O portão da esperança

 

Por Carlos Magno Gibrail

A casa de Sílvio Santos, que fica no Morumbi, é assaltada. A notoriedade do apresentador e do bairro geram mídia proporcional, mas divorciada das estatísticas.

A tendência das notícias é acentuar a propensão do Morumbi para assaltos, apresentando o bairro como área propícia ao crime.

FolhaSP RecorteDos mesmos veículos onde podemos ler informações e notas sobre mapeamento da criminalidade na cidade, onde o Morumbi comparece dentro do padrão normal de segurança, repórteres solicitam entrevistas dirigidas para obter opiniões que possam alarmar e fazer daquele fato, matéria a ser incluída na pauta do dia (leia reportagem publicada no jornal Folha de SP).

É a espetacularização do crime, que não contribuí em nada para combatê-lo, glamourizando muitas vezes a ação criminosa.
Fato que alcança também a atitude de moradores, que aliados da mídia, endossam e agem num viés de avestruz ao fechar ruas e montar condomínios. Como se os muros já fracassados na história da humanidade não bastassem para bastar tais soluções. Nos seus conceitos e preconceitos.

VejaSP Fev 2010Embora os assaltantes da casa de Sílvio Santos tivessem optado pelos muros dos fundos, no terreno do colégio Pio XII, os moradores resolveram completar o fechamento da rua com mais um portão (leia reportagem publicada na Veja SP).

Estes moradores, diferentemente de medida anterior, quando corretamente mudaram a mão para impedir que os carros que faziam atalho para o congestionamento da manhã descaracterizassem a rua e a região, desta vez optaram pela colocação de um portão, fechando ilegalmente uma rua que tem saída e não é estreita suficiente para obter aprovação para uso limitado.

Muros, portas, portões não são esperança de empecilho para ações criminosas. O enclausuramento atua a favor do bandido que já tem a surpresa como arma fundamental. O sistema fechado inibe a redondeza de perceber o assalto, além de criar comportamento isolacionista do morador, potencializando atitudes elitistas, conservadoras, arrogantes e superiores, desprezando o entorno. No aspecto material e humano, quando desconsidera os limites de velocidade e os vizinhos. Vira cidadão somente ao fechar o portão da “sua” rua, enquanto a esperança não é fechá-lo, mas abri-lo.


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda, escreve no Blog do Mílton Jung às quartas-feiras, e conhece muito bem o Morumbi

19 comentários sobre “O portão da esperança

  1. Carlos,

    Estamos muito preocupados com o ecosistema, e com razão -se é que ainda temos razão! Esquecemos de nos preocuparmos com o ser humano: O preconceito, esnobismo, egoísmo e etc. nos fez esquecer de amarmos uns aos outros. A cada dia, estamos com mais medo uns dos outros, nos afastando uns dos outros com grandes muros, grades, seguranças pessoais, carros blindados e tudo que a industria da segurança nos proporciona -isso tudo para quem pode, é claro!- até blusão de couro blindado se encontra no mercado. Cultura e conhecimento, estamos dividindo só com quem está dentro dos perímetros de nossos muros. Ou seja, estamos vivendo em guetos e, guetos diferentes partem para o conflito.

    Para não perder a guerra, em nome de nossa segurança estamos agindo até contra as leis dos homens e da natureza: Fechar ilegalmente ruas para formar vilas seguras e cortar árvores para expandir o foco das câmeras de segurança, é tão cruel quanto o olhar de desconfiança de quem senta ao nosso lado no cinema. Sessão dupla: MAD MAX e LARANJA MECÂNICA.

  2. Muito boa a tua analise sobre essa pretensa segurança da sociedade. Me fez lembrar que ontem a noite quando deitei para dormir escutava as risadas e brincadeiras na casa da frente a minha, era uma festa de aniversário. Quando meu filho comentou sobre o barulho falei que enquanto podermos escutar as pesssoas aproveitando a vida é sinal que ali não existe espaço para bandidagem. Onde se escuta os vizinhos é porque a presença da sociedade ainda é maior do que o isolamento por medo. E afinal festa de aniversário sempre é motivo de alegria. Viva a sociedade que ainda permite que o seu sorriso ultrapasse as suas paredes de suas casas.

    Abração

  3. Beto, muito bem lembrados MAD MAX e LARANJA MECÂNICA.
    O enclausuramento está criando um tipo de ser humano bastante problemático.
    Existe uma rua fechada onde moro e, a experiência é lamentável. Os moradores dessa rua fechada não respeitam o entorno. Os veiculos circulam em alta velocidade , onde o llimite é de 30km/hora. Principalmente quando há segundo carro com seguranças.

