Vitor Mattos: “A estrada é um vício construtivo”

Por Adamo Bazani

Paixão. É este o sentimento que o paulistano, nascido em Perdizes, que morou cerca de 40 anos no Jaçanã, zona Norte de São Paulo, demonstra quando o assunto é transporte de passageiro. Vitor Mattos, é motorista, e ainda trabalha no ramo. Transporta estudantes no próprio ônibus, em Minas Gerais.

Ele começou a trabalhar em uma Kombi, aos 13 anos, mesmo sem carteira de habilitação. Vitor diz que aprendeu a dirigir vendo os motoristas de ônibus da empresa paulistana Nações Unidas: “Eu sempre corria para os bancos (pós porta dianteira) e não tinha quem me tirasse de lá”. Os ônibus eram de direção dura ainda, Mercedes Benz, com carrocerias Bela Vista e Jaraguá .

O primeiro ônibus que Vitor conduziu foi por acaso. Era uma viagem do litoral de São Paulo à capital paulista. Ele recorda que o motorista na época, apelidado de gaúcho, tinha bebido demais e passou mal na estrada.  Vitor não teve dúvidas: “Assumi a direção e trouxe o ônibus até o planalto, ai o “óleo diesel” entrou no sangue e não saiu mais”.

Aos 18 anos, em 1977, começou a trabalhar na Turfe Turismo, uma pequena empresa de Guarulhos. A idade não era suficiente ainda para guiar ônibus rodoviário, mas na época, muitos motoristas de ônibus começavam cedo mesmo. A Turfe fazia linhas de fretamento em médias e curtas distâncias.

Mas o sonho de Vitor mesmo foi a estrada, onde ele construiu sua vida, aprendeu muita coisa e viu as cidades crescerem sob os possantes que dirigia. Conseguiu uma vaga na Expresso Brasileiro Viação, por onde passou várias vezes, e dirigiu os ônibus da Viação Impala, Andorinha, Cometa, gigantes no setor. Ele disse que era notória a diferença entre as empresas de grande porte e as menores. Nas grandes, o motorista apenas dirigia. Nas outras tinha de limpar, entender da manutenção, etc.

Diferente também era a rotina na estrada e na cidade.

“No serviço urbano, você tem um esforço físico e mental maior, mas está todos os dias em casa. No rodoviário, você trabalha com mais “luxo” se podemos dizer, mas ao mesmo tempo  você  trabalha muito a noite,  e praticamente trabalhei a vida inteira a noite, até porque gosto de rodar a noite e os percursos são maiores e você praticamente fica um dia em casa e um fora ( dependo da linha) e os passageiros geralmente são “mais educados”.

“E no fretamento e turismo é um misto dos outros dois, porque de 2ªa 6ª é um serviço “urbano” melhorado e aos finais de semana se torna um “rodoviário” piorado, pois geralmente os passageiros vão bebendo, bagunçando,  sujando o carro que, aliás, é o motorista que limpa na maioria das vezes, pra fazer a linha no outro dia cedo. Ou então faz viagens mais longas onde fica dias fora de casa, e servindo de guia turístico nas cidades que às vezes você não conhece ou mal conhece a entrada e saída”

A rota Rio – São Paulo foi uma das que mais percorreu na carreira. Foi nessa  linha que viu coisas que jamais conheceria se não pegasse a estrada. Prá começar, Vitor viu tanto São Paulo como o  Rio de Janeiro se transformarem muito rapidamente. Testemunhou a duplicação, reformas, asfaltamentos diversos em rodovias como a Presidente Dutra e Fernão Dias, quando os itinerários eram outros. Viu empresas do setor de transporte nascerem e desaparecerem, assim como empresas de outros ramos. Nos dias de chuva, a estrada era um perigo maior, ainda mais à noite. Com tristeza, Vitor lembra que muitos amigos perderam a vida em acidentes gravíssima, muitas vezes por imprudência e imperícia dos outros motoristas ou dos próprios condutores dos ônibus.

