Os Dinossauros que fizeram história nas estradas

 

Modelos inspirados em ônibus americanos são tão resistentes que, apesar de fabricados há três décadas, muitos ainda rodam por todo o País. Os últimos modelos destes Reis da Estrada foram fabricados há 10 anos.

Dinossauro de colecionador com motor cromado

Por Adamo Bazani

Até quem não se liga muito na história dos transportes coletivos urbanos e rodoviários do País tem uma figura peculiar que logo vem a mente quando pensa em “ônibus de estrada”. São os famosos modelos de duralumínio que a Viação Cometa operou com exclusividade por longo tempo. Os veículos, parecidos com os ônibus americanos, cor alumínio e com motor forte, que deixavam muitos carros de passeio “no chinelo”.

O primeiro modelo Dinossauro surgiu em 1972 sobre chassi Scania BR 115, no Salão do Automóvel. Inspirado nos GM Coach americanos, referência mundial em transporte rodoviário, alguns Flechas ainda são mantidos pela Viação Cometa. Outros, apesar dos 30 anos de história, podem ser vistos pelas estradas sob a bandeira de empresas menores, transportando sacoleiros ou em perfeito estado e reformados por colecionadores – como o da foto que abre este post, cujo motorzão Scania, de quase 400 cavalos de potência, foi cromado, dando um ar ainda mais nostálgico e luxuoso.

A história do Dinossauro e, posteriormente, do Flecha (um Dinossauro feito pela própria Cometa), começa nos anos 50, época em que progresso era sinal de estradas, transportes rodoviários. A Viação Cometa, que se iniciou em 1937 a partir de uma pequena empresa urbana, fundada pela aviador italiano Tito Maschioli, crescia e acompanhava o ideal de desenvolvimento do país.

Para se diferenciar no mercado e por não achar modelos nacionais a altura do ambicioso desejo de oferecer transporte rodoviário com requintes de aéreo, a Cometa importou ônibus da General Motors dos Estados Unidos. Eram os GMPD Coachs que tinham ar condicionado, bancos de couro, direção hidráulica, janelas com excelente visibilidade para passageiros e motoristas – itens nos quais a indústria brasileira engatinhava.

Devido a restrição às importações, imposta pela política de incentivo à indústria nacional de Juscelino Kubitschek, trazer ônibus de fora era algo financeiramente e burocraticamente impraticável. A Cometa, no entanto, queria manter o padrão americano para se distanciar das concorrentes. A solução foi abrir parcerias com empresas nacionais. A primeira delas, nos anos 60 foi com a encarroçadora Striulli, que obteve licença da GM dos Estados Unidos e fabricou veículos no padrão dos GMP Coach. Uma boa parte destes veículos era colocada sobre chassis Mercedes Benz. Apesar de a Cometa ter várias unidades deste modelo na época com o tempo o veículo apresentou problemas, assim como a saúde financeira da Striulli.

A história começa a mudar nos anos 70.

Ônibus Dinossauro I

Uma nova era no transporte rodoviário

Os dinossauros (animais) marcaram uma era na história do Planeta Terra e foram responsáveis pelo desenvolvimento de muitas espécies até sua extinção. Muitos dos animais que conhecemos atualmente são resultado desta evolução. Pois quem batizou o modelo de ônibus Dinossauro parecia prever que o veículo provocaria seria responsável por evolução semelhante e marcaria época.

Nos anos 70, a Viação Cometa já tinha uma parceria com a Ciferal (Comércio de Alumínio e Ferro Ltda), que produzia modelos para o mercado como o “Papo Amarelo” e o “Turbo Jumbo Líder”. E foi deste encontro das duas empresas – e muito estudo – que nasceu o primeiro Dinossauro arrancando suspiros nos visitantes do Salão do Automóvel, em 72. O acordo com a sueca Scania, conhecida por seus motores potentes, que havia se estabelecido em 1961, também colaborou com o desenvolvimento do modelo.

A Cometa cedeu à Ciferal dois GM Coachs dos Estados Unidos (um GMPD 4103 e GMPD 4104) que foram totalmente desmontados e estudados “parafuso por parafuso”. No decorrer dos anos, a Scania aperfeiçoava os chassis tornando o Dinossauro mais moderno.

O modelo era feito de duralumínio, um material formado por ligas metálicas de forja de alumínio com cobre, magnésio, manganês e silício. Isso deixava o ônibus mais leve. Junto com sua aerodinâmica de frente caída, o ônibus se tornaria um jato com motores potentes. Sobre chassi Scania BR 115, logo estes modelos se tornavam populares e assumiam uma imagem de robustez e respeito. Havia passageiros que escolhiam a empresa devido aos Dinossauros, conta o motorista Vítor Matos que dirigiu pela Cometa.

A “evolução da espécie” demonstra o crescimento da indústria nacional de ônibus.

Sete anos após o primeiro modelo Dinossauro, nasce a segunda versão com 13,2 metros de comprimento, um gigante na época quando a lei brasileira passou a permitir ônibus rodoviários maiores para atender a demanda de passageiros e a melhoria das rodovias. Em1982, o Ciferal Dinossauro reina absoluto na ligação Rio–SP, mas a Ciferal entra em concordata, resultado de problemas administrativos e investimento acima das expectativas reais do mercado. A unidade do Rio é assumida pelo governo de Leonel Brizola, tempos mais tarde.

