Quem lê enxerga melhor

Por Sérgio Vaz
Criador e criatura da Cooperifa

Povo lindo, povo inteligente, ontem participei de um debate na Fundação Perseu Abramo sobre circulação de livros, bibliotecas e de incentivo à literatura. Entre vários outros assuntos um em especial me chamou a atenção: o preço do livro.
Já ouvi várias autoridades conhecedoras do assunto falarem que as pessoas não leem porque o livro é muito caro, ou, que é caro porque as pessoas não leem.

Concordo que o livro é caro, mas não concordo que as pessoas não leem por conta disso, as pessoas não leem porque não gostam de ler. É caro só para quem gosta de ler. Tente vender um livro para quem não gosta de ler por R$ 5,00. Ele não vai comprar, e não importa o que você diga, e a não ser que ele compre só para te “ajudar” ele não vai nem querer saber dos seus argumentos. E isso independe da classe social.

Quem mais compra livros no país é o MEC (Ministério da Educação e Cultura), algo em torno de 50 por cento. As pessoas não leem porque faltam ações específicas do estado nas comunidades. Não leem porque não há bibliotecas nos bairros, e as poucas que existem tem um aspecto triste são frias é como se fossem cemitérios, onde livros são enterrados sem direito a velório.

Não leem porque as bibliotecas nas escolas viraram patrimônio público, e como patrimônio, eles, os livros, tem que ser preservados, e para serem preservados eles não podem ser lidos, não podem ser tocados. E se os livros não são lidos, e se não são tocados… Não passam de madeira falida.

Nunca vi uma campanha de incentivo à leitura que realmente desse vontade de ler, parece que quem faz estas campanhas não gosta de ler. É. São bem elaboradas e tal, mas pra quem já gosta de ler.

Elas sempre falam da importância dos livros da vida das pessoas e de como eles são sagrados. Acho que deviam justamente fazer ao contrário, e falar de como as pessoas são importantes na vida do livro, e de como as pessoas são sagradas e que ler não tem nada a ver com cultura e sim com saúde pública: “Quem lê enxerga melhor”.

Quase todo mundo que conheço que não lê alega que não o faz por falta de tempo, pode até ser, mas uma coisa eu vejo desde sempre na periferia, é que a maioria das pessoas vai para o trabalho de ônibus e às vezes ficam até duas horas dentro dele, parados no trânsito olhando para a mesma janela durante anos a fio, e mesmo assim não tem coragem de abrir um livro para passar o tempo. Pior, só os que odeiam ler.

Nos ônibus só deveriam sentar nos bancos gestantes, idosos, deficientes físicos e pessoas portando livros. Aliás, quem não gostasse de ler deveria vir do lado de fora correndo atrás do buzão. Não tenho dó de quem sofre, tenho raiva de quem faz sofrer.

Não os culpo, neste país onde todos nos querem analfabetos de ousadia, na periferia até que tem gente – é muito pouco ainda-, lendo demais.

Aqui no sarau da Cooperifa as pessoas chegaram ao livro através da oralidade, os poetas fazem a gentileza de recitar uma poesia ou ler um conto, e a comunidade faz a gentileza de ouvir. Ao final, para celebrar este momento mágico, as pessoas promovem o encontro das mãos e o bar rompe em aplausos, numa prova que a literatura pode ser uma coisa sagrada, mas que precisa ser profanada pelas pessoas.

E como todo mundo se entendeu com a palavra, descobriu que tinha muito mais dentro dos livros, por isso o Zé fez uma biblioteca dentro do bar para que as pessoas também pudessem bebê-las enquanto petiscam literatura. Precisa ver como as pessoas se embriagam com facilidade.

Sim, as pessoas, elas dão histórias fantásticas, e são elas que leem os livros.

4 comentários sobre “Quem lê enxerga melhor

  1. Olá Sergio
    Infelizmente temos dois lados a serem considerados.
    Como você diz no seu artigo, muitas pessoas não tem dinheiro para comprar um livro, outras alegam que não tem tempo para ler, faltam bibliotecas, as que existem, muitas praticamente estão as moscas.
    Pior ainda é quando o exemplo parte da nossa maior autoridade, que afirma veementemente que não gosta de ler e nem tem paciência.
    Ave maria!
    Assim como muitos.
    A não somente aqueles que estão estudando, frequentam uma escola.
    Sorte efelizes daqueles que adquirem o habito de ler.
    Posso me considerar um felizardo
    Não consigo ficar sem ler e sem escrever, mesmo muitas vese cometendo erros.
    Parabéns pela matéria e alerta!
    Armando Italo
    Seu colega do blog

  2. Concordo que a pouca leitura tem haver com a falta de incentivo. Ninguém mais tem que ficar constrangido por falar besteira, por não entender nosso idioma. Ler não está na moda, e é um esforço desnecessário quando a TV exalta em demasia o besteirol e os bordões que fazem rir!
    Ler dói! Obriga a pensar, a imaginar. O prazer do exercício do cérebro demora, e ajuda muito pouco quem só tem mesmo que achar. Acho isso, acho aquilo…
    Na internet aquele ctrl+c & ctrl+p, garante o resto.
    Uma página colorida e cheia de adereços prontinhos pra a galera babar! Ler pra que? Pensar pra que? Veja este e outros fóruns… Somos quase sempre os mesmos! Em tempos de proibir, nem quem tem que escolher o que crianças vão ler se obriga a parar pelas orelhas dos livros. Entretanto como bem sabemos aqui, há coisas que não da pra mudar por decreto, e ler é sem duvida uma delas.

  3. Ler, ler, ler, ler, ler, ler, ler,……………………………………

    Como métodos pedagógicos, utilizados equivocadamente por professores, despertam tamanha ogeriza pela leitura.
    Como a superficialidade na entrega à leitura pelas pessoas causam essas falácias.

    Eu odeio ler. Detesto literatura.
    Quem nunca ouviu isso um dia?

    As pessoas não sabem o porque de não gostar de ler.
    Nunca sentiram o sabor de verdade disso.
    Quando o prazer da leitura não é descoberto, não se consegue descrever o que vê.

    Hoje, acho até barato o valor de um bom livro, tenho a impressão que já foi pior um dia.
    Concordo com professor Sérgio Mendes, agora do Adote um Vereador, foi muito bem nos seus comentários.
    Penso como ele.

    Já o Armando é visível que adora ler, pois escreve bastante e muito bem. É capaz de escrever várias vezes e opinar com extrema coerência sobre o mesmo assunto.

    Abraços em todos e boa leitura sempre.

  4. snif, isnif, isnif……………..
    Nem tanto vai.

    “Mandô” bem Claudio.
    Nada mais gostoso, ao chegar em casa depois de matar o leãozinho do dia, e antes de pegar no sono ler um bom livro.
    Abraços
    Armando Italo

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