Na estrada, teve um contato muito maior com o semelhante. Ele explica que cada passageiro é uma história, que, de certa forma, ele participou. E era gente de todo o tipo. Pessoas grosseiras, outras tímidas, mas que, quando descobria quem era, até se espantava, pela importância social e ao mesmo tempo, humildade. Na época, mesmo já com a aviação, artistas, generais, empresários, usavam constantemente os ônibus nas ligações Rio – São Paulo. Ele lembra que teve de expulsar um famoso cantor dos anos 80 do ônibus, porque estava bêbado e incomodando os passageiros.

Mas a relação com os passageiros era uma das coisas que mais gosta e afirma enfaticamente que é o motorista quem faz o passageiro. Se o usuário encontra um motorista asseado, educado e disposto a esclarecer dúvidas e tratá-los bem, a relação é harmoniosa.

A relação mais próxima entre empresários e motoristas também desperta saudades em Vitor. Quando esteve na Cometa, ele lembra que um dos fundadores da empresa, Tito Masciolli, poderoso empresário do setor na época, e tratado pelos funcionários como Major Tito, parava os ônibus na porta da garagem para cumprimentar os motoristas. No entanto, Vitor Matos compreende que hoje há empresas dentro de empresas e que essa relação direta é quase impossível.

Um grande passo na carreira do motorista foi quando foi indicado para ser piloto de testes da Mercedes Benz do Brasil. Foi aí que sua habilidade em se relacionar com as pessoas se desenvolveu mais ainda. Lá, além de dirigir os ônibus e acompanhar a evolução tecnológica no setor, ele tinha de ensinar o consumidor final, motoristas e empresários a operar de melhor maneira os ônibus, que a partir dos anos 80, começaram a registrar um desenvolvimento tecnológico rápido.  Desde o início do século passado até os anos 80, a tecnologia era muito restrita. Dirigir era uma arte difícil, os veículos não ofereciam o conformo necessário. Da década de 80 pra cá, houve um salto tecnológico e alguns modelos acabam sendo melhores pra dirigir que muitos carros de passeio de luxo.

Apesar de alguns ônibus do início e de meados do século passado não serem tão confortáveis, Vitor é enfático ao dizer: “Não existe ônibus ruim, o que existe é profissional mal preparado”

Hoje, aposentado das empresas, Vitor tem seu próprio ônibus em Minas Gerais, e não pretende parar tão cedo, pois tudo o que conquistou na vida, foi graças ao diesel e aos milhares de quilômetros percorridos em grandes máquinas possantes de transportes de vidas. Tanto é que o experiente motorista não tem dúvidas em afirmar que: “A estrada”  é um vício construtivo, pois a cada quilômetro rodado você aprende algo de bom ou de ruim, e cabe ao profissional discernir o que deve fazer ou agir”

“Outra coisa  era o glamour da rodoviária,  se é que podemos dizer assim. Você chegando imponente com o “carrão”, os passageiros observando você manobrar devagar para encostar na plataforma, a postura de embarque, o trato com os passageiros, a saída devagar, fazendo “nana nenem” ( andando devagarzinho) para que os passageiros se acomodassem e fossem ganhando “confiança em você”, a chegada lenta na Rodoviária e ao abrir a porta da cabine ver todos ainda ” dormindo” e ter a sensação de dever comprido e que “aqueles passageiros confiaram em você e dormiram a viagem toda’  praticamente entregando suas vidas nas mãos de um profissional”.

Adamo Bazani é jornalista e busólogo. É meu convidado para toda terça-feira desembarcar neste ponto uma história da vida de quem sempre esteve atrás da direção.

