Bairro de Eloá era castigo para motoristas desde os anos 1980


Américo Cavagloni, 63, lembra os tempos de cobrador na Viação Padroeira

Uma das coisas que provocam mais fascínio ao estudar a história dos transportes coletivos pela visão dos motoristas e cobradores é descobrir diversas realidades através do tempo. Se os profissionais, nos anos 20, relembram a epopéia do crescimento dos bairros; se os motoristas e cobradores dos anos 40, lembram dos desafios de encarar veículos com difícil dirigibilidade; os dos anos 60 e 70 viram o desenvolvimento da indústria automobilística. Para aqueles que trabalharam a partir dos anos 80 restou outro tipo de história a contar: a da violência urbana.

As lembranças do cobrador aposentado Américo Cavagloni, de 63 anos, que trabalhou de 1989 a 2003 na extinta Viação Padroeira do Brasil, mostram como as cidades passaram de românticas, onde pessoas se encontravam e até namoravam nos ônibus, a lugares perigosos. A Viação Padroeira do Brasil tinha linhas que ligavam Santo André a capital paulista por Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo. Hoje, são operadas pela Empresa Urbana. Além disso, a Padroeira mantinha linhas municipais que interligavam bairros de Santo André.

A mais temida da região era a B-47, Terminal Vila Luzita-Vila Palmares, antigamente, Jardim Santo André–Vila Palmares. Do lado da Vila Palmares, um cadeião; do lado do Jardim Santo André, núcleos habitacionais desprovidos de segurança, tráfico de drogas e muitos assaltos. O ponto final era  próximo dos prédios onde morava a adolescente Eloá, assassinada pelo namorado, recentemente, numa história que comoveu o País.

“Aquela região já era considerada perigosa. Ninguém da empresa gostava de trabalhar lá. Os assaltos são diários e se os motoristas e cobradores não colaborarem com traficantes e marginais, corriam o risco de serem mortos” – conta o cobrador, natural da cidade de Planalto, no interior Paulista.

A linha do Jardim Santo André, a B-47, tinha, na época da Padroeira, sua escala normal que ganhava o reforço dos funcionários que cometiam algum erro nas áreas nobres, como o Jardim Estela, Bairro Paraíso e Vila Assunção. “Era uma forma de castigo”.

Américo começou em 1989 na Viação Padroeira como cobrador reserva. Depois foi efetivado, passou um ano e meio na B-47. “Além do estresse normal da profissão, como trânsito, condições nem sempre favoráveis dos veículos, desentendimentos com passageiros por causa de atrasos e troco, trabalhar numa linha violenta desgasta até a saúde da gente” – diz o cobrador lembrando que teve de aprender a lidar com a marginalidade.

“Os assaltantes, traficantes chegavam prá gente dentro do ônibus ou no ponto final e falavam o seguinte: Você sabe como funciona o esquema aqui. Dá uma força pros mano (aviõzinhos – garotos entregadores de drogas), pros baladeiro, etc ,viajar de graça, que nada acontece. ‘Nois’ até te ajuda se precisar de algo”.

O cobrador respondia “na educação” que não havia problemas, mas que não precisaria de nenhum favor deles. “Cada um ficava na sua, mas a tensão, ver crimes das janelas do ônibus, moia a gente”.

Apesar do traquejo para se relacionar com criminosos, os incidentes, assaltos e mortes dentro dos ônibus eram inevitáveis. “No pouco tempo que fiquei nessa linha perigosa, fui assaltado duas vezes, em menos de doze dias, por dois adolescentes de cerca de 14 anos. Nos dois casos que ocorreram quase na seqüência, os assaltantes eram os mesmos garotos”.

A primeira vez com estes adolescentes foi em 16 de fevereiro de 2.000. Era Carnaval e a  primeira viagem do dia de Américo com o motorista Cirineu. O Carnaval de rua em Santo André era comemorado próximo ao trajeto dessa linha. Naquele horário, tinha levado mais de 100 passageiros. A maioria foliões, muitos embriagados ou sob o efeito de drogas. Apesar da alta demanda de passageiros, a féria foi pouca. Era um festival de gente pulando catraca ou chutando a porta para descer sem pagar. Mesmo assim, Américo percebeu que dois garotos ficavam olhando demais para o posto do cobrador. Eles também desceram sem pagar. O veículo foi até o fim da linha, na época, no bloco 10 dos prédios do Jardim Santo André. O motorista nem parou, virou o itinerário e fez o caminho de volta. Alguns pontos depois, um senhor deu o sinal e subitamente apareceram aqueles mesmos dois adolescentes. Eles falaram que viram que o ônibus havia faturado e que queriam todo o dinheiro.

“Os dois moleques eram um pouco maiores que a altura da caixa de dinheiro da catraca. Mas um deles estava armado. Não deu pra fazer nada. Foi meu primeiro assalto. Me traumatizou muito” Doze dias depois, outro assalto. Praticado pela mesma dupla. “Era primeira viagem, mesmo assim, não tinha quase dinheiro nenhum no ônibus, mas não teve jeito” – conta Américo.

