem humorado.
Moradores de rua, desempregados, ou simplesmente moradores do entorno (ou não!) freqüentam o lugar. Crianças também são bem-vindas, na brinquedoteca ou na biblioteca. Mas Garrido e Cora, sua parceira nessa empreitada, fazem questão de lembrar que não se trata de uma academia, apenas. É um projeto
social.
Jailton de Jesus, de 21 anos, entende bem o que isso quer dizer. Quem vê aquele sujeito alto e forte hoje ele é lutador de boxe profissional não imagina que, ainda adolescente, ele comeu lixo, viveu debaixo de uma carroça e trabalhou por anos separando material reciclável das 6 da manhã à meia-noite. Agora ele mora na academia do Viaduto do Café, que coordena. E sabe que o mundo dá voltas. Antes eu tomava tapa na orelha de policiais, era enquadrado. Hoje, são os policiais do GOE que o procuram. Para ter aulas particulares com o campeão de boxe, que aprendeu tudo ali, debaixo do viaduto.
* Fernanda Campagnucci é quase-jornalista e estagiária da CBN. Escapou por pouco de um olho roxo enquanto filmava do córner as lutas sob o viaduto Alcântara Machado, para o documentário Entre Ringues e Concreto.
Entre – Ringues e concreto, o vídeo
Fernanda,
Bastante interessante!! Acho que os nossos olhos são muito preconceituosos e precisamos olhar mais de perto esses detalhes.
Parabéns por esta visão de S. Paulo!!
às vezes ter um espaço bonitinho e acéptico fornecido pelo poder publico para o esporte pode não dar tão certo quanto as formas de organização (até mais transgressoras, faras-da-lei) que partem das proprias comunidades… Muito legal esse video, Milton.
GOSTARIA DE INDAGAR SE O DR ALCKMIN, FORTE CANDIDATO À PREFEITURA, CONHECE O BAIRRO DO CAMBUCI. AQUI NÃO HÁ ILUMINAÇÃO SUFICIENTE, NÃO HÁ RUAS CALÇADAS E ASFALTADAS COM RESPEITO AO USUÁRIO, NÃO HÁ SEGURANÇA SUFICIENTE PARA A DEMANDA, NÃO HÁ DESCARGA DE LIXO COERENTE, A SUJEIRA NA VIA PÚBLICA É UMA CONSTANTE, OS SEMÁFOROS SÃO DECADENTES E SEM MANUTENÇÃO, NINGUÉM FISCALIZA O TRÂNSITO E NEM O COMÉRCIO. QUAIS SERIAM OS PLANOS PARA ESSES BAIRROS MENOS AQUINHOADOS PELAS AUTORIDADES GOVERNATIVAS?
Pergunta ao Dr. Geraldo Alckmin.
Na megalope CIDADE ESTADO São Paulo, existem perto de HUM MILHÃO de pessoas que trabalham a noite. Sendo que a maioria são mulheres e mães. Por trabalhar a noite, estas mães tem dificuldade com a educação dos seus filhos e em especial falta creches para crianças de ZERO a QUATRO anos. O senhor poderia criar creches noturnas? para atender a estas mães?
Edno Araujo – SP.