O crescimento de São Paulo pelas janelas dos ônibus

Adamo Bazani

O conhecimento revelado pelo busólogo José Gilberto, 63 anos, que trabalhou com transporte de passageiros e metalurgia, na Região Metropolitana de São Paulo, é vasto e proporcionou ao repórter Adamo Bazani a oportunidade de aprofundar seu trabalho de pesquisa sobre o tema. Por isso, será apresentado em três capítulos que serão publicados um a cada dia a partir de hoje aqui no blog.

Do brejo ao Paraíso
José Gilberto está no Paraíso, em Santo André, local que já foi brejo e granja

Imagine uma região extensa, cheia de rios, nascentes, vegetação diversificada e com um ar puro, tão puro, que nos fins da tarde de junho, chega até ser gelado. Pequenos caminhos de terra ou ruas estreitas de paralelepípedos são margeados por casas de madeira. Todo início da noite, os vizinhos se reúnem e conversam: contam causos do dia ou de parentes antigos. As distâncias entre um ponto e outro são longas e cada cidade era praticamente um vilarejo.

Agora, imagine um aglomerado de casas, indústrias, lojas e prédios monumentais. Ruas, avenidas e marginais cada vez mais largas, e entupidas de carro. O ar abafado da poluição. As cidades praticamente invadindo uma as outras, num cenário em que os limites de municípios são meramente imaginários, já que avenidas cruzam mais de uma cidade. O medo torna as casas verdadeiras prisões. O vizinho nem se conhece nem mesmo o que pega o elevador todo o dia no mesmo horário.

Pois é, esses dois cenários se referem ao mesmo lugar: a Região Metropolitana de São Paulo, o que diferencia é a linha do tempo. De acordo com dados da Emplasa, Empresa de Planejamento Metropolitano de S.A, que presta serviços estatísticos para o Governo do Estado, a região conta com 39 cidades e 19.767.934 moradores, numa área de 8.501 quilômetros quadros, 2.209 quilômetros quadrados são de área urbanizada.

Mas como o lugar pacato se tornou uma imensidão de caos?

A história dos ônibus na Grande são Paulo pode nos ajudar a entender esse processo, que para muitos é de desenvolvimento econômico e urbano; para outros, de retrocesso na qualidade de vida. E quem viveu esses dois cenários e suas transições é o aposentado José Gilberto Versusi, de 63 anos. Nascido em Socorro, interior de São Paulo, a família dele o trouxe para Santo André, no ABC Paulista, em 1947, quando tinha dois anos de idade.

José Gilberto é o que se pode chamar de história viva dos transportes. Ele lembra cada detalhe de ruas, avenidas e linhas de ônibus de várias cidades da região metropolitana. Se considera um dos busólogos mais antigos. Seu primeiro contato com o setor foi aos 13 anos. O empresário Antônio Braga, da linha entre São Bernardo e Santo André, era candidato a vereador pela cidade andreense. No fim dos anos 50, não havia nenhum impedimento para que os candidatos transportassem os eleitores. Então, ele cedia um microônibus de sua empresa para levar quem ia votar, nele ou não, da região central de Santo André ao bairro do Cata Preta, no mesmo município. José Gilberto se encantou com o veículo Mercedes Benz, carroceria de alumínio Metropolitana. Entrou e ficou o dia inteiro no ônibus ajudando a embarcar e desembarcar passageiros. “Não fui chamado, simplesmente entrei no ônibus e comecei a ajudar só pelo prazer de andar naquele veículo que era novidade nos anos 50”.
No fim do dia, o político e empresário notou os esforços do garoto e o recompensou com um bom dinheiro, tornando-se amigo da família de José Gilberto. “Foi assim que comecei. Por puro gosto, o que eu queria era andar de ônibus”.

José Gilberto fez serviços para Braga até os anos 60 quando foi trabalhar na Rede Ferroviária. “Eu queria ser maquinista, mas fui tão bem na prova que me colocaram na administração”. Pouco tempo depois, consegue uma vaga na fábrica de ônibus da Mercedes Benz, em são Bernardo do Campo, no ABC Paulista.

“Tive a oportunidade de atuar no setor de transportes em diferentes maneiras, no ônibus, com a família Braga, nos trens, na rede Ferroviária Federal, na linha que ligava Santos a Jundiaí e na fabricação de ônibus, na Mercedes Benz”.

Além de profissional, José Gilberto era busólogo mesmo. Sua diversão era andar de ônibus do ABC para vários lugares da capital paulista e arredores. Tanto é que ele viu pelas janelas dos ônibus o que eram cidades e vilarejos se tornarem na região metropolitana e sabe como os transportes contribuíram para isso.

Nos anos 60, a industrialização estava a todo o vapor. Foi aí, segundo José Gilberto, que, mesmo sem a consciência de fato do que isso poderia significar, que começou surgir uma concepção de região Metropolitana, com municípios independentes dos pontos de vista administrativo e político, mas totalmente relacionados dos pontos de vista econômico e populacional.

Mas as mudanças eram lentas. E os cenários relatados por José Gilberto mostram uma época fascinante e interessante. Em alguns bairros, como Mooca, em São Paulo e Utinga, em Santo André havia ruas com paralelepípedos cercadas por pequenas indústrias, nos anos 60. As ruas transversais e paralelas eram de terra. E quem tinha de deslocar essa massa de trabalhadores para as suas casas ? Os pequenos e barulhentos ônibus. “As periferias nasciam, e quanto menor a renda do trabalhador, maior era a distância de sua casa ao emprego. As empresas de ônibus ficavam de olho em novos loteamentos e, às vezes, as linhas chegavam nos bairros antes dos moradores”.

O crescimento do número de linhas de ônibus intermunicipais revelava essa nova realidade: os primeiros passos para uma região metropolitana.

Quando era criança, nos anos 40, José Gilberto lembra que entre Santo André e São Paulo, havia duas empresas: EAOSA ” Empresa Auto Ônibus Santo André ” e Empresa Auto Ônibus Capuava. Pouco mais de 10 anos depois começaram a surgir mais empresas. Pelo menos oito ligavam as indústrias e casas do ABC com as indústrias e casas de São Paulo: EAOSA, Empresa Auto Ônibus Capuava, Viação São Camilo, Viação Andreense (que depois virou Viação Esplanada), Viação Ivegê, Auto Bus São Paulo ” São Caetano, Viação Monumento e Viação São José. Cada uma tinha pelo menos duas linhas (expressa e comum) com trajetos diferentes, o que revelava o aumento populacional da região Metropolitana de São Paulo e também de área urbanizada.

“Vi brejos, aterros, várzeas, etc virarem bairros. Nascerem enquanto os ônibus passavam” ” lembra com paixão e saudosismo. Exemplos são a Vila Ema, Vila Prudente e Vila Industrial, na zona Leste de São Paulo, e as regiões da Vila Gilda, Bairro Paraíso, Vila Assunção e Jardim Bela Vista, em Santo André. “Era tudo terra, brejo, quando eu passava de ônibus nesses locais, não via nada. Mas os empresários da época tinham visão..Meses depois, via-se pelas mesmas janelas dos mesmos ônibus indústrias e casas” ” conta José Gilberto.

Ele lembra que os empresários de ônibus eram visionários e também próximos da comunidade. As empresas eram pequenas e o domo tinha de fazer tudo: administrar, dirigir e atuar na manutenção.

No bairro Paraíso, em Santo André, existia uma empresa que chamava Viação Vila Assunção, que depois deu origem à Viação Padroeira do Brasil. Um dos donos era um rapaz apelidado de Zé Bucho. O ônibus era feito de carroceria de madeira, mecânica Chevrolet Tigre. Às cinco da manhã, era possível ver Zé Bucho dirigindo o ônibus-jardineira. À noite, um baita barulho de martelada e ferro batendo. Era Zé Bucho consertando o velho Chevrolet, que, por causa das condições precárias das vias, apresentava problemas quase todo o dia.

A carroceria de madeira do Chevrolet era produzida pela Grassi, a primeira a construir carrocerias de ônibus em série no Brasil. Começou em 1904, com um ônibus especial para a hospedaria dos Imigrantes, na capital paulista, hoje Memorial do Imigrante. O ônibus, improvisado sobre chassi de caminhão, levava italianos, espanhóis, japoneses, portugueses da Estação Ferroviária do Brás até a hospedaria.