Na época, uma das donas da empresa era Assunta Romano, Dona Nenê. Ela não exigia ressarcimento do dinheiro roubado, prática comum em algumas viações para evitar fraudes dos funcionários. “Dona Nenê conhecia a linha do Jardim Santo André”.


Nosso repórter Ádamo tietando seu Américo, em Santo André

Para o cobrador aposentado trabalhar em transporte público foi maravilhoso. O clima na garagem era muito bom, segundo ele. Muitas amizades foram feitas com colegas e passageiros. O estresse urbano e a violência, contudo, levam Américo a confessar que, se tivesse de recomeçar, não faria tudo aquilo novamente.

Na rua, em linhas violentas, a gente vê e sabe de cada coisa. Um caso que o marcou, no início dos anos 2.000 foi o assassinato de uma das primeiras motoristas de ônibus de Santo André, num assalto, perto de um terminal. Outra lembrança: a demissão de mais de 100 colegas de profissão ao longo do tempo, com empresas colocando microônibus ou micrões (ônibus convencionais com os chassis cortados) nas linhas. Nestes veículos, os motoristas assumem a função de motorista e cobrador.

Américo se aposentou na própria Viação Padroeira do Brasil. Mas foi premiado em terminar sua carreira na linha 106 (Jardim Bom Pastor–Utinga) e 151 (bairro Paraíso-Santo André/São Paulo – perto da Anchieta).

Os problemas de violência, é claro, não ocorrem só na B 47, nem só em Santo André e em São Paulo.

O relato de Américo demonstra que a principal linha que os ônibus fazem é a “linha do tempo”. As histórias de pioneirismo, de luta, de crescimento, dão cada vez mais lugar às histórias de medo de demissões e, o pior, da violência, invadindo os luxuosos carros importados, que são, forçosamente, blindados pelo medo de seus donos, assim como os corredores dos ônibus e as estações de trem.

O romantismo, as paixões de uma vida simples deram lugar ao medo. Medo até mesmo de trabalhar.

Ádamo Bazani é repórter da CBN e busólogo. Toda terça-feira nos convida a viajar pelas linhas de ônibus do Brasil com textos publicados aqui no blog

10 comentários sobre “Bairro de Eloá era castigo para motoristas desde os anos 1980

  1. É bom ter em nossas mãos bons textos contando a história de nosso povo e da nossa querida e sempre bela Grande são Paulo. Sou do Ponta Grossa-Pr, amo minha terra,mas sou apaixonado por “Sampa”!
    Abçs!

  2. Que ótimo relato dessa Terça-Feira, apesar da face triste que a violência proporciona nos fatos descritos. A história de seu Américo é de garra, afinal trabalhar nessas condições chega a ser desumano.

    Moro próximo ao Jdim. Sto. André e sei bem como são todas essas histórias. Lembro-me da preocupação das empresas de ônibus e principalmente dos funcionários, quando tinhamos eventos de rua na cidade.

    Outro fato muito triste foi o assassinato de um cobrador, que possuia deficiencia mental e reagiu a um assalto, na linha I05 (que tem como destino o mesmo bairro).

    É uma pena que minha geração (nasci em 1985) não pode viver esse romantismo que tinhamos nas cidades da Gde. São Paulo. Vivemos só as tristezas que a invasão da violência e miséria em nossas cidades trouxeram.

    Abraços,

  3. Gostaria de parabenizar Mílton Jung e este espaço disponibilizado para o transporte.
    Sou ouvinte da rádio globo e CBN campineiras e também entusiasta do transporte coletivo rodoviário deste país e me sinto lisonjeado em prestigiar este site.

  4. Meus parabéns pela coluna, as histórias são fantáticas e refletem bem como era e é o dia-a-dia suado das pessoas que trabalham com transporte público, seja em ônibus ,no metrô ou nos trens de subúrbio… Tb sou jornalista e busólogo, e ver o nosso hobby em destaque na impremsa é sempre muito positivo! Ahhh, e parabéns ao Milton (que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente numa palestra que ele fez na minha faculdade, a ECA), por ter aberto este espaço para nós!!!

  5. Puxa, vcs precisam fazer mais matérias desse tipo sobre o transporte público de Santo André. Seria legal se vcs questionassem junto à prefeitura por que somente a empresa EAOSA tem o direito de explorar as linhas que vão para São Paulo e por que essa empresa é tão desleixada mantendo ônibus velhos que vivem quebrando e mantendo motoristas mal-educados e mal-humorados.
    Experimente pegar um EAOSA que faz o trajeto Av. Paulista / Mauá, em horário de pico!

  6. Realmente esse é lado triste desta profissão, é uma das que mais sofre com a violencia…porem a violencia não temos como acabar mas a falta de educação sim!Falta de educação de passageiros que ao entrar no onibus acha que motorista e cobrador são seus “criados particulares” ofendendo e as vezes até agredindo esses profissionais que ganham pouco pelo que fazem e aguentam no dia a dia!

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