“Transparência” e “participação” na democracia brasileira

Fabiano Angélico

No programa de governo da candidata apontada como líder à corrida pela Prefeitura de São Paulo, Marta Suplicy (PT), a palavra “transparência” aparece apenas uma vez, assim como “Internet”. Já a palavra “participação” é citada 12 vezes no documento, que tem 52 páginas.

O atual prefeito da capital paulista e candidato à reeleição, Gilberto Kassab, conta com um programa de governo de 112 páginas. No documento, “participação” aparece 11 vezes. Mas o termo “transparência” só é lido em cinco trechos; “Internet”, em três.
No programa de governo de Geraldo Alckmin, o cenário é o mesmo. Fala-se em “participação” (três vezes), mas “transparência” é um termo que não aparece uma única vez no documento de 60 páginas.

Lendo o programa de governo dos três mais bem colocados postulantes à Prefeitura da cidade mais rica do país, conclui-se que nenhum deles apresenta propostas claras de transparência.
Uma das definições de democracia, segundo o dicionário Houaiss, é o “governo no qual o povo toma as decisões importantes a respeito das políticas públicas”. Porém, não é o que acontece no Brasil. Por aqui, o “povo” só participa da democracia no momento do voto.

Afinal, como o “povo” tomará “decisões importantes a respeito das políticas públicas” se não se conhece bem os problemas? Se não há acesso a dados objetivos, de que forma haverá o controle social? Sem que saibamos a quantas andam as matrículas nas escolas? Sem números sobre atendimentos ambulatoriais?

Para tentar legitimar a “participação do povo”, foram criadas nas últimas décadas algumas instituições formais que contam com pessoas de fora dos governos. Assim, há o Conselho Nacional de Educação, e várias cidades contam com o Conselho Municipal de Segurança, por exemplo. É desse tipo de coisa que falam os programas dos políticos (quando falam de algo mais palpável).
Mas esse tipo de participação não basta. É preciso criar uma política clara de transparência. Diretrizes sobre disponibilização de dados. Mais de 70 países já têm uma lei federal de acesso a informações públicas, mas o Brasil está fora dessa lista. Na América do Sul, Argentina, Chile, Colômbia, Equador e Peru têm leis que regulamentam o acesso a dados públicos. Mas o Brasil, a maior economia do subcontinente, está ao lado de Bolívia, Paraguai, Uruguai e Venezuela.
Evidentemente, não é preciso esperar uma lei federal para que um município dê transparência a seus dados públicos. Daí a responsabilidade dos candidatos a prefeito.

A disponibilização de informações por parte dos entes públicos não serve apenas para que se perceba melhor os problemas na saúde, na educação ou na segurança. A transparência sobre os fatos que se passam na esfera dos governos também inibe a corrupção.

E a maneira mais óbvia de dar transparência aos atos do Estado, atualmente, é pela Internet. É mais econômico e de mais fácil acesso, num país em que cerca de 40% da população já usa a rede, porcentual que certamente crescerá nos próximos anos.

Além mais fácil, econômica e democrática, a disponibilização de dados públicos online permite a diversos atores sociais (ONGs e imprensa, por exemplo) explorar as informações e discutir medidas para aperfeiçoar as ações dos governos, em prol do bem comum.

Em democracias mais amadurecidas, a discussão está em outro patamar. Nos Estados Unidos, o candidato democrata Barack Obama coloca, em seu programa de governo, que os “dados sobre a administração pública estarão disponíveis online em formatos universalmente acessíveis para que os cidadãos possam se utilizar dos dados”. O candidato republicado, John McCain, também se mostra entusiasmado com o uso da Internet como plataforma para a democratização do acesso a informações públicas.

Imaginar um cenário desses para o Brasil é o mesmo que sonhar acordado? Possivelmente. Mas não por razões tecnológicas. É razoavelmente simples para o poder público disponibilizar dados online. O que falta é a tal vontade política.

Fabiano Angélico é jornalista e coordenador de projetos da Transparência Brasil, ONG de combate à corrupção.

5 comentários sobre ““Transparência” e “participação” na democracia brasileira

  1. Democracia está longe de acontecer, onde o Presidente faz o que quer os Deputados fica na mão dele. o Voto é obrigatório(claro que posso anular) e eles além de receber muitas doações, cx dois ainda ganha horário grátis para falar um monte de besteira, não conheço ninguém que assiste, eles não podem dizer as propostas pois são todas em benefício próprio, fica difícil. Horário político grátis deveria ser proibido eles não recebem doações para fazer a campanha? Podem pagar seu horário para besteiras. Isso é Democracia? Onde?
    Grata
    Riso

  2. Acho a postura e o trabalho de Kassab muito transparentes e coerentes. Um documento não tem como expressar isso perfeitamente. Mas, dado que o programa de Kassab foi o que mais martelou na tecla “transparência”, já vejo um excelente sinal. A transparência e objetividade de Kassab têm sido tão presentes, que a aprovação de sua gestão é excelente, conforme pesquisa Datafolha. Suas expectativas de votos sobem desenfreadamente, enquanto a dos demais candidatos cai.

  3. André: A transparência do discurso não aparece no ato. A prefeitura de SP ainda não cumpriu lei municipal que obriga o executivo, assim como o legislativo, a publicar na internet o nome de todos seus funcionários e respectivos cargos. A Câmara Municipal, sejamos honestos, já tomou esta medida.

    Também não foi implantada a lei que obriga a prefeitura a divulgar seus índices de produtividade em cada secretaria.

    E, por fim, as subprefeituras não divulgam dados sobre recursos investidos nas suas regiões como exigido pela legislação.

  4. Todo mundo fala em democracia
    Na minha opinião a constituição de 88 foi planejada e elaborada somente em benefício dos políticos em geral.
    E o salário do povo
    òooooooooooooo

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