O Chevrolet da Viação Vila Assunção também mostrava a dificuldade e os perigos que a falta de tecnologia da época apresentava. “Pra fazer o ônibus pegar, tinha de rodar uma manivela na frente do motor. Se o giro não fosse completo ou o motor não pegasse, a manivela voltava com tudo. Já vi muito motorista e cobrador quebrar o braço por causa disso”.

Avenida Pereira Barreto em 1930 Avenida Pereira Barreto em 2008
Imagens mostram transformação da avenida Pereira Barros de 1930 a 2008

Adamo Bazani é jornalista e repórter da Rádio CBN. Busólogo, escreve toda terça-feira um capítulo da história do transporte de passageiros aqui no blog. Amanhã, traz o segundo trecho da vida de José Gilberto que descreve a convivência de ônibus e bondes

7 comentários sobre “O crescimento de São Paulo pelas janelas dos ônibus

  1. Esta ai mais um saudoso depoimento dos “velhos Tempos” de São Paulo, relatos como esse, nos fazem, relembrar e reviver nossos tempos de infancia e juventude, parabens Milton, Adamo, continuem nos fazendo ” reviver nossos momentos mais saudosos” abraços
    Vitor

  2. Parabéns ao Adamo e ao “seu” Giba pelo depoimento bastante fiel aos fatos. Vivi essa época maravilhosa e como o José Gilberto, tenho muita saudade.

  3. Olá,

    Apenas uma correção, a avenida da foto, é avenida Pereira Barreto e não Pereira Barros.

    Uma sugestão, procurem nas empresas parque das nações e são josé de transportes, um grande acervo de fotos, contando a historia de ambas.

    No caso do Parque(que chamamos de parquinho)talvez eu possa colaborarcom algumas fotos, pois o meu irmão CICERO,trabalhou lá por quase 40 anos e literalmente morreu por essa empresa.

    E no caso da viação São José, eles alem de fotos,eles podem contar uma curiosidade, que eu não sei se vcs sabem, da Viação Santa Terezinha,que fazia a linha Maua – pq D Pedro, via o Bairro de Santa Terezinha e prosperidade.

    Por favor , se voces quizerem se comunicar comigo,eu sei bastante coisa sobre os onibus aqui da região,entrem em contato via email, necessitando do meu telefone,passarei em resposta ao e mail que vcs me mandarem.

    um abraço forte,

    Pedro Cardozo – Santo André – SP

  4. Adamo,
    Fiquei enormemente feliz pela sua reportagem sobre a história do transporte metropolitano e principalmente pela participação do meu pai José Gilberto Versuri.
    Eu não sabia da participação dele nesta entrevista e fiquei maravilhado.
    Eu trabalhei na Mercedes-Benz com meu pai , hoje trabalho na Embraer e tudo eu dedico ao meu pai que foi o meu professor e mestre.
    Muito obrigado.
    Reinaldo Versuri

  5. Conheci o Sr Giba no inicio de 2000, quando o prefeito Celso Daniel, inaugurou o TERSA, Terminal Rodoviario, eu já havia trabalhado na PMSA, na fiscalização de onibus, depois no Expresso brasileiro, Samavisa, viação Nasser que veio a ser absorvida pela Cristália. Foi neste ambiente que travei as primeiras conversas com O sr Giba, ele ficava o dia todo na rodoviaria observando chegadas e partidas e eu ficava espantado com o conhecimento daquele Sr, sobre o assunto.
    Tempos depois retornei a PMSA no depto de transito e voltei a encontrar o Sr Giba no Brunão, uma de suas maiores paixões o Santo André e nossa amizade criou consistencia. O tempo passou e fui trabalhar na camara municipal e lá tambem o Sr Giba era presença constante, sempre preocupado com as coisas da cidade e do glorioso alvi celeste da cidade. Um verdadeiro exemplo de cidadania e participação popular. Finalmente ele foi escalado paea jogar no CEU AZUL FUTEBOL CLUBE, onde o tecnico supremo o escalou como titular. Vá em paz e cpm Deus sr Gilberto.
    E parabenz pela matéria que pegou em vida sr Sargento.

Deixar mensagem para Pedro Cardozo Cancelar resposta