14 comentários sobre “Vitor Mattos: “A estrada é um vício construtivo”

  1. Milton, muito obrigado pela homenagem, estou lisongeado, neste momento sinto que todo o meu trabalho e esforço durante esses anos todos nao foram em vão, felicidades, sucesso, continue sempre com a sua imparcialidade e dinamismo, com as quais nos ja nos acostumamos, abraços
    Vitor Matos

  2. É UMA BELA HISTÓRIA DE VIDA E DE AMOR AO TRANSPORTE PARABÉNS VITOR PELA HOMENAGEM E ÓBRIGADO PELA ABERTURA MILTON O TRANSPORTE É UM ASSUNTO FASCINANTE. ABRAÇOS
    JOÃO PAULO

  3. Essa homenagem ao grande mestre e rei dos transportes foi nota 1000, pois nessa reportagem foi exposto o verdadeiro amor pelo transporte de um motorista tão grandioso e responsável que é o “Sr. Vitor”, assim chamado por todos estudandes que na atualidade que tem o privilégio de viajar com ele e seu Volvo mais conhecido como o “Volvão do Vovo”.
    Parabéns Vitor por essa linda homenagem!!!
    Abraço do seu grande amigo…
    Thiago Nogueira (jeré)hehe…

  4. Caro Vitor, gostaria de parabenizar pelo seu relato de sua história como motorista de ônibus. São poucos que ainda gostam de relatar os bons momentos que passaram atrás de um volante seja ele um duro FNM ou um macio hidráulico SCANIA.

  5. É fascinante pra nós, fãs-estudiosos-pesquisadores que somos, da história de uma empresa de ônibus do porte da Viação Cometa S.A., ler o relato de uma pessoa tão carismática e batalhadora que é o senhor Vitor. De um começo com uma Kombi, passando por empresas como a própria Cometa, a Coligada Impala, além de outras duas empresas de renome, como a Expresso Brasileiro e a Andorinha, até chegar ao chamado “Volvão do Vovô”, como é chamado seu atual ônibus, utilizado para o transporte de estudantes, vemos vários episódios de uma vida voltada a um trabalho feito com muito amor, dedicação e carinho. A prova de que tudo o que é feito com dedicação e esmero é algo bem feito está aí concretizada. É com certeza uma merecida homenagem à uma pessoa que dedicou sua vida à transportar vidas e sonhos, literalmente. Parabéns senhor Vitor, abraços!!!

  6. “Não existe ônibus ruim, o que existe é profissional mal preparado”

    Exatamente, principalmente se o ônibus estiver nessa situação, causada pelo próprio motorista kkkk.

  7. Uma bela história de mais um batalhador brasileiro!Esse em especial pois é motorista de onibus que assim como os caminhoneiros carregam o Brasil nas costas.Parabens para o Adamo pela resportagem e parabens para o Milton por ceder esse espaço no blog para divulgar histórias do nosso transporte coletivo.

  8. Belíssima história, fui as lágrimas!

    Meu sonho desde criança é ser motorista de ônibus. E, através deste relato emocionante da história do Sr. Vítor, fui me vendo também no volante comandando um ônibus na estrada. Não tenho palavras para descrever a emoção que senti ao ler esta história.

    Sr. Vítor, se pudesse, lhe daria um abarço bem forte neste momento, e lhe agradeceria por enaltecer a profissão de motorista de ônibus, sempre trabalhando com dignidade, respeito ao passageiro, segurança. Estas são as características do verdadeiro profissional do volante.

    Quando me tornar motorista de ônibus, lembrarei da sua história, e seguirei o seu exemplo, guardarei a vida dos passageiros com a minha vida.

    Parabéns Sr. Vítor, parabéns Adamo, parabéns Mílton Jung e parabéns CBN!!!

  9. Excelente texto sobre a vida profissional do Sr Vitor, o qual mostrou o amor pelo volante, resultando em bem-estar proprio e para com os outros! Sou academico de engenharia mecanica, mas enfim, sempre gostei de volante tambem, meus tios e meu avo seguiram os mesmos principios do Sr Vitor e hoje sao/foram grandes motoristas.
    Parabens Sr Vitor, pela representatividade da bela profissão de motorista e pelo seu legado.

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