Proibido estacionar. “E daí, velho?”

Proibido estacionar. “E daí, velho?”

Por Fernanda Campagnucci

A casa de Ladislau fica bem em frente à Universidade Paulista (Unip). Ou melhor: a Unip é que fica em frente à casa do alfaiate de 85 anos e meio, que mora ali há 58.

De um lado da casa, um bar. Do outro, uma reforma – um futuro bar, também, dizem. Parece uma ilha, como observou D. Isabel, esposa de Ladislau.

Quando cheguei à Rua Antônio de Macedo, D. Isabel esperava o marido no portão da casa, com uma bengala na mão. Ele tinha ido comprar pão. Mas, nos últimos dois anos, pelo menos, a rotina dos dois tem sido assim: depois que anoitece, após um dia inteiro de trabalho em casa, Ladislau fica do lado de fora vigiando o portão (para que ninguém estacione em frente à sua casa). Quando a janta fica pronta, D. Isabel é quem cuida da garagem, apesar de sua dificuldade em andar.

O barulho da música e das conversas altas que ouvi nem é o que mais incomoda o casal. Eles já se acostumaram. O que incomoda, entre outras coisas, são as respostas absurdas que ele ouve quando pede aos garotos e garotas que respeitem a garagem de sua casa, a placa “proibido estacionar” e a guia rebaixada. Seu filho chega cansado do trabalho, depois de três horas de trânsito, e não tem como entrar.

Filhos de imigrantes húngaros – na verdade, Ladislau nasceu na Hungria e chegou com três meses e três dias ao Brasil – o alfaiate e D. Isabel conviveram com figuras importantes da política e das artes, por conta desse trabalho. Pelas mãos de Ladislau e de seu pai, foram feitos ternos e fraques para o conde Matarazzo, Antônio Ermírio de Moraes (“gente boníssima”), Adhemar de Barros, General Emílio Garrastazu Médici – que conheceu em Bagé em 1943, quando este era ainda capitão – Romeu Tuma. Ele vai e volta no tempo. Saía com o playboy Baby Pignatari. Encontrou o violinista francês Georges Boulanger – que lhe deu o calote, mas, segundo Ladislau, “ele podia”. Ele se lembra do conde Matarazzo, que às vezes dizia que seu pai cobrava pouco:

– Mas como! (Ladislau imita o sotaque italiano) Você vive de brisa? Tem que cobrar o tempo que trabalha, rapaz!

Ladislau conta tudo com seu jeito jovem e esperto, mas está cansado. Ele trabalha bastante ainda, mas só faz consertos – coloca zíper, faz barra. Confecção, mesmo, ele não faz mais. Na época em que ele tinha uma alfaiataria na Penha (de 1964 a 1986), “era uma média de 95% de roupa nova, 5% de conserto”. Agora o número se inverteu.

– A gente se chateia porque percebe que não é dono de nada. Estamos cercados numa ilha, xingados por todos os lados.

Depois das 19 horas, alguns alunos (e até professores, garante Ladislau) tentam estacionar em frente à sua casa. Se a pessoa insiste em ficar, ele pede que, pelo menos, deixe o lugar onde está, para que ele possa avisá-lo.

– Não, velho, a rua é pública!

Ladislau interrompeu nossa conversa duas vezes. Enquanto falava, ficava atento ao barulho dos carros no lado de fora – afinal, teve que sair de seu posto para conversar comigo (sua visita) na sala.

– Sou obrigado a ficar lá fora todas as noites e…. olha aí! Alguém vai parar! Vou lá ver.

Depois de alguns minutos, alguém o chama à porta. Era a CET. Queriam avisá-lo que, a partir de agora, um agente da Companhia fiscalizaria a rua com especial atenção.

Cético, Ladislau me contou, sem entusiasmo, o que os funcionários da CET falaram. Depois, voltou à rua, desta vez para abrir o portão para seu filho.

– Ah, mas você deve vir aqui na quinta ou sexta-feira! É muito pior! Isso daí não é nada – disse o filho de 56 anos, exaltado – Para você passar na calçada já é difícil, eles ficam todos sentados aqui. Quando minha mãe sai, ninguém dá passagem. Deixam as garrafas no chão, chamam meu pai de velho babaca, para não dizer pior.

O filho deles já sugeriu aos pais que vendam a casa, saiam dali. Que eles, os mais velhos da rua, seriam expulsos. Olhei para seu Ladislau e D. Isabel para ver se concordavam, mas só vi o olhar vazio, de quem não sabe o que fazer.

O convite ficou para que eu voltasse numa quinta-feira, mas tive a certeza de não precisava ver para crer. Tirei fotos da placa “Proibido Estacionar”, do portão. Se ela estivesse ali ou não, não importava. A resposta é sempre: e daí, velho?

Fernanda Campagnucci é quase-jornalista e estagiária da CBN. Visitou Ladislau depois da denúncia que um ouvinte enviou à rádio.

