Conte Sua História de São Paulo: Dos velhinhos

Por César Cruz
Ouvinte-internauta do CBN SP

Ouça o texto “A história dos velhinhos” de César Cruz

Como são gostosas as histórias que os velhinhos contam!

Quando eu era menino lembro de ouvir meu pai dizer a cada vez que perdíamos um ancião da família: “Que pena, mais um velhinho que parte levando suas histórias!”. Uma grande pena mesmo!

Meu tio Milton, irmão mais velho do meu pai, contava causos sensacionais passados na meninice deles. Tais histórias envolviam tios e parentes que eu e meus primos nem havíamos conhecido! Era sempre uma delícia ouvir relatos de uma época tão diferente da nossa, e de imaginar nossos pais ainda crianças, aprontando as mais diversas safadezas em uma cidade tão diferente da que conhecemos hoje, com poucos carros, outros hábitos de vida… Tão ingênua!

Minha mãe também era dona de histórias ótimas. Eu gostava de uma em especial.   Nela, papai e mamãe ainda namorados, no final dos anos 50, foram certa tarde ao cinema e depois a uma lanchonete no centro da cidade comer um hot dog, programa típico de casaizinhos jovens da época.

Pouco antes de irem embora, já à noitinha, minha mãe, que era linda – e as fotos não desmentem -, levantou-se e desfilou em direção ao banheiro. Na outra extremidade do estabelecimento havia um grupo de 4 sujeitos mal-encarados rindo e bebendo. Quando ela passou toda graciosa em sua saia e blusa, um deles curvou-se para trás na banqueta e segurou-a pela cintura: “oi chuchuzinho, vem comigo, vem…”. Minha mãe, temperamento forte que sempre teve, não titubeou, desceu-lhe um sonoro tapa na cara.

Meu pai que terminava seu cachorro-quente na outra ponta da lanchonete ouviu o bafafá e quando se virou viu parte da cena. Tomado por uma ira explosiva, característica de sua personalidade, não contornou o balcão em formato de “U” duplo, preferiu ir saltando-o olimpicamente, pisando alternadamente nas banquetas fixas e nas mesas, para desespero dos casais de namorados que, assustados, tiravam da frente suas garrafas de Grapete e Coca-caçula e seus pratos com misto-quente! Em segundos estava cara a cara com os sujeitos!

Deste momento em diante, minha mãe dizia que sua vista havia escurecido e que ela não conseguiu ver mais nada. Apenas alguns flashes teriam ficado tatuados em sua lembrança. Neles via homens sendo arremessados pelo ar e se estatelando sob pilhas de copos e pratos, como nos filmes de saloon.

Em certa parte do relato, Dona Diva passava a falar baixinho e a espiar por cima do ombro, como se houvesse o perigo de alguém, 50 anos depois, ouvi-la. Confidenciava que, na escuridão do seu pânico, pode escutar os sons dos murros, os gritos abafados de dor na voz dos homens e os ruídos secos de maxilares e ossos sendo quebrados… Terminava dizendo que não esqueceria aqueles sons ainda que vivesse 100 anos, e que desde aquele dia, passou a morrer de medo a cada vez que meu pai ficava nervoso: “ninguém segura ele, Cesar… ninguém!”.

No final da história, o jovem Aloísio, atleta praticante de judô e boxe, deixara os 4 maus-elementos moídos no chão em meio aos escombros.

Partiram correndo a tempo de pegar o bonde andando.

Minha mãe, assim como o meu tio Milton, já se foram. Partiram levando com eles todas aquelas apaixonantes histórias… Irrecuperáveis, por mais que nós, os filhos, tentemos reproduzi-las.

Eu, infelizmente, não tenho mais avós nem pais vivos. Transformei-me precocemente em um órfão de causos sensacionais como estes… Arrependo-me tanto por não ter gravado os meus velhos contando alguns deles!

O autor de hoje foi César Cruz. A sonorização é de Cláudio Antonio. Você também participa enviando seu texto ou arquivo de áudio para  contesuahistoria@cbn.com.br.

3 comentários sobre “Conte Sua História de São Paulo: Dos velhinhos

  1. Ola Cezar
    Como era gostoso ouvir das historias e estorias dos nossos tios, avos, pais, os mais vlhos, sabios, simples.
    Será que atualmente os nossos filhos sobrinhos, netos ouvem as nossas historias também e repassarão as nossas aventuras aos seus?

    Grande abraço
    Armando Italo

  2. CASO CPI DA PETROBRAS:
    NÃO PODE CAIR NO ESQUECIMENTO !!!
    Interessante esse Governo Lula e o PT .
    Quando eram Oposição exigiam CPI pra tudo , hoje que é situação, foge de CPI como o Diabo foge da Cruz.
    Quem te viu, quem te ver !!!
    Lula e PT não querem CPI na Petrobras.
    Porque será!?
    Porque tanto medo de uma CPI na estatal?
    Tem um ditado muito popular que diz: QUEM NÃO DEVE NÃO TEME!
    Porque Lula e PT temem tanto uma CPI ?
    Porque será, será por quê?
    Ai tem coisa, e é das grandes!!!
    Rafael Maynard
    22 anos Universitário

  3. Parabéns, Cesar.
    Seu causo é de emocionar. Todos nós, pelo menos os mais sortudos, tivemos nossos Aloísios, nossos tios Míltons e nossas Divas. Além de perdermos o relato de histórias incríveis, com o desaparecimento deles perdemos também parte de nossa memória e de nossa história.
    Grande abraço,
    Gabriel

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