Do tudo que vem do nada

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Assustadoramente já é quinta-feira. Prazo limite, com alerta vermelho para eu enviar a coluna para o jornal. Desde que acordei, estou agitada. O prazo limite, com alerta amarelo, foi ontem de manhã. Há dois dias venho tentando. Verdade. Dei o melhor de mim, e nada! Ultrapassei o limite da hora de dormir e só fui cambaleando para o quarto, quando percebi que meus olhos já não distinguiam o teclado do computador, do mouse; e vice-versa. Uma palavra não conseguia combinar com outra, e pensamentos brotavam de toda parte, dançando todos os ritmos possíveis, menos aquele que poderia encaixar na minha música. Aí pensei, vou falhar. Não vou escrever e pronto.

A situação era mais ou menos esta. Cabeça cheia, pensamentos querendo sair fantasiados de palavras, só que todos ao mesmo tempo, e acabavam embolados, na tentativa. Um caos. Fui dormir triste, mas finalmente fui. Parei. Quando não se sabe o que fazer, o melhor é não fazer. Quando não se sabe o que dizer, se não for possível calar, é melhor ao menos filtrar o que se diz.

Hoje acordei assim, assim. Não sabia por onde começar. Meditar, nem pensar. Quando você mais precisa é que não consegue mesmo. Comer? Tinha a garganta entupida por palavras natimortas, e o estômago cheio das não ditas e de sentimentos que borboleteavam sem trégua. Foi aí, no meio da confusão que o celular tocou. Apesar de atrasada, fiquei muito feliz de ouvir a voz do meu primo Pedro. Um dia destes vou contar para vocês sobre o presente que a vida tem me dado. Nestes últimos dois meses e meio, tenho ganhado, a prestação, uma preciosa família que eu nem sabia que existia. Pois bem, Pedro é um primo que vem nesse pacote. O primeiro que chegou. Ligou para dizer, basicamente, que gosta do que eu escrevo. A generosidade dele me destravou e me permitiu chegar até aqui.

Até então eu estava tentando escrever sobre a possibilidade, hoje no Brasil, de comprar uma ferramenta que quebre o sigilo telefônico de qualquer pessoa. No caso, por menos de mil reais, e em redes espalhadas por todo o território nacional, feito loja de eletrodomésticos.

Só que as ferramentas são seres humanos!

Agora entendo que eu não tinha, mesmo, nada a dizer sobre isso. Criticar para quê? Para competir com peritos? Sem dizer que minha crítica não traria nenhuma tonalidade nova para a situação. Seria inútil; pura descrição. Melhor não. A única idéia que me ocorre, como sempre, é revolução na educação e na consciência de cada um. Só que quando – e se – isso realmente acontecer, o resultado estará completamente instalado – como programa de computador – daqui a, pelo menos, três gerações. E não conheço muita gente que aceitaria um contrato de investimento para que seus tetranetos pudessem receber dividendos. Você conhece? Mas é bom lembrar que, nas letrinhas bem miúdas no final da página, existe a garantia de retorno individual imediato. É só experimentar.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça este texto na voz da autora

Maria Lucia Solla é terapeuta e professora de língua estrangeira, autora do livro “De bem com a vida mesmo que doa”, publicado pela Libratrês, e todo domingo está aqui no blog nos ajudando a pensar melhor a vida.

12 comentários sobre “Do tudo que vem do nada

  1. Maria, com toda certeza a ausência de pensamento reflexivo torna a critica repetitiva e igual e condena o pensamento livre. Usurpa de nós a capacidade de interpretar informações pelos sentidos, segundo padrões, que originalmente lhe eram internos. Desta forma não há mais ação alguma, (pura descrição como bem definiu) e traz o sentimento de ‘frenesi’. Mas sendo assim, seria o fim do desejo de pensar, refletir, criticar, isto é, se a cultura do pensamento pronto e a inação política confere a tudo um ar de semelhança, é o fim da diferença !! Daí, pensar pra quê?

    Não saber por onde começar pode ser justamente a ‘rememoração’ que nos excita a lembrar como pensar e decidir. Por isso contar histórias continua sendo a melhor saída. Continue assim…

    abs,
    _

  2. Maria Lúcia vou pensar muito em:
    – “Quando não se sabe o que fazer, o melhor é não fazer. Quando não se sabe o que dizer, se não for possível calar, é melhor ao menos filtrar o que se diz.”
    Nas letrinhas miúdas dos pensamentos na minha cabeça, sempre há um excesso quando não sei o que decidir, mas às vezes penso que o silêncio é uma forma de decidir.
    Parabéns mais uma vez.

  3. Rafael, obrigada. Não se esqueça que é assim que eu penso. Se tiver fórmulas boas de ficar de bem com a vida, manda que eu vou adorar pensar nisso também.
    ml

  4. Lù querida já estava sentindo falta do teu comentário semanal , faz parte de meus domingos , uma parte muito boa aliás .Concordo que em certos momentos , é melhor aguardar do que só discutir, se não pudermos contribuir .
    Quanto à campanha agradeço tua torcida positiva e,
    começo a pensar que com todo apoio dos amigos , e tanta energia positiva o Di voltará , bjs saudosos .
    Maryur

  5. Ola M.L
    Mais uma vez nos agracia com um belo texto
    Porém posso resumir da seguinte forma, aplicando alguns princípios básicos.
    1-PROPOSIÇÃO
    2DELIBERAÇÃO
    3-DECISÃO
    4-AÇÃO
    De nada adiatara ficar no terceiro.
    Não é verdade?
    Uma boa semana a todos.

  6. Armando Ítalo,
    Agora, na era de aquário, a lista ficou mais simples e, ao mesmo tempo mais delicada.
    Os 3 primeiros itens da tua lista são substituídos por intenção. A seguir já vem a ação.
    Sem esquecer de que a não-ação é ação também. Pense nisso e me diga o que acha.
    Beijo e boa semana,
    ml

  7. Armando,
    muito freqüentemente a não-ação tem resultado mais forte e evidente do que a ação. Vejo a vida com a linguagem do computador. zero e um. Mais um reflexo do planeta dual que é a terra. Tudo tem o seu oposto, não é?
    ml

  8. Na maioria das veses, dependendo a situação, do momento, a não ação, a incercia pode trazer resultados extremamente desastrosos.
    Como pode também levar a resultados positivos.
    Bom dia
    Bjus

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