Motorista-padrão é o que sabe lidar com os passageiros

Por Adamo Bazani

Quando as pessoas vêem os motoristas manobrando os ônibus enormes em áreas pequenas, fazendo curvas ou entrando em espaços minúsculos como se estivessem com um brinquedo de 15 metros nas mãos, falam; “Nossa, como esse cara manja de volante”

Realmente, para dirigir um ônibus é necessário ter técnica e perícia. Mas para os profissionais do setor, é preciso muito mais do que isso.

“Dirigir ônibus nas cidades é uma arte. Não basta operar o veículo. O motorista é a cara da empresa para o usuário. Ele é o elo passageiro-empresa. Por isso, tem de respeitá-lo e tratá-lo não como passageiro, mas como cliente e amigo”, afirma enfaticamente o motorista da Viação Guaianazes, Djalma Gomes de Moura, de 54 anos.

Tendo recebido vários prêmios como motorista-padrão, Djalma começou no setor numa oficina da Viação Santa Rita, em 1977, em São Paulo. “Quando peguei meu primeiro ônibus para dirigir, em 1979, fiz um ritual, o qual devo até agora o fato de nunca me acidentar. Abri as portas dianteira e traseira e disse – Deus, vá comigo em todas as viagens, escolha um dos bancos e sente” . Ele chorou e colocou o ônibus na rua.

Mas não foi só a fé a responsável por Djalma ter visto São Paulo e o ABC Paulista se transformarem de cidades simples com trânsito razoavelmente bom para verdadeiros caos sem ter ao menos uma vez riscado a lataria de ônibus. “A própria profissão e o relacionamento com os passageiros foi me moldando”.

Djalma diz que sempre tratou bem os passageiros, mas não admitia injustiças. “E olha, o trecho (as viagens, como são chamadas pelos motoristas), mostra cada coisa inacreditável”. Dentre elas, alguns motoristas, cobradores e usuários mal tratando idosos e deficientes.

“Eu chegava a bater em assaltantes desarmados, me envolvia em brigas de trânsito. Numa vez, um motorista da Viação Alpina, em Santo André,  me fechou três vezes. Desci do meu ônibus e dei um soco pela janela do ônibus da Alpina, que foi o vidro e a cara do outro motorista para o chão. Hoje me arrependo disso”

Com o tempo e com a orientação de gerentes das empresas de ônibus ele viu que transportar é uma das maiores expressões do relacionamento humano. “Comecei a ajudar pessoas que no meio do caminho encontrava passando mal, desmaiadas. Levava pessoas para o hospital, ajudava os motoristas de outras empresas com ônibus quebrados, etc”

Djalma se lembra que até os anos 80, as ruas de São Paulo e Santo André eram bem difíceis de se vencer. Até carros de passeio sofriam e muitos por causa da mecânica da época, sofriam com as subidas do trajeto ABC – Vila Industrial, Capital Paulista. Muitos carros pegavam fogo. “Eu parava e emprestava o extintor de incêndio do ônibus, que é bem maior, para ajudar o motorista do carro. Depois eu fazia o relatório de gastos para a empresa e estava tudo certo. Ser solidário tem de fazer parte da característica do motorista” – afirma Djalma

Outro profissional que recebeu prêmios de motorista-padrão é Marcelino Domingues, de 59 anos. Ele trabalhava em transporte de carga seca entre a Capital Paulista e Santos, até 1983, quando surgiu a oportunidade de trabalhar na então Viação Humaitá, de Santo André.

“Vi ruas se tornarem avenidas, vi Santo André, São Caetano e São Paulo praticamente se tornarem uma cidade só. Terrenos vazios ou casarões, nas linhas que eu fazia entre os bairros de Santo André e parte da zona Leste de São Paulo, viraram fábricas. Depois, com a mudança da economia, se transformaram em shoppings, loas, igrejas, revendedoras de carro, etc”.

Mas o que mais fascina Marcelino foi ver a transformação das pessoas. “Meninos que eu pegava, hoje viraram homens, pais de família e alguns até doutores e nem mais pegam ônibus”

Marcelino diz que é notória a diferença entre o transporte de passageiros, principalmente o urbano, e o de cargas. Primeiro porque no transporte de passageiros leva-se, segundo Marcelino, o bem maior, que é a vida.. “O cuidado é bem maior. No caminhão, uma freada brusca pode quebrar algo. No ônibus, ela pode machucar alguém”

O estresse é grande também, diferentemente de 25 anos atrás. Nem todo passageiro tem calma, os horários são muito esprimidos e o trânsito atual das grandes cidades prejudica a saúde da categoria.

Mas para Marcelino, nada pode justificar o mau trato para com o usuário, que é o ganha pão e o principal companheiro de viagem.

Em 2008, Marcelino recebeu mais um prêmio de motorista-padrão. E ele explica que para ser bom não basta pilotar bem a máquina (“Isso é o mínimo que se espera de qualquer um que se proponha a dirigir um ônibus’), é preciso saber se relacionar com o passageiro.

Adamo Alonso Bazani é repórter da rádio CBN e busólogo. Toda terça-feira, publica aqui no blog mais um capítulo da história do transporte de passageiros e de carga, em São Paulo

4 comentários sobre “Motorista-padrão é o que sabe lidar com os passageiros

  1. Engraçado como tantas histórias ficam guardadas dentro de cada um. Há se tivéssemos como conhecer cada uma delas. Isso é o que as vezes nos falta hoje em dia, parar e ouvir o que as pessoas tem a dizer. Quando vivenciamos um momento desses, que parece simples, nem nos damos conta de como ele é importante, tanto para quem conta quanto para quem ouve, nem das lições que cada uma dessas histórias nos trazem. Apesar de ser também um apaixonado por ônibus, me emociono muito com as histórias. Mais uma vez, parabéns pelo quadro.

  2. bom dia amigos, sou motorista de onibus e gostaria de saber os requisitos e onde consigo uma congratulação ou um “diploma ” de motorista padrão.

    abraços

    Leandro

  3. Adamo,
    Fiquei enormemente feliz pela sua reportagem sobre a história do transporte metropolitano e principalmente pela participação do meu pai José Gilberto Versuri.
    Eu não sabia da participação dele nesta entrevista e fiquei maravilhado.
    Eu trabalhei na Mercedes-Benz com meu pai , hoje trabalho na Embraer e tudo eu dedico ao meu pai que foi o meu professor e mestre.
    Muito obrigado.
    Reinaldo Versuri

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