Baltazar: um sonho, uma foto e 3 mil ônibus

Por Adamo Bazani

Baltazar e o ônibus
Baltazar, de gravata, com um de seus primeiros ônibus, carroceria Ciferal, Mercedes Benz

Quem via o menino de cinco anos freqüentando todo o dia uma garagem de ônibus na região de Patos de Minas, em Minas Gerais, jamais imaginaria que ele se tornaria um dos maiores empresários do País. Atualmente, dono de cerca de 3 mil ônibus em sociedade com outros empresários, em 20 viações, Baltazar José de Souza, 62 , teve sua vida, desde a infância, dedicada ao transporte, por necessidade e paixão.

Paixão porque era bem tratado na pequena garagem de ônibus que freqüentava e ajudava a varrer, limpar peças e organizar papéis.

Necessidade pois aos oito meses perdeu o pai, a mãe se transformou em chefe de família e ele e os quatro irmão se viram obrigados a pegar pesado desde cedo.

Além de frequentar a garagem, onde às vezes ganhava um troquinho ou uma ajuda e às vezes nem um obrigado, Baltazar trabalhou de  ajudante de caminhão, no carregamento de carga, aos 10 anos.  Quando adolescente, vendeu arroz e outros produtos agrícolas, boa parte da produção plantada e colhida pela família, desde São Paulo até o Pará. Ele não pode estudar por muito tempo e brincar era luxo.

Na mente, porém, a certeza de que deveria ajudar a família e seu negócio teria de ser com transportes: “Eu sentia na pele a dificuldade para ganhar cada centavo. E não esbanjava dinheiro. Não comprava pra mim nada além do necessário e guardava todo o pouquinho dinheiro que sobrava”. Ainda em Minas Gerais, Baltazar, com 13 anos fazia de tudo na garagem de ônibus da antiga Viação São Cristóvão. Lá,  teve a oportunidade de conhecer toda rotina de uma empresa de transportes.

“Minha área de atuação era o País. Prá mim não tinha distância e dificuldade. Com 16 anos, em 63, soube que uma empresa estava quebrada em Cáceres, decidi arriscar todas minhas economias e comprei a viação, coincidentemente chamada de São Cristóvão, o mesmo nome da empresa que eu freqüentava com cinco anos de idade e que eu trabalhei na adolescência e aprendi um pouco de tudo sobre o setor” – conta Baltazar.

Os ônibus velhos faziam a linha Cáceres – Cuiabá. Foi a prova de fogo para Baltazar. Ele fala que nem dava pra dizer que as condições das estradas eram ruins na época, porque praticamente nem estrada existia. “Eu tinha de saber de mecânica, administração e direção. Tinha vezes que não dormia por três dias seguidos. As viagens eram demoradas e em praticamente todas os veículos quebravam. A região Centro Oeste do Brasil foi meu berço como empresário”.

A Viação São Cristóvão que estava mal financeiramente foi se recuperando e dando bons retornos a Baltazar. “O segredo era ser pioneiro. Não tinha estrada, mas tinha gente morando. Íamos com os ônibus, depois é que as estradas chegavam”. As linhas de ônibus da São Cristóvão cresciam porque chegavam onde estava a demanda. O sucesso do primeiro empreendimento foi tão grande que o jovem empresário, quatro anos mais tarde, comprou três empresas em Brasília. Também nas mesmas condições da São Cristóvão, mal das pernas (ou das rodas).

A Alto Paraíso, a Brandão e a Corrente começaram a fazer parte dos negócios de Baltazar, que até então, atuava sozinho no ramo.  Na época, muitos iniciavam companhias de ônibus com um ou dois veículos, muitos caminhões adaptados. Os custos eram altos, o trabalho duro e, se o empresário não tivesse visão de futuro quanto a novas linhas e novos carros, quebrava. Por isso que dos pioneiros, poucos restaram. “A Alto Paraíso tinha 40 ônibus. Sem exagero, só 10 funcionavam. Os outros 30 estavam quebrados batidos e estragados. Muitos, nem na garagem. Estavam espalhados pelocaminho, porque nem condições de guinchar os ônibus a Alto Paraíso tinha”

A frota precisava ser renovada. Baltazar precisava de financiamento. Reuniu os os 10 velhos ônibus da marca Internacional que ainda rodavam na empresa, os fotografou e saiu em busca de alguém disposto a emprestar-lhe o dinheiro necessário: “Eram minha única garantia no financiamento, apesar de não estarem bem. Eles pegavam na primeira, eram possantes e percorriam trajetos difíceis que era uma beleza, mas se entrasse ar no motor, ninguém desempacava esses ônibus”.

Em São Paulo, através de conhecidos, Baltazar teve a oportunidade de conversar com o banqueiro Magalhães Pinto, dono do extinto Banco Nacional, no fim dos anos 1970. Depois de muita insistência e de exaltar os velhos ônibus, os únicos 10 que prestavam, Baltazar conseguiu a liberação do financiamento. Mas jamais imaginou que ainda teria de passar por uma humilhação.