Mas não era o fim dos ônibus com cara de ianques nas estradas brasileiras. Viriam em seguida os modelos Flechas, a evolução dos Dinossauros, uma história que você acompanha na próxima terça-feira aqui no Ponto de Ônibus.

Adamo Bazani é repórter da CBN e busólogo. Às terças-feiras escreve o “Ponto de Ônibus” no Blog do Mílton Jung e todos os dias aprecia a sua enorme coleção de miniaturas, camisetas, relógios e fotos dos Dinossauros e Flechas.

12 comentários sobre “Os Dinossauros que fizeram história nas estradas

  1. Recentemente eu estive na rodoviária do Tiete e, a Viação Cometa trocou a maioria dos “Cometas”, para uma versão mais moderna.

    É muito triste olhar para as vagas de embarque e desembarque e não ver mais os tradicionais “Ônibus da Cometa”, que pra mim, era como um ícone da rodoviária do Tiete e um sinônimo de Férias, Viagem e Estrada.

    Abraço,

  2. Ola Adamo
    Bela lembrança!
    Parabéns agraciar e presentear a turma dos VELHINHOS.COM, com este artigo, fazendo-nos voltar ao tempo dos GM Coach da cometa.
    Fui um dos felizardos que teve a oportunidade de viajar nos MORUBIXABA para o Rio de Janeiro e para a cidade de Tanabi, onde passei boa parte da minha infancia nas ferias escolares, cidade localizada um pouco depois de São José do Rio preto.
    Em Rio Preto desembarcávamos do MORUBIXABA e embarcávamos para Tanabi num onibus da Viação Itamarati carroçaria Nicola para Tanabi.
    Lembro-me bem quando os MORUBIXABAS estavam estacionados na antiga Rodoviária de São Paulo e a cadência do ronco do seu motor diesel traseiro transversal de 6 cilindros, 2 tempos e 211 cv.
    http://onibusinbrasil.fotopages.com/?entry=1737591
    Abraços
    Feliz 2010.

  3. Muito bacana, Adamo. Mas preciso ser sincera com você, como sua leitora cativa: para viagens de mais de 4 horas, se eu puder, evito o ônibus a todo custo!

    As viagens de ônibus são terríveis para mim, sempre sinto fortes enjoos nelas.

    Além disso, para viagens longas, os postos de parada dos ônibus são terríveis.

    Um abraço,
    Eliane

  4. Daniel, Armando e Elaine, agradeço bastante às considerações sobre a reportagem. Realmente os Dinossauros e Flechas fizeram a história das estradas brasileiras e fazem muita falta. Podemos vê-los ainda em pouca quantidade na Cometa, sua criadora, que está se desfazendo da frota antiga e em ônibus de empresas menores ou de fretamento.
    Elaine, tem alguns ônibus agora que não são ruins para viajar em longas distâncias. Os sistemas de suspensão estão mais aperfeiçoados e modernos. Mas esses ônibus são mais caros e nem todas as empresas investem neles. Abraços a todos e obrigado pelos relatos de cada um.

  5. Ótima reportagem Adamo!

    Estes dois ônibus fazem parte de minha vida.Principalmente os flechas, que dominavam as rodovias: Fernão Dias e a Via Dutra.Viaja sempre neles nas linhas de SAO-BHZ e SAO-APA.A Viação Cometa e a Impala, deixavam estes ônibus um “BRINCO”. Carros sempre limpos.Sem nenhum arranhão na pintura. Pretinhos sempre nos Pneus. Motoristas sempre impecáveis em seus uniformes. Pontualidade no embarque e no desembarque. E sem falar no inconfundível cheirinho de Tutti-frutti que tinha os Ônibus.Para mim, o melhor ônibus já produzido.Sem duvida, vai deixar saudade!

    Abraço a todos e feliz 2010!

  6. Parabens pela reportagem, eu que trabalhei com esses carros durante mitos anos, recordo com saudades da sua imponencia nas estradas e rodoviarias por onde ele andava,
    foi todo o glamour de uma época que infelizmente nao volta mais e ja deixou saudades!!!

  7. E a Cometa está vendendo os Flechas restantes… Por isso, valeu pena ir a Super Casas Bahia para andar nesses carros incomparáveis, que fizeram o transporte do público para o Anhembi.

  8. viajo sempre no trajeto ctba sao paulo e aparecida e tenho saudades dos dino e dos flecha azul uma carroceria leve e uito bonita pena que a 1001 tenha diminuido esses carros na estrada eles eram considerado os reis da regis bitencurt

  9. Meu sonho é comprar um,ja viagei num dino que maravilha, um dia quero realizar esse sonho,jáprocurei a cometa mais achei muito pesado.Coleciono miniaturas tem um que foi feito de buriti agora já pedi um dino o fabricante é de minha cidade (heber miniaturas) é perfeito o trabalho dele,no site dele o dd branco é meu.

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