De cinema

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Lá se vão sete anos que tenho passado quieta, reflexiva, e encastelada. Mas o que vejo lá longe? Aqueles vultos acenando lenços brancos, seriam os últimos meses do meu último ciclo de sete anos, se despedindo? Suspeito que sim; afinal, é tempo de mudar. A lua está crescendo, a primavera chegando e o sol começando a se mostrar sem muito pudor. Numa tarde gostosa, ao pôr-do-sol, lembrei de ter comparado a vida a uma trama de romance, num texto que escrevi em maio de 2006. Vou repeti-lo aqui, não por falta de assunto, mas pela importância do olhar para trás para avaliar a própria vida.

Aqui vai o texto:

Tenho andado muito quieta e pensativa. Fase de reavaliação de vida; sabe? De vez em quando é bom; é saudável. Na quietude, cheguei a uma imagem que tem me ajudado muito e que gostaria de compartilhar com você. Imagine que sua vida é um filme, e você, o protagonista de sua própria história. As pessoas que contracenam com você são apenas representações de si mesmas porque o verdadeiro eu de cada um só pode estar num único lugar, no seu próprio filme, protagonizando e produzindo o espetáculo. Quando não estão com você, continuam a atuar em seus filmes, contracenando noutros, e assim, infinitamente. Cada um tem seu próprio enredo, e interage e faz papéis pequenos ou de grande importância, em filmes alheios.

Não podemos perder de vista o fato de sermos coadjuvantes no filme dos outros, porque só podemos protagonizar nosso próprio filme. Quando alguém é agressivo com você, está apenas interagindo com mero representante seu e não com o verdadeiro eu. A cena se passa no filme desse alguém enquanto no seu próprio filme você pode se relacionar com as pessoas, da maneira que escolher – agredindo e se defendendo, entrando de cabeça no script deles ou escolhendo o seu papel e sendo fiel ao seu personagem e respeitando o personagem do outro.

Cheguei à conclusão de que prefiro escolher o papel do mocinho, do valente, do divertido, do artista, do idealista, do herói, do feliz, do realizado e satisfeito. Abro mão do papel de bandido, mal-humorado, ignorante, desesperançado, infeliz e insatisfeito. Percebo cada dia melhor minha responsabilidade pelas escolhas que faço e compreendo que o ensaio é o único caminho para uma excelente representação. Portanto, primeiro preciso decidir que papel quero representar no filme da minha vida e depois preciso ensaiar com dedicação e disciplina. Não me satisfaz um personagem medíocre; uma atuação de segunda linha.

Fomos treinados a reclamar de tudo que acontece contra nossa vontade e a reclamar daquilo que não acontece, apesar do nosso desejo. Precisamos cuidar mais da qualidade do nosso filme. Atenção especial para os cenários, para aparência pessoal e, principalmente, para a continuidade e a coerência do personagem. Belo desafio, não é?

Pois bem, vinte e sete meses se passaram e estou saindo da toca, satisfeita com o andamento do meu filme. E o seu; como vai? É sempre bom lembrar que o filme de ninguém deve ser mais importante nem mais apaixonante do que o seu. Divirta-se. Faça o melhor filme que puder.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça este texto na voz da autora

Maria Lucia Solla é professora, terapeuta e autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, lançado pela editora Libratrês. Todo o domingo escreve aqui no blog a espera de dividir com você conhecimento e emoção.

6 comentários sobre “De cinema

  1. Muito bom o ensaio.Apreciador de cinema e de cineastas, tanto internacionais quanto nacionais, vide Spilberger e Jabor, acho até que a vida está copiando o cinema.
    Nesta condição , a sua colocação de protagonizarmos o próprio filme e coadjuvarmos o dos outros, é bastante interessante.Gostei muito.

  2. Obrigada, carlos magno.
    A sua leitura do texto já é privilégio meu. Seu comentário, ouro puro. Vou manter meu ego bem firme, na coleira.
    Boa semana e até quarta-feira,
    ml

  3. Malu, muito bom seu texto, essa visão de um filme é muito verdadeira…e pensar que sempre fazemos uma pontinha no filme das pessoas…..é bem legal penssar assim !!!
    Bjo Malu

  4. Muito boa observação! – Cada um assiste seu próprio filme, critica, muda, volta e reinicia quando quiser. Para sempre sair “melhor na fita”…
    Parabéns. Mario Baccarelli

  5. A vida de cada um pode ser um filme de terror, comedia, drama, suspense ou um simples e ingênuo desenho animado.
    Vai depender somente das suas ações, das atitudes e da maneira de pensar dos protagonistas.
    Mais uma vez parabéns pelo belo texto M.L.
    Abraços
    Armando Italo

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