13 comentários sobre “Proibido estacionar. “E daí, velho?”

  1. Isso aí são universitários.

    Teoricamente a fatia da população com maior acesso à educação.

    Eu devo ser mesmo um boçal, que ando pela cidade prestando atenção no que faço para não incomodar os outros. Confesso que isso me stressa bastante.

    Postura como essas reportadas pela Fernanda são, em minha opinião, a causa do Brasil ser esse paraíso dos aproveitadores.

    Tomara que a CET fiscalize mesmo a rua do sr. Ladislau, pois pra mim seria um sinal de que ainda dá pra mudar as coisas.

  2. CET’s ou “amarelinhos” essa é pra voces ficarem com vergonha e pararem de fazer de conta que esta tudo certo.

    Parem de manter a pose nas esquinas com seus bloquinhos e olhem para o que realmente precisa.

    Peróba Neles….

  3. Bom dia Milton.
    Pois bem, não só este senhor sofre com o barulho noturno, eu moro na Bela Vista, e na Rua Conselheiro Carrão nº 451 tem o Bar Lua Nova, e este local não tem isolomento acústico e tirando as noite de domingo e de segunda, o resto da semana fica até tarde com música ao vivo, já fiz inúmeras reclamações no Psiu e tenho um protocolo na Ouvidoria paulista de nº 13069/2007 e como este Bar Lua Nova é de um ex-policial militar, eu e outros moradores ficamos doentes sem dormir !!
    Tenhos todos os email que escrevo para a Ouvidoria e suas respostas, quem sabe vinculado ao seu blog a Prefeitura tomará alguma providência.

  4. Isso é apenas uma amostra de uma juventude mal educada, sem limite e sem o mínimo senso de cidadania….experimente ficar num shopping estacionado e ver quantos “idosos” param nas vagas destinadas à eles…quem pára nessas vagas são, na maioria jovens e sem educação!!! Ainda bem que um dia ficarão idosos e precisarão dessas vagas…..

  5. Eu tb sou um boçal: procuro seguir as regras de uma cidade urbana, procuro não incomodar e coloborar com o alheio. As vezes chego ao absurdo de reprender ditas “autoridades públicas”, por estacionarem em locais proibidos, correndo o risco de entrar em cana. Mas não adianta, tenho boçalidade crônica.

  6. Temos aqui dois grandes problemas que precisamos enfrentar.
    Primeiro, a preferencia por quem não mora e sim quem está de passagem. Essa conversa do direito de ir e vir é mal colocada, pois este direito significa locomoção individual e não motorizada.
    Segundo, a preferência pelo automóvel em tudo que possa existir. Direito de ir e vir sim, a pé, respeitando também o direito de dormir.
    Há que lutar.

  7. Admito que fiquei menos comovido com a falta de respeito absurda que esses “universitários” impõem àquela familia do que com a propria historia de vida do senhor Ladislau… Puxa, que extraordinária historia de vida!

  8. Parabéns pela matéria Fernanda!
    Com relação ao desrespeito,infelizmente isto ocorre com freqüencia em tudo quanto é lugar,o pior é que quem comete esse ou outros erros querem nos provar que estamos errados ao reclamar,é realmente um absurdo!
    Pior,não são só universitários que fazem isso,muita gente que deveria dar bons exemplos fazem tudo da forma errada achando que são muito espertos e que os “boçais” como eu e outros que aqui fizeram seu comentário somos todos idiotas!!!
    Tudo bem,podem chamar do que quiser mas tenho orgulho da educação que recebi dos meus pais,faço a minha parte!

  9. Cara, que senhor maneiro este seu Ladislau.Pena que esse pessoal não respeita nem idoso. Sinceramente eu penso se a cada resposta mal educada, alguém usasse um prego ou uma chave(nao para abrir algo) acho que teriam as respostas para essas frases mal-educadas desses vagabundo pseudo-estudantes universitários. Mas claro que isso está fora de questão pois somos todos politicamente corretos(outro lixo).
    Como é triste uma das alternativas ser se mudarem do local que vivem há anos já que as autoridades não fazem ou fazem só quando apelam para programas que ajudam o cidadão. Acho ridículo essa “modinha”de ser mal educado,folgado..já tá enchendo o saco ver tanta má educaçao,tanto mal caratér e todas essas porcarias de malandragem e ainda ter essas atitudes de propósito. Pior que alguns da imprensa valoriza essas coisas em certos programas.Torço que a CET cumpra a promessa e,tb, q esses animais(os tais “universitários” q na verdade ñ são,pelas atitudes) se tornem civilizados . Respeite este senhor. por favor!!!!

  10. Danilo Aveiro,do comentário 2.Concordo com tua frase.
    Fernanda Campagnucci, parabéns pela matéria, vai conseguir vaga na CBN hein hehe! Bom,pelo menos conseguiu expressar bem com a matéria escrita.parabéns! Milton,parabéns por dar oportunidade para ela postar no teu ótimo Blog!

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