Assédio moral permitido

Por Abigail Costa

Numa noite dessas, perdi o sono. Olhei para o controle remoto e em seguida o clique na TV. O apresentador com aparência de patrão dava as ordens. Os concorrentes tinham que cumprir tarefas. O  certo é: tinham que pagar mico.

Homens e mulheres disputavam uma vaga de trabalho, um prêmio em dinheiro, ou quem sabe só tinham vontade de aparecer na televisão. Até aí, gosto não se discute. Mas, cá entre nós, dá para lamentar.

Olhava para a TV e pensava: Como assim, por exemplo ? Como essas pessoas se permitem enfrentar isso?

E o chefe berrava. O homem se mexia constrangido na cadeira. A mulher mais sensível chorava, sem se incomodar com a maquiagem que derretia entre as lágrimas. Cena de novela, com personagens da vida real.

Eu pensava: Jesus! A mulher dele está vendo o marido ser nocauteado em rede nacional com direito a transmissão para a TV internacional.

E os filhos? Será que os amigos estavam acordados?

Aperto o botão vermelho do controle e a imagem some da tela, mas não da minha cabeça.

Penso, penso, sem que o sono volte, e a conclusão é obvia: eles consentiram esse assédio moral. Então, o problema é deles. O meu, é arrumar um jeito de voltar a dormir.

Antes que alguém me diga porque liguei a TV e não peguei um bom livro, respondo: Assumo o erro. Da próxima noite de insônia, nada de televisão nem livros. Vou acordar meu marido.

E, certamente, no dia seguinte falarei de amor e prazer.

Abigail Costa é jornalista e toda quinta-feira escreve no Blog do Milton Jung para tirar o sono de muita gente (o meu, inclusive).

11 comentários sobre “Assédio moral permitido

  1. Abigail, este tipo de comportamento tem levado a corroborar com um estereotipo de administração distante do recomendável..
    Bem sabemos que no mundo real efetivamente existem chefes que atuam desta forma arrogante e autoritária, como se o poder viesse de caretas e frases rispidas.
    Esta espetacularização da arrogância no proprio espetáculo a titulo de sinceridade e eficiencia potencializa a caricatura da eficácia empresarial.
    É lamentável.

    Abraço

    Carlos Magno

  2. Parabéns a você Abigail Costa por compartilhar conosco da sua opinião, que é a minha e de muita gente também.

    Sua indignação mostra que devemos encarar de frente aquilo que mais repudiamos na vida real e na ficção também.
    A SOBERBA.

    Programas como este e do tipo barraco na TV não contribuem com nada de positivo ao telespectador.

    Pessoas que se acham o máximo da inteligência e tentam empurrar garganta abaixo essa imagem de sucesso profissional.

    Acorde seu marido ou tente a TV fechada, pois o “pagar para ver” tem programação mais construtiva na minha opinião.

  3. Não sei quem é o apresentador de quem se fala aqui. Ou, se sei, finjo que não sei.
    Na televisão só vejo futebol, ou algum jornal, se passo em frente ao aparelho.
    Mesmo no futebol, sofro fazendo minhas filtragens, mudando de canal. Há muito disparate, muita bobagem. Que se há de fazer? O assédio, afinal, é exercido pelo anunciante.

  4. O assédio moral se espalhou por todos os cantos e atividades.
    Até em reunião de condomínio já notamos este tipo de conduta.
    Interessante, seja por necessidade premente ou por masoquismo as pessoas se sujeitam a isso.
    Nas TV aberta e também nas TV paga vemos de forma disfarçada o assédio moral.
    Não sou muito de ver TV a não ser somente programas venha acrescentar algo de útil e não fútil.
    Prefiro o velho e bom meio de comunicação inventado por Marconi, o rádio.
    Contribui para o desenvolvimento da nossa imaginação, sonhos, desperta a nossa criatividade.
    Em foruns na internet moderadores e administradores também praticam o assédio moral.
    Parabéns pela materia Abigail!
    Sempre nos surpendendo!
    Sabendo que vc aprecia imagens, aproveitei e enviei para o Milton por email algumas imagens do por do sol, reais e virtuais.
    Abraços
    Armando Italo

  5. Abigail,
    Esse assedio moral permitido é acompanhado por milhares de pessoas, nas madrugadas, nas tardes de sábado.
    Assumo meu deslize também.
    A emissora em questão é outra:
    Tem uma dívida? Venha participar do programa e ganhe o direito para quitá-la….
    E lá vai o coitado. Para conseguir o dinheiro paga o preço de passar por uma saga constragedora.
    Além das pessoas no auditório, tem outros tantos de olhos grudados na tv, de norte a sul do país.
    Imagino que como eu vi o programa só uma vez, uma maneira de dizer que não concordamos com essa falta de respeito.
    É lamentável que isso renda índices de audiência e retire de muitos pontos de sensibilidade.
    beijos,
    Silvia

  6. Niguem me tira da cabeça que, é tudo uma grande armação. Um profissional que queira seguir carreira e ser respeitado, jamais se submeteria a uma humilhação pública. Sua carreira se encerraria no primeiro dia do programa.

    Abraço!

  7. Cara Abigail,

    Concordo com seu texto. Escrevi há pouco tempo no meu blog sobre violência na mídia. Abuso moral é violência. E as pessoas acham bonito! Os valores estão mesmo deturpados.

    Engraçado, a cultura é viva, a ética muda, mas parece que estamos é mais num período de anarquia. Será que isso é a natureza humana? Eu não quero acreditar que seja!

  8. Big,
    Sem comentários… ha ha… na verdade apenas um…
    Grande é você, de fazer de um comentário da TV uma cartinha de amor. Valeu o toque de romantismo.

    Isso é presença! Espírito. Jogue o controle remoto fora, que vamos adorar os artigos sobre amor e prazer!

  9. Desculpe ocupar este espaço para tirar uma duvida sobre assedio.
    Fui desligado da empresa onde trabalhava hoje terça-feira, 09/06, porém fiquei sabendo por funcionários abaixo da minha hierarquia que seria demitido na sexta-feira, dia 05/06, a partir daí gerou-se uma serie de piadas a meu respeito enquanto eu ainda trabalhava.
    Gostaria de saber se isso se caracteriza assedio moral?

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