De decisão

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Às vezes me dá gana de choramingar. Tanta coisa que não acontece do jeito que eu queria que acontecesse. E os imprevistos, então. Chegam logo detonando a rigidez da minha teimosia que acha que meu desejo é soberano e meu bem-estar, condição para que o mundo continue a girar. Então o anjo do sorriso chega todo brincalhão, me faz cócegas, e acabo rindo de mim mesma. Ouço meu riso se soltando, e ele me faz lembrar do quanto é monótona, arrastada e bolorenta, a ladainha do queixume. Afinal, a grande importância que eu outorgava a tudo que acontece à minha volta não tem a mínima importância. E eu me calo, e sorrio.

Tem dias que vem uma vontade louca de deixar de ver o que eu não quero ver, mas o anjo do equilíbrio me faz entender que ali não existe meio-termo. Se fechar os olhos para o que não quero, deixo de ver o que quero. Então escancaro meus olhares.

Às vezes penso em deixar de comer certas coisas gostosas. Você sabe o que é. Aquela tendência masoquista-judaico-cristã-muçulmana-evangélica, que a gente tem de se flagelar. Negamos o prazer, como fez o personagem do prefeito, no filme Chocolate, e um dia escorregamos, inevitavelmente. E aí sim, é um tal de se entregar e se lambuzar… A emenda acaba sendo pior que o soneto. E balançamos entre o acreditar que não merecemos nada de bom, que já nascemos pecadores e dependentes da absolvição do outro, e que tudo que é bom é ilegal, imoral ou engorda. Achamos que é preciso ser ou anjo ou demônio para que o mundo perceba e abalize nossa existência. Mas nesses momentos, o anjo do prazer se mostra para mim, e com uma das asas aponta para a cozinha. Aceito o convite. Entro, asso, corto, decoro; brinco com os ingredientes. Sou curiosa. Misturo, separo e observo as reações. Vejo ingredientes se encontrarem como se tivessem nascidos uns para os outros e vejo outros se pegarem a tapas ao primeiro contato, ou se revelarem na hora da digestão. Como as pessoas. E acabo brindando à vida entre aromas e sabores.

Tem dias que duvido do amanhã. Penso em nem levantar da cama quando ouço certas coisas. É tanta insensatez, tanta agressividade, malandragem, impunidade. É tamanha a burrice. Tamanha a desumanidade. Então, o anjo da esperança chega sorrindo e me deixa de pernas bambas quando roça os lábios nos meus olhos e toca de leve meus ouvidos. Imediatamente sintonizo num novo ouvir e leio mais, vejo mais vezes os filmes favoritos e me aventuro pelos desconhecidos.

Às vezes penso em desistir do amor. Então chega o anjo da vida, me olha bem no fundo dos olhos e por ali mesmo destranca a porta do meu coração. E eu? Deixo-me invadir, e amo. Pelo imenso prazer de amar.

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça este texto na voz da autora:

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora e escreveu o livro “De Bem Com a Vida Mesmo Que Doa”, publicado pela Libratrês. Todos os domingos está aqui no blog em texto e voz.

13 comentários sobre “De decisão

  1. Desistir nunca, desesperar jamais.
    Que todos os Anjos digam “Amém”.
    Tenha uma linda semana iluminada por cada um deles. Grande beijo
    Sandra Tenório

  2. Li um Livro outro dia que dizia:
    – Quanto mais força colocarmos em nossos desejos maiores são as probabilidades de se realizarem.
    Se descobrirmos como somos fortes podemos nos lambuzar de desejos e realizações. Do chocolate ao mais desejado amor.

  3. “Se fechar os olhos para o que não quero, deixo de ver o que quero” Linda frase e muito verdadeira ! Lindo texto…. saudades Malu….e qdo vamos comer aquele pão na chapa… Bjo

  4. Morrer, morrer, morrer. é o unica mensagem agelical que chega a mim quando me deparo com os textos desta senhora em seu blog. Pense nisso, Milton. Ou não. E até semana que vem.

  5. Acordar para os sinais dos anjos não é para qualquer um. Haja Amor e Clareza na Alma para que tantos sinais aconteçam. Alguns preferem morrer antes mesmo de se permitirem a felicidade.
    Obrigado novamente por suas palavras, cada dia te admiro mais. Abraço. Mario Baccarelli.

  6. Prezada Christiane, acredito que tudo nesta vida possui diversas maneiras de ser interpretado. Isso faz as pessoas serem diferentes. Com certeza, para as pessoas que se fecham para o amor e não querem ver as boas coisas da vida e não aceitam o caminho indicado pelo anjo da esperança, a vida não terá mais sentido, e com isso, só acabam vendo a morte em tudo e a esperar por ela. Pense nisso minha querida e tenha Fé. Tomas

  7. Obrigada, amigos, pelos comentários. E você já está incluída, Christiane. Com certeza. Tem sido minha leitora mais assídua nos comentários. E quem disse que há um só modo só de pensar, de agir, de acreditar?
    Beijo a todos e boa semana,
    ml

  8. Nada de morrer, nada de tristeza, nada de amargura. O texto desta semana, assim como os demais, é fruto de muito amor pela vida! Se alegra uns e entristece outros a ponto de levar a pensar na morte, melhor será vender o micro e deixar de ler, quem sabe.
    Já disse o Trigueirinho, que os poucos que puderam alcançar, tocarão as pontas dos dedos dos anjos e se iluminarão. Quem sabe então, a vontade de morrer passe.
    Pense nisto sem falta querida! E quem sabe, até a semana que vem!

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