Com a aprovação do crédito, o jovem franzino de 20 anos foi a uma Concessionária da Mercedes Benz comprar 10 ônibus novos. “Foi horrível. Viram um moleque, com barbinha ralada e nem me atenderam. Pedi para falar com o gerente e nada. Pedi para falar com algum vendedor e nada. Eles nem sequer procuraram saber o que eu queria”. Foram três dias de tentativas na concessionária na capital paulista até que ele viu o dono da revendedora de ônibus saindo em seu carrão (um Mercedes, é lógico) e o parou.
“Me coloquei na frente do carro e disse: – Olha, eu quero comprar ônibus, tenho financiamento e uma pequena frota de garantia, mas ninguém me atende”. Meio desconfiado, o proprietário da concessionária pediu que ele voltasse no dia seguinte.

Às 8 da manhã, conforme combinado, estava na porta da concessionária, encontrou o dono, mostrou a foto com os ônibus velhos e o convenceu a fechar negócio: “Prá minha alegria e prá desmoralizar os gerentes que não me atenderam, tocou o telefone na concessionária. Era o Magalhães Pinto ligando prá revendedora dizendo que meu financiamento estava certo, sim. Representantes da concessionária foram até Brasília, viram meus ônibus e, por incrível que pareça, gostaram. Então, aproveitei o negócio”.

Baltazar organizou  um comboio com os dez novos Mercedes Benz para a Alto Paraíso. Mais tarde, comprou mais dez. “Depois de tanta dificuldade, quando vi os ônibus novos perfilados, me emocionei. Vi que o preconceito em relação ao jovem empresário era grande, mas tinha vencido isso”.

(continua na próxima terça-feira)

Adamo Bazani é repórter da rádio CBN e busólogo. Toda terça nos apresenta, aqui no blog, um capítulo da história do transporte de passageiros no Brasil.

11 comentários sobre “Baltazar: um sonho, uma foto e 3 mil ônibus

  1. Interessante história… se assemelha com a família Eroles, que em 1934 iniciou suas atividades e infelizmente, no ano passado, encerrou por questões (a serem comprovadas) políticas e de interesses particulares. Hoje com as facilidades, dicas empresariais, empreendedoras, há como tentar um início nas cidades afastadas que possuem demandas, mas não há vontade das empresas devido as dificuldades de localização e tráfego. Está aó uma oportunidade que tentaremos futuramente… movidos pela paixão e pelo sonho, quem sabe não podemos, não é ? Um grande abraço !!! Marcel Truffa – Equipe: http://www.onibusdemogi.com

  2. Bom dia!

    Moro no parque Bristol, região do Zoologico próximo a av. do Cursino.

    Esta região como diversas em São Paulo, esta cercada de residências oficiais e de outras conquistadas a força de invasão.

    Ultimamente temos sido brindados com discotecas ambulantes que param nas ruas obrigando os moradores a “curtir”juntamente com os proprietários desses veículos em elevadíssimo som, músicas (se é que assim posso denominá-las) de gosto duvidoso.

    Gotaria de saber o que o cidadão pode fazer nessas ocasões. A polícia resolve? Fico constrangido em ligar ao 190 para fazer reclamações desse tipo em uma cidade tão carente de segurança pública.

    Obrigado

    Valdir

  3. Mas uma bela reportegem-história do amigo Adamo , e uma ótima história desse empresário tão criticado por suas empresas aqui no Abc , mas q sabe administrar como ningém .
    parabéns pela 1° parte da reportagem , e fico ansios pela 2° , até a próxima terça .
    abs.

  4. LEgal a histporia do Balthazar mas hoje vendo suas empresas na area 5 da RMSP (EMTU) é uma cena bem lastimante, apenas carros velhos, e antigos de péssima qualidade exemplo como a Viação Imigrantes e E.A.O.S.A (Empresa Auto Ônibus de Santo Ándre).

  5. só quem conheçe este homem de nome Baltazar José de Souza,pode falar sou uns dos seus milhares de fucionarios,mas como todos não tenho nada contra ele ,so elogios como amigo e como chefe…
    parabens Adamo ,pela materia estou a espera da proxima terça…..

  6. De todas as brigas que tive até hoje com o “seo” Baltazar, só pôde mesmo ficar, a imensa admiração que tenho por essa criatura; inteligente ao extremo e infelizmente no momento muito mal assessorado; daí as condições precárias de sua frota.
    Qualquer dia desses (tenho fé) voltaremos a nos encontrar, ele representando seus iguais (empresários), eu os meus (trabalhadores dele). Sem sombra de dúvida um exemplo a ser seguido.
    Parabéns pela matéria e estamos no aguardo da continuação.

  7. Como alguém que lutou tanto e tem uma história tão bonita como essa pode permitir que a continuação de sua história possa ser manchada pelos péssimos serviços prestados pelas atuais empresas. Se é para terminar assim, melhor dar lugar a outros grupos que possuem um padrão de serviços melhor.

  8. O ¨Baitaazar¨começou trabalhando muito, resta saber o modos operante que ele utilizou para comprar tantas empresas,foi de forma honesta, já que temos comentaários de falcratruas, principalmente na capital paulista.Ex: Sto.Estevão,São Judas,cons.Aricanduva,Capital, Sta.Barbara,Sto.Expedito,Vila Rica,V.Campo Limpo,Canaa, etc………..Parabéns.

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