Ouvinte-internauta pede jornalistas com língua precisa e afiada

Foi na limpeza das pastas que formam minha caixa de correio eletrônico que descobri a mensagem abaixo do ouvinte-internauta Fernando Cabral. Estava guardada para ser explorada um dia qualquer em que o tema fosse oportuno. O e-mail é de abril de 2007, portanto escrito antes do surgimento deste blog. É provável que ao armazená-la minha intenção fosse esperar a chance dela ganhar vida própria ao ser publicada na internet. Imagino que a posição de Fernando Cabral não tenha mudado neste tempo todo, mesmo porque nós jornalistas não mudados, também. Portanto, trazê-la para o blog, neste sábado, me parece oportuno. Cabral alerta para a maneira como nós profissionais de comunicação nos comportamos diante da língua portuguesa:

“Não sei se a CBN tem pessoa ou departamento responsável pelo aperfeiçoamento da linguagem jornalística. Como você é um profissional de destaque e de influência, achei que valeria a pena comentar com você o que segue abaixo.

Quando repórteres usam linguagem aguada ou imprecisa, todos perdem: eles, a credibilidade; o ouvinte, a precisão da informação; a língua, sua eficácia. Isto é truísmo: não exige demonstração.

É também truísmo dizer que os jornalistas sofrem contágio dos colegas: como alguns se manifestam, todos se manifestam; copiam-se mutuamente. Isto gera uniformidade e mesmice. Palavras surgem para a fama, são adotadas, viram bordão e são repetidas até esgotar a paciência do leitor.

“Blindagem” é um exemplo. Tempos atrás alguém disse que Henrique Meirelles havia sido “blindado”. Repórteres de jornal, televisão e rádio repetiram o termo até a exaustão. Uma imagem criativa virou um clichê insuportável. (Ultimamente seu uso tem esvaecido. Já vai tarde.)

Outro exemplo é “suposto”. Esta palavra se encontra em evidência máxima; portanto, na capacidade máxima de chatear o ouvinte ou leitor. Para o repórter, tudo é “suposto”: suposto culpado, suposto acusado, suposto autor, suposto crime. Há até a suposta lista de Furnas, que comento entre parênteses: com base na própria imprensa, a lista nunca foi suposta: ela existia. A discussão recaia sobre sua autoria; sua autenticidade; sua origem. Portanto, não era correto dizer “suposta lista”; correto seria dizer “suposto autor”, “supostamente feita por fulano” ou “atribuída a sicrano”. Mas fecho os parênteses.

Ademais, mesmo se o uso fosse correto, já teria cansado por excesso de uso. Por isto, candidato-me ao acacianismo: o inefável “suposto”, pode sempre ser substituído por expressões construídas com “alegar”, “atribuir”, “imputar”, “dizer”, “afirmar”. Exemplos: “a lista, atribuída a fulano…”; “a polícia imputou a sicrano…”; “o promotor disse que lista foi feita por beltrano”.

Mas, há coisas que aborrecem mais do que a repetição, o lugar-comum e o modismo: a imprecisão e a incorreção, por exemplo. Ilustro: não passa um dia sem que ouçamos notícia sobre crimes, prisões, inquéritos e processos. Os repórteres, contudo, parecem incapazes de distinguir entre suspeitos, indiciados, acusados, réus e condenados. Confundem-se e confundem o leitor ou ouvinte.

Ora, há uma distância considerável entre suspeito e condenado. A imprensa não deve e não pode confundir o ouvinte trocando um pelo outro. É errado e é injusto.

Tempos atrás ouvi um repórter da CBN desinformando que um fulano de tal havia sido condenado como suspeito de assassinato. Como é possível? Se a pessoa foi condenada, para todos os fins práticos e legais, ela é condenada, não é “suspeita”. Por definição.

Suspeito, também por definição, é aquele sobre o qual recai a desconfiança, ou conjectura de que pode ser o autor de um crime. Indiciado é aquele que a polícia indica, oficialmente, como provável autor do crime. Acusado (ou denunciado) é aquele contra o qual o Ministério Público apresentou denúncia. Réu é aquele contra o qual o juiz aceitou uma denúncia. Condenado é aquele que a Justiça apontou como culpado.

Em nenhum destes casos cabe ao repórter dizer “suposto”: suposto suspeito, suposto acusado, suposto condenado. A não ser que esteja inventando a notícia.

Mas os repórteres, criativos que são, conseguem confundir tudo, como aquele que disse que “o suposto assassino foi condenado pela Justiça”.

Os repórteres fazem bem em se cuidarem para não cometer crimes contra a honra. Mas isto não deveria implicar em empobrecimento da linguagem; menos ainda no empobrecimento da própria informação. Entretanto, é isto que faz o repórter a cada vez que usa a palavra “suposto” de forma incorreta ou desnecessária. É também o que ocorre quando um suspeito é chamado de réu ou um condenado é chamado de suspeito.

“Suposto” exemplifica o uso de linguagem aguada quando, ao referir-se a alguém que o Ministério Público denunciou, o repórter diz “o suposto acusado”. “Suposto acusado”, como? Desde o momento em que o Ministério Público apresentou a denúncia ele é “acusado” – ou denunciado – não é “suposto acusado”.

Além disto, se a pessoa foi condenada pela Justiça, ela não é suspeita, indiciada, acusada ou ré: é condenada. Como tal deve ser tratada pelo repórter, sob pena de termos imprecisão, incorreção, desinformação.

Se a ferramenta do repórter é a linguagem, é bom que seja afiada e exata, não aguada e imprecisa.”

3 comentários sobre “Ouvinte-internauta pede jornalistas com língua precisa e afiada

  1. Nossa ,que texto perfeito!Realmente falam muito errado e não há o que acrescentar no que o ouvinte-internauta disse. Ainda bem que você guardou e está bastante atual. Judith

  2. Parece-me um prefácio de um Tratado de Inconformismo direcionado ao jornalismo pasteurizado (oras… hoje quase tudo é pasteurizado, não?) disparado à queima roupa. Que a carapuça sirva àqueles que se atreverem… bem escrito mesmo! Ronaldo

  3. Não é que o ouvinte,irritado com a praga,lembrada por ele, que assola a imprensa brasileira,também usou um verbo que está na moda: construir? Prestem atenção,hoje em dia nem só a indústria imobiliária constrói espigões e condomínios. Enfrentam a concorrência dos jornalistas,radialistas e,claro,dos políticos.

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