Políticas e políticos atravancam o transporte

Por Ádamo Bazani

Crescimento urbano desordenado, falta de planejamento, privilégio ao transporte particular em detrimento ao coletivo. Parecem clichês, mas para o instrutor de motoristas em empresas de ônibus, planejador de trânsito e fundador da Guarda Civil Municipal de Santo André, na Grande São Paulo, Nelson de Souza, de 65 anos, estas frases refletem a mais pura realidade.

“Seu Nelson”, como era chamado no Departamento de trânsito de Santo André e nas cinco empresas de ônibus nas quais trabalhou (duas na Capital Paulista e três no ABC), atua no setor de trânsito e transporte coletivo desde 1966. Contribuiu para o traçado de muitas vias na região do ABC e acompanhou o crescimento de vias importantes na Capital Paulista e arredores, mas, infelizmente, diz que não se orgulha de como as cidades cresceram.

“Quando vi a forma pela qual cresceram as Marginais Tietê e Pinheiros, em São Paulo, as Avenidas do Estado, Industrial e Perimetral, em Santo André, ruas Jurubatuba e Marechal Deodoro, em São Bernardo do Campo, como chefe de fiscalização de Departamentos de Trânsito e como cidadão, sabia que não daria certo” – diz seu Nelson.

Ele sentiu na pele, como chefe de tráfego de empresas de ônibus e inspetor de trânsito, o que chama da praga do “imediatismo” no setor.

“Os diversos governos e prefeitos, pensaram nas obras para serem concluídas em suas gestões. Na época não existia reeleição, então, faziam avenidas estreitas, desapropriações pouco planejadas e viadutos ligando o nada ao lugar nenhum, para conseguirem eleger seus pares de partido político e, indiretamente, continuarem no poder”.

A Avenida Perimetral, uma das principais ligações entre Mauá e Santo André, além de acesso para São Caetano do Sul e São Paulo, é um exemplo para Nelson de Souza.

“Quando a área em torno da Avenida foi desapropriada, não pensaram que seria importante uma faixa a mais para o transporte público. Como em outros casos, se pensou no carro. Hoje, os ônibus quase não têm espaço na parte elevada desta Avenida”.

Para Nelson, que fez cursos de especialização em várias cidades, inclusive em departamentos de trânsito americanos, falta de verba não é desculpa para o planejamento mal feito.

“Eu presenciei muitos políticos dizendo que era necessário fazer um viaduto porque pegava bem”.

Outra coisa que irrita o experiente diretor de fiscalização e de treinamento de tráfego é a onda de indicações políticas para uma área que, segundo ele, exige técnica, estudo e competência, como é a dos transportes públicos e trânsito.

“Vi muita gente boa sendo deixada de lado, para dar lugar à inexperientes, gente que não entende nada de transportes, para ocupar cargos de gerência, secretariado ou fiscalização técnica. Essas indicações meramente políticas fizeram com que nosso viário e nosso transporte público estagnasse ao mesmo tempo que a demanda de carros e passageiros cresciam” – revolta-se Nelson de Souza.

As ruas são privilégio dos carros e há poucos oexemplos bem sucedidos de corredores de ônibus no Brasil. Destacam-se o sistema de Curitiba e o operado pela EMTU, entre Brooklin e São Mateus, via Santo André, Diadema, São Bernardo do Campo e Mauá, na visão de Nelson.

Ele começou a trabalhar com trânsito aos 22 anos e há cerca de 15 atua no treinamento de motoristas de ônibus das Viações Guaianazes, Curuçá e Empresa de Turismo e Urbana de Santo André – ETURSA -, no ABC Paulista, e Viações Interbus e Humaitá, na Capital Paulista.

Nelson de Souza
Seu Nelson: “Quando vi as Marginais sabia que não daria certo”

Quem compartilha da opinião de que o trânsito nas cidades da região metropolitana não foi planejado de maneira correta e que hoje o trânsito é o principal vilão dos transportes públicos é o inspetor de tráfego da Viação Guaianazes, Antônio Rodrigo dos Santos, de 46 anos.

Inspetor de tráfego trabalha nas ruas, pouco nas garagens e entre suas funções está a de alocar motoristas e cobradores de acordo com horários e demandas de passageiros e, principalmente, “desatar os nós” ao longo dos trajetos.

Antônio começou a trabalhar no setor de transporte coletivo em 1977, como lavador de ônibus, aos 13 anos de idade. Depois foi promovido a cobrador, fiscal até chegar a atual função que exerce desde 1994.

“Por causa do trânsito, toda hora temos de mudar os trajetos de linhas, o que exige muita burocracia, depois, quando conseguimos as autorizações, as propostas já estão defasadas”.

Ele lembra de uma época em que ainda as pessoas guardavam o carro em casa e que o transporte público da maneira convencional dava conta da demanda.

“Hoje o trânsito é o principal problema para os transportes públicos. Por causa do trânsito, em meu serviço, já vi 10 ônibus de uma mesma linha presos num único trecho da linha, um perto do outro, enquanto, nos demais trechos ou no sentido oposto da linha, não havia nenhum….só passageiros esperando mais de uma hora no ponto”.

Para ele, o problema trânsito-transporte deve ser analisado de uma perspectiva histórica, para que se aprenda com os erros cometidos.

