Por Adamo Bazani
Como diz a juventude, cada tribo tem seu dialeto. Há gírias específicas de simpatizantes de estilos musicais diversos, de ideologias, de religiões, de regiões e de torcidas de futebol.
Pesquisando a história dos transportes, sob a visão dos motoristas e cobradores, mecânicos e funcionários do setor em geral, foi possível descobrir que as garagens possuem seus “próprios dialetos”: Chapéu de bico, cerão, boa, pé de cabra, queixo duro são alguns exemplos.
Muitas vezes essas gírias não são bem compreendidas por quem não atua no ramo e isso pode dar uma enorme confusão. É o que conta o motorista de ônibus, da Viação Guaianazes de Santo André, Levi Mendonça.
Ele começou a trabalhar como manobrista na Garagem da Expresso Santa Rita, em 1988. Três meses depois foi promovido a motorista da Viação Humaitá e depois à Guaianazes. Levi conta que os horários dos motoristas nem sempre são estáveis. Às vezes o trânsito complica e a hora prevista pra chegar em casa é excedida, muitas vezes é necessário pegar a viagem extra de um funcionário que faltou ou ficou preso em congestionamento, entre outros fatores. E nessas e outras, muitos casamentos são desfeitos.
Foi o que aconteceu com um motorista bem antigo de profissão, cujo nome Levi não se lembra.
O motorista começou a se atrasar para chegar em casa dia após dia. Se tinha de estar com a mulher às dez da noite, aparecia meia-noite, uma da manhã. No início, a mulher até se conformava, mas os atrasos estavam sendo constantes e as brigas começaram a surgir.
Todo o dia a mulher reclamava e o marido explicava : “Eu precisei ficar até mais tarde, tive de fazer mais um horário, o colega faltou, o ônibus quebrou”. A mulher não acreditava.
Um dia, irritado, o motorista pediu permissão à gerência da empresa e levou a mulher para o serviço, para provar que ele não estava traindo a esposa.
Pé de cabra é o nome dado às mulheres que se exibem para os motoristas, as damas da lotação. “E tá cheio de mulher assim”, confirma Levi
Já era a penúltima viagem da linha Santo André Vila Industrial São Paulo, quase oito horas de serviço e nada que desabonasse o motorista. A mulher ficou o tempo todo no banco atrás, controlando tudo que acontecia.
Até que sobe uma loira fenomenal, linda mesmo. Ela senta no “banquinho das pé de cabra”, aquele logo após a porta dianteira. Começa a mexer no cabelo, se olhar no espelho, e o motorista nem dá bola. Em meio a viagem, sobe um colega do motorista e já chega falando alto: “Essa é a Boa!”.
O motorista responde: “Não, essa é a irmã da boa”.
A esposa, que tudo ouvia no banco de trás, deu um soco no marido, que teve de parar o ônibus abruptamente. A confusão foi generalizada. E só terminou quando conseguiram explicar para ela que “boa”, na linguagem das garagens, é a última viagem, e “irmã da boa”, é a penúltima
O motorista Levi diz que o fato virou lenda nas garagens.
Glossário de garagem
Chapéu de Bico: motorista
Pé de Cabra: mulher que se exibe para o motorista
Cerão: quando o motorista faz hora extra
Boa: última Viagem
Irmã da boa: penúltima viagem
Queixo duro: muito usada antigamente, referindo-se aos ônibus de direção dura
Pau velho: ônibus antigos e mal conservados
Prego: Motorista (de qualquer tipo de veículo) que está na frente e anda muito devagar
Adamo Alonso Bazani é repórter da rádio CBN e busólogo. Toda terça-feira conta para nós, aqui no blog, mais um capítulo da história do ônibus.
Eu conheço bem essa história, pois minha irmã foi pé de cabra e eu tinha que ir junto para disfarçar, eu não era irmã da boa,ela acabou ganhando o chapéu de bico e casou com ele. Vivem felizes até hoje. Abraços
Parabens, Adamo e Milton, mais uma vez conseguiram me fazer relembrar dos “Bons Tempos” e historias como essa aconteçeram e acontençem até hoje abraços Vitor Matos
Na leitura do texto somos remetidos a vivenciar uma situação divertida. Lembrou-me porém uma situação que vivi quando ao descer de um ônibus urbano, aqui em São Paulo, percebi que estava sem a minha carteira com documentos e dinheiro. Logo peguei outro que vinha atrás expliquei ao motorista a situação e ele “saiu em disparada”, pulando um ponto de ônibus para alcançar o da frente… e alcançou, sai correndo e encontrei minha carteira com uma senhora, que alívio…
É importante esse resgate da história do transporte urbano – Ainda muito negligenciado e que constantemente se perde em meio ás modernizações e transformações por que passa nossa sociedade. E, além disso, é expor uma das facetas do trabalho apaixonado dos busólogos, que tanto se esforçam para cultivar e valorizar a História do ônibus e de seus usuários, operadores e empresas, A vida que levamos dentro dos ônibus e com os tipos humanos que fazem parte deste microcosmo, que o Adamo (Sargento!) traz para nossa leitura aqui.
Olá Milton, parabéns pelo espaço dedicado ao tema. Sou motorista de ônibus da capital de SP, e uma das “poucas” coisas boas desta profissão, é que um dia
nunca é igual ao outro, tem sempre uma história diferente pra contar.
Segue mais alguns “dialetos”:
MAÇARICO – Ônibus que possuem motor aspirado, portanto mais fraco (hoje todos os motores são turbinados).
CALÇA BRANCA; Motorista recém “formado”, que ainda não está devidamente a vontade ao dirigir o ônibus, e sendo assim comete algumas falhas no trânsito (ocupa duas faixas, para o ônibus atravessado no ponto, etc).
BONECO; Passageiro.
MUAMBA; Quando o motorista faz a viagem com o Ônibus lotado. “Meu, nesta última viagem trouxe a maior muamba…”
É isto, quando lembrar de mais alguns termos, volto a escrever. Um grande abraço.
Olá pessoal!!!
Que história incrível hein!!! Por causa da boa e da sua irmão, quase acontece uma tragédia.
Quando eu me tornar motorista de ônibus, irei logo explicando o significado da boa e da sua irmã…….rrsrsrsrsrsrrss
Abraços à todos!!!
Mais uma vez parabenizo Adamo e Milton por este espaço. Muito interessante cada relato, visto que a escassez de tempo delimita as relações sociais e o ônibus por si é um meio de interação coletiva.
Também sou colecionador, passageiro e entusiasta. Meu respeito pelos profissionais do transporte é intenso e tenho profunda admiração por eles.
Eu sou motorista conheço todas essas girias da boa, pé de cabra e outras…
idosos: jacaré
motorista lento: roda presa
motorista rápido: rodão
motorista quando anda na cola de outro: chupeta
Chapéu de Bico uma vez bico sempre bico não tem jeito: E as qualidades; mulheres bonitas, mulheres gordas; os Terezão, Cobradoras com os seus segundos homens; Pé de Bode. E isso é só logo mais voltarei com mais gírias de Chapéu de Bico.