De antes, durante e depois

Por Maria Lucia Solla

Olá,

Você ouve o ruído? Natal e Ano Novo chegam derrapando, e o burburinho não pára de crescer. As ruas ficam mais lentas para quem tem pressa, e mais cheias para quem não tem juízo e continua indo atrás do que não gosta. É sério; todo mundo conhece ao menos uma pessoa que todo ano reclama de ter que sair e se enfiar num lugar lotado, seja na vizinhança da 25 de Março, do Largo 13 ou de um centro de compras sofisticado. Puro condicionamento. Aprendeu que é assim, e pronto! Não muda nem que a vaca tussa. A gente parece que empaca sempre no pior lugar, e ainda se pergunta como é que caiu no buraco que ficou cavando. Tremenda incoerência. A gente vai aonde não quer, e reclama antes, durante e depois, para não quebrar o ciclo vicioso. Assim a vida vai ficando parecida com um disco riscado que a gente toca assim mesmo, repetidas vezes, acostumando pouco a pouco com o pior de tudo. Dói e a gente pergunta ao outro ou a Deus: por quê?!

É que mudar é complicado! Mais do que se imagina. Todo mundo se senta no mesmo lugar à mesa e vê a sala de um único ângulo, o tempo todo. A faxineira arrasta o aparelho de telefone um pouquinho mais para lá e a gente se sente insegura, tendo sido invadida na mesmice que é sua e ninguém tasca. Entalada na dolorosa zona de conforto. O pé começa a dormir e o cidadão não muda de posição e não dá dois passos, para não perder o lugar. E muita gente vive assim, feito os agarradinhos de pelúcia, lembra? Apegados à mesmice, sua velha conhecida, lendo script alheio, exalando tédio e cheirando a naftalina.

Se o mais vivido sente-lhes o aroma nauseabundo, imagine o jovem. Chega cheio de energia, curiosidade, ansiedade e medo, querendo testar limites para ver até onde pode chegar. O jovem quer encontrar, no ambiente onde foi gerado, o que o próprio ambiente lhe promete. A modernidade da Era Digital, da rapidez, do funcional, do virtual que se confunde com o material. Feito o desejo. E o que encontra? Na educação, pelo que temos visto e ouvido, encontra no máximo a Era Paleolítica, o Teorema de Pitágoras e o Quadrado da Hipotenusa. No virtual, percebe o mundo tão rápido quanto seu pensamento, mas no real, e “na real”, encontram em casa um vazio impossível de preencher e na escola uma pasmaceira de dar dó. Aí dá no que deu e no que tem dado sempre. Revolta e violência. Tem como reverter esse processo? Ah, tem. Só que sair do gabinete para encarar o que ontem era a criança e hoje é o monstro inimigo, nem pensar. Dá trabalho e leva tempo. Há que ter disponibilidade e oferecer generosidade, e isso é coisa que o dinheiro não compra. E então, você sabe tanto quanto eu, o que é que tem acontecido. Alunos surram professores, ameaçam-nos de morte, destroem escolas, curram colegas, andam armados, consomem drogas nas dependências de ensino e o que é que se faz? O mesmo que se faz nas cadeias. Decide-se reconstruir o destruído -porque isso sim o dinheiro compra. Que vergonha! O educador foge do educando porque nem sabe como chegar nele. Finge que nada aconteceu e volta a roncar sua matéria, esperando por um sinal libertador. Reclama antes, durante e depois. Valha-nos Deus!

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça aqui este texto na voz da autora”:


Maria Lucia Solla
é terapeuta e professora de inglês e tira os domingos para escrever aqui no blog e nos perguntar “por quê ?!”

6 comentários sobre “De antes, durante e depois

  1. Olá Malu!
    QUe forte este texto. Lamentável como as coisas neste mundo estão se perdendo. Que delícia se aquele espírito de Natal de quando eu era criança voltasse, pois acho que era muito mais romântico, cheio de esperanças e de um amor imenso.
    Tentemos recuperá-lo espalhando por aí o afeto, a solidariedade e outros sentimentos que poderão resgatar nesta geração tão destruída, um pouco do sentido real da vida.
    Grande beijo
    Sandra Tenório

  2. Não sei se é só acomodação, mas as distâncias sociais também contribuem
    para a intolerância.
    São acomodados? Talvez sim!
    Talvez todos nós toleramos e não nos incomodamos.
    Assim é na política com os mesmo todos os anos, em nossa vida acomodada, em nossas casas e assim olhamos nossos próprios umbigos.
    E é fácil! Molibização! Cada um fazer a sua parte.
    Cobrar, onde pudermos e agir, na forma pudermos.

  3. Sandra, um dia é diferente do outro e uma época diferente da outra. Sempre foi e sempre será. Quando se enxerga o bom o e ruim com consciência, pode-se decidir o quê e como fazer. Nem semppre o que se vê é bom e nada é só bom ou só ruim. Vamos vivendo reciclando plástico, vidro, papel e a própria vida. Para isso há que ter coragem de mudar. Sempre.

    Beijo,
    ml

  4. Parabéns mais uma vez! – Sua visão me faz refletir sobre a “acomodação”. Nos tempos corridos de hoje, não dá pra diminuir a busca pela renovação, do novo entendimento, das novas soluções, mesmo que dentro de casa, ou dentro do ambiente de trabalho… – Difícil é conseguir isso “dos mesmos”, que se perpetuam no poder. Ótimo texto, obrigado! – Mario Baccarelli.

  5. Esta questão do Ensino está merecendo uma blitz por parte de todos nós.
    Não há desculpas para até hoje admitirmos agressões de todos os lados.
    Parabéns por ter também abordado o tema.
    Vamos á exaustão para ver se vamos conseguir alguma mudança.
    E nas próximas eleições não podemos mais admitir que candidatos fiquem gastando tempo com acusações estéreis enquanto escolas são selvagemente depredadas.E os próprios idem.
    Para aumentar a pressão, na quarta feira estarei dando também a minha modesta contribuição ao assunto .Vamos falar sobre Educação.
    Abraço
    Abraço

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