Antonio Rodrigo dos Santos
Antônio diz que é preciso aprender com erros do passado

Apesar de o ex-inspetor e diretor de fiscalização de trânsito e atual gerente de instruções de empresas de ônibus, Nelson de Souza, ser da mesma opinião, para ele existem alguns problemas que se tornaram crônicos e que obras agora são impossíveis.

“Eu vi a Rebouças crescendo em São Paulo….Não dá mais pra desapropriar nada lá. A Perimetral de Santo André então, tem templos religiosos e prédios milionários…como vamos alargar aquilo ???”

Nelson, quando via as jardineiras passarem pelas ruas e avenidas pensava desde jovem, isso vai crescer muito, e cresceu mesmo.

“No início, as Marginais pareciam obras gigantescas farônicas. Eu ouvi gente comentando que era exagero…Hoje, não comporta mais nada”

Só obras, na visão experiente de Nelson, não são solução.

“Temos de tirar os carros da região central das cidades. Não com pedágios e multas, mas com o incentivo ao transporte público, dando corredores e vias só para ônibus, interligá-lo com o sistema ferroviário. Os gargalos sempre foram as regiões centrais. O cidadão poderia se deslocar com seu carro até certo ponto, depois pegar um transporte público de qualidade”.

A vida mexendo com ônibus e trânsito trouxe orgulhos e tristezas para Nelson de Souza.

“Eu fiscalizava o setor de trânsito de Santo André desde 1966, quando em 1974, houve um acidente entre um ônibus de fretamento da TURSAN (Turismo Santo André) e uma perua Vemaguetti. Fui chamado para a perícia. Na perua, um casal e duas garotas mortos. Mas, perto do pneu do ônibus, existia uma espécie de embrulho com lençóis. Quando fui pegar, era um recém-nascido morto no acidente. Essa cena me marcou pro resto da vida”.

Desta época, senhor Nelson colocou como meta de vida contribuir para a melhoria da especialização de motoristas, principalmente profissionais.

Há 12 anos, teve oportunidade de desenvolver cursos e treinamentos considerados inovadores no setor, que reduziram em mais 80% o número de acidentes nas empresas que trabalha, e já renderam prêmios consecutivos da Federação Nacional de Transportes, como instrutor do ano de trânsito e prêmios de qualidade às empresas.

“É o mínimo que possa fazer pelos transportes, onde fundamentei minha vida, pelas cidades que vi crescendo e pela vida que se foi daquele recém-nascido” – complementa Nelson, emocionado.

Ádamo Bazani é repórter da CBN e apaixonado por ônibus, sentimento revelado toda terça-feira aqui no blog quando conta histórias do transporte de passageiros.

9 comentários sobre “Políticas e políticos atravancam o transporte

  1. Mais uma excelente matéria! Parabéns!

    Desde de quando comecei a me interessar por políticas de transporte e trânsito que bato nas mesmas teclas que o sr. Nelson bateu nessa matéria.

    O viário das cidades e até mesmo os sistemas de transportes, em especial do ABC Paulista, estão defasados com a atual realidade destes grandes centros. Só grandes obras não resolvem o problema. É preciso reformular o sistema por completo, para adequa-lo a atual situação das nossas cidades, como forma de tornar o serviço mais eficaz e atraente, e consequentemente desestimular o uso do transpote individual.

    Estou trabalhando num projeto de roformulação do transporte andreense a quase 1 ano, porém a falta de apoio dificulta que essa e outras idéias possam chegar àqueles que possam utiliza-las nesses melhorias.

  2. ola boa atrde eu concordo comvc em sp capital realmenet e un caos o transito ate que os governantes temtam algo tipo metros, corredores ,trens mas acho que como adamo dise isto vem do passado´pois nossos politicos pensavamso em obras pra sua gestacao e nao pro futuro exemplo e aui em valadares minas gerais a sruas que foramprogetadas mmal comportam os caros aqui os ciclitas nao respeitam nada e quemsofre sempre sao os motorista dos onibus qe searranharem umpedacinhi do onibus pagampor ele nominimo 40 reais em sao paulo ja setentou o rodizio ,agora os caminhoes mas acho dificil de concertar o mal do pasado ne

  3. A todos,

    Cidades menores, seja na região metropolitana seja no interior, começam a enfrentar a mesma dificuldade da Capital paulista. A falta de planejamento e a prioridade ao transporte individual, aplaudida pela maioria da classe média motorizada, fizeram com que a mobilidade urbana fosse prejudicada atingindo seriamente a qualidade de vida do cidadão. Enfrentar os interesses individuais e industriais para mudar esse cenário exige coragem e criatividade.

  4. Hoje em dia muitas pessoas semprem pensam no carro próprio e desprezam o transporte público, sem contar as facilidades de adquirir um carro, ai vem os problemas no trânsito, se o governo investisse melhor no transporte público e desestimulasse o veículo particular, talvez seria outra coisa…

  5. Não existem incentivos para que o pessoal deixe de usar o carro particular e passe a utilizar o transporte coletivo. Enquanto vemos bravatas pelo ar, de Metrô em SBC, Expresso ABC com dinheiro da união (E da Dilma, a mãe do PAC :D) dentre outras coisas, não se pensa no curto prazo benéfico.

    Planos de melhoria ao transporte, mesmo emergênciais são EXTREMAMENTE necessários para o ABC, que só tenderá a piorar, com o Rodoanel vindo aí.

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