  4. Mestre Carlos Magno Gibrail, boa tarde!

    Concordo com sua opinião! Preferimos nos acovardar à enfrentar a criminalidade! Não adianta o portão, teremos que abrí-lo para sairmos qualquer hora depois. Fica muito feio para nossa cara e mostra nossa imcapacidade de lidar com o fato.

    Como Integrante do Adote um Vereador também faço o acompanhamento das reuniões do Conselho de Segurança do Morumbi (CONSEG). Para aqueles que não sabem, as reuniões do Conseg acontecem uma vez por mês, para tratarmos justamente do assunto Segurança Pública no nosso bairro. Quero fazer um depoimento daquilo que vi e ouvi e não daquilo que li na imprensa ou ouvi pelos outros.

    O presidente do Conseg Morumbi, Celso Neves Cavalinni, trabalha muito pelos munícipes com o objetivo de nos proteger da criminalidade. Fortalecer o Conseg como um órgão de relevância dentro do governo do estado é sua meta diária. Tenho que ressaltar, dentro de suas limitações, faz o melhor que pode, em prol do Conseg Morumbi. Devo aqui pontuar que o Capitão PM responsável pela 5ª CIA do 16º Batalhão assim como a Delegada responsável pela 89ªDP fazem um trabalho muito bom na nossa região e que se comparado à outras regiões deve ser elogiado.

    Precisamos avançar? – Claro que sim e isso estamos empenhados. Convido à todos para contribuir!

    Quase um ano depois de frequentar essas reuniões, aprendi e obtive muitas informações que o cidadão não sabe e não se empenha em saber. Prefere viver reclamando da vida à arregaçar as mangas e trabalhar junto ao estado em suas ações! Também já fui assim! Percebo que muitos desses fatos de violência que são tratados pela imprensa, por vezes, são exagerados e tem distorções sim!

    Nas reuniões recebemos informações de dados que podem ser contestados, como eu já questionei por vezes, mas vejo naqueles dados apresentados, por conviver no bairro diariamente, que a violência existe mas é espetacularizada principalmente quando um cidadão como o Silvio Santos é alvo da violência. Existem pontos viciados de criminalidade no nosso bairro que são sabidos e monitorados pelas autoridades. Se não fazem mais é por culpa dos investimentos em pessoal e equipamentos na área que estão sempre atrasados em relação às demandas de todas as esferas públicas.
    Precisamos cobrar mais investimentos por parte deles! (Governantes)

    Testemunho quase todo mês, munícipes indo até as reuniões, para dar seus depoimentos ao vivo que foram assaltados mas comparados à outras regiões estamos sim em situação equilibrada, com variações aqui e acolá. Alguns vão dizer que não podemos comparar nunca em se tratando de segurança pública mas eu prefiro olhar a cidade com um todo.

    Pergunto: – Podemos melhorar?
    Sim, sempre! Isso é oque buscamos ali!
    Venham participar e nos ajudar!

    Cláudio Vieira (Adote um Vereador/SP)

  5. muita poesia nos comentários, que, a meu ver, estão fora da realidade de sp e do brasil. vivemos em constante insegurança. as autoridades não ajudam, só fazem atrapalhar. a subprefeitura quer que retiremos o controle de portaria da rua em q moro, no morumbi, que é rua sem saída. eles se aliam aos ladrões, talvez involuntariamente, por que são burros e burocratas. e insensíveis. é a famosa falta de bom senso do brasileiro do governo, qq governo, qq partido. BURROCRATAS!,

  6. Bom Sergio pelo menos que sobre algum tipo de poesia em algum lugar. Porque não nos comentários.
    Bom senso por bom senso que não falte a ti também.

  7. Ola Carlos

    Eis um lema mais dito no Brasil

    “Quem pode mais, chora menos”

    Manda quem TEM muita grana, poder, é notoriedade do tipo que diz, sabe com quem está falando?
    Cuidado heim!
    Sou amigo do “homi” lá em cima;
    Terra da impunidade, da libertinagem, dos impostos.

  8. Sr. Sergio,

    Momento de reflexão: Quanto mais altos e fortes forem nossos muros e grades de nossos portões, mais difícil será sair para fora deles.

    Ex: Quando os soldados da cavalaria americana saíam do Forte Apache, tinha um monte de indiozinhos na espreita, apostos com seus arcos e flