Por Maria Lucia Solla
Olá,
É sábado, quase uma e meia da tarde, e me dou conta de que faltam menos de duas horas para o nosso encontro. Projeto na minha tela mental, usando criatividade de ponta, uma possibilidade do que vai acontecer durante a tarde e o início da noite. Capricho no filme; imagino cada detalhe e fico assistindo, encantada e confortavelmente, o olhar perdido no sonho.
Volto à realidade arrastada por um pipocar de descompassos internos – que sobrecarregam coração e estômago – provocados por míni descargas de adrenalina, e sou empurrada para o chuveiro, por uma revoada de borboletas, no estômago. O tempo bate asas também, e ainda quero tomar banho, lavar cabelo, decidir o que vestir e, principalmente, não me atrasar. O relógio não perdoa. Vai ser bom chegar lá primeiro; quero tentar criar certa familiaridade com o lugar, uma vez que minha relação com grandes shoppings sempre foi péssima.
Sabonete com cheirinho de laranja, xampu e creme com aroma de frutas e o incrível prazer do banho me acalmam um pouco. Um toque de batom nos lábios e nas maçãs do rosto, e é a vez da roupa. E agora? Decido pelo conforto, que embeleza mais que cirurgia plástica. Jeans e blusa com decote em vê ganham por maioria absoluta. Tênis? Melhor as botas verdes. São mais divertidas, e riso é fundamental. Um toque de perfume, e fecho tudo com uma dezena de pulseiras e correntes de prata, cintilando à volta do pescoço. Quem sabe o registro da minha presença, um dia, possa ser reconduzido a mentes e corações, no rastro da cor e do aroma, do tilintar de sinos e, por que não, de pulseiras?
Chego quinze minutos adiantada. Não me sinto só uma estranha no ninho. Sou uma estranha no ninho só, e as pessoas em volta me fazem sentir ainda mais só. A ansiedade, que deveria ter deixado em casa, me faz esquecer de marcar andar, cor e número do espaço onde deixei o carro. Registro mentalmente a necessidade de comprar uma caderneta de anotações e pendurá-la no pescoço ou, numa versão mais moderna, comprar um gravador digital – disco rígido externo.
Na frente dos cinemas ando de um lado para o outro; devagar, para quebrar o descompasso entre a excessiva imobilidade do corpo e a frenética agitação dos neurônios, seja lá qual for o meu patrimônio. Sou quase um farol marítimo descontrolado, numa ilha pequena. Olho para todos os lados e, às vezes também, para cima e para baixo. Não quero ser pega desprevenida. Outras descargas de adrenalina podem ser fatais. Melhor prevenir.
Na manhã seguinte sou envolvida por braços amorosos, enlaçada por pernas ansiosas, e sou beijada, beijada, beijada.
Vó, a gente já acordou, e não quer ir embora nem hoje.
A gente quer ficar com você.
Vó, posso tirar foto?
Vó, quero mingau de aveia.
E eu quero tomar banho de banheira.
A folia, na cama, durou mais de uma hora, e nunca me senti tão bem amada.
Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.
Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro De bem com a vida mesmo que doa, lançado pela editora Libratrês. Aos domingos, está neste blog com textos sobre o cotidiano.
Olá Maria Lucia
Como sempre somos agraciados pelos seus lindos temas e fislosofia.
Parabéns
Boa semana
Armando Italo
Olá Malu! Que bom que deu tudo certo nesse final de semana, pena que tive que ir embora antes de me despedir de vc e deles! Se você quiser podemos marcar mais desses !! Beijo
Olá, Armando,
obrigada pelo carinho. Escrever é um ato mágico, mas solitário.
Raquel, você é tri especial, guria!
Beijo e boa semana,
maria lucia
Ótimo Maria Lúcia!!!!!
VC está me encantando com os seus textos a cada domingo. Me fez rir muito ao final.
Grande abraço.