De palavras e certa digressão

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Ah caríssimo São Longuinho, me ajuda a achar as palavras que eu dou três pulinhos, dizia minha avó, italiana de Palermo. Minha mãe manteve a tradição, e eu, que adoro uma história diferente, adotei o esquema. Perco alguma coisa, corro para São Longuinho; ponho foco na tarefa, vasculho cada canto, encontro a tal da coisa perdida e, cansada da busca, além de dar o crédito a ele ainda pago três pulinhos. Será fruto de folclore, ou ele ajuda mesmo? Só sei que nunca tentei ficar escarrapachada na poltrona, pedindo que ele ache o perdido e que o traga para mim.

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Fiz uma pausa na caçada às palavras para falar com minha amiga Suiang, que acompanha de perto minhas sandices. Batemos o ponto, perguntamos uma da outra, família, amores, trabalho… E, claro, acabamos falando de amor. Já viu duas meninas conversando, qualquer que seja a idade delas? Acaba sempre em amor, receita nova, filhos, amor, amigos, brinquedos novos, trabalho, amor, muita idéia para mudar o mundo, começando por marido, filhos… Mas a gente também fala de brilho, lantejoulas e paetês, do último livro lido e praticamente impingido aos amigos, como se fossem todos, homens e mulheres, legítimos clones seus… Bem, mas, o que é que eu procurava? Ah sim; palavras. Enquanto não as encontro vou contar rapidamente, editando, por onde passeou o nosso papo.

Enveredamos pelos caminhos do amor, é claro, e chegamos ao amor incondicional; aquele divulgado pelo Mestre Jesus e outros; lembra? Pois bem, amar incondicionalmente é amar sem nenhum “mas” agregado à declaração do sentimento maior, pelo ser que merece o melhor do seu amor. Parece que nós, terráqueos bípedes, continuamos confundindo amor com certificado de propriedade. Dizemos que o amor é precioso, mas condenamos o ser amado a um confinamento velado, e às vezes não tão velado assim. Fazemos de tudo para que o outro seja o nosso eu de calças, ou no caso dos meninos, que seja o nosso eu de saias. Minha avó, a mesma lá de cima, também disse que é de pequeno que se torce o pepino. Hoje sabemos, pelos cientistas, que somos pepinos sujeitos a torcida, apenas até os sete anos de idade. Nesse ponto, a configuração está completa. É possível atualizá-la e até trocar programas; mas só se quisermos. Eu disse a ela: Su, acho que começo a sentir o gostinho desse amor incondicional, mas não sei dizer o que é que me levou a ele. Teriam sido as cerimônias de batismo e crisma? O TAO que recebi há alguns anos, yoga, musculação, reiki, do-in, tarô, reza brava, florais de Bach e de Beethoven, leitura das idéias dos grandes mestres, as velas que adoro acender, meus diálogos com o próprio Criador, com a lua, o sol e as estrelas? Ou será que foi ele que veio a mim, trazido pelos pássaros agradecidos pela banana fresquinha pendurada nas primaveras?

Nossa, o tempo voou e falei demais. Peço licença e me despeço. Acabei cercada de tantas palavras, que só me resta dar três pulinhos. Se bem que hoje as encontrei meio desencontradas, mas você há de me entender.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês, escreve todos os domingos aqui no blog e agora pegou a mania de conversar com os ouvintes-internautas que deixarem comentários logo abaixo.

12 comentários sobre “De palavras e certa digressão

  1. Oi amiga , primeiro me arrepiei de emoção , depois até “uma lagriminha” de saudades , porque de viva voz é muito mais forte . Parabéns pela nova experiência . Bjs , saudosos . Maryur

  2. Milton e Maria Lucia, esta estréia da forma mais antiga da comunicação humana, que é a oral, levou-me a uma viagem na história.Até a invenção da escrita a humanidade vivia numa cultura oral, que como sabemos é mais solene . A tal ponto que estudiosos dizem que a Inglaterra, país que mais permaneceu na cultura oral, não só manteve a Monarquia como também não teve a sua Revolução “Francesa” em função da tradição oral.
    Voltando ao texto, intensificado ainda pela música, a audição foi bem mais solene e tradicional do que a simples leitura visual.Fundo musical.voz bem postada e texto afinado e refinado , é efetivamente um clássico.
    Parabéns.

  3. Oi Malu!
    Parabens! Antes quando lia sozinha ouvia sua voz de funo parecendo que estava falando comigo, agora posso escutar vc realmente lendo e eu só acompanhando, parecendo que nos deixa mais perto de vc!
    Um beijo grande

  4. Maria Lucia fiquei feliz com o resultado, embora eu possa melhorar ainda a qualidade. Porém fiquei muito , muito mais feliz de poder ajudar a proporcionar aos seus leitores e agora ouvintes, as emoções descritas abaixo. E também muito feliz por ouvir pela primeira vez meu trabalho de técnico de gravação, elaborado em meu pequeno home estúdio, exibido publicamente e ainda enrriquecido pela tua voz, dicção e empostação, e pelo conteúdo do teu texto. Quanto ao amor incondicional! Eu vou pensar mais sobre o assunto, porém de ante mão acho difícil existir entre homem e mulher. Foram muitos os protocólos, as regras, os tabus incutidos em nossa sociedade. Alguns deles desde de antes de nossos tataravós. E existem até hoje. Embora eu não negue que o amor e os relacionamentos tem evoluido, e graças a Deus, muito. Quem sabe nossos tataranetos vivão num tempo onde o amor incondicional seja natural.
    Bjão Luiz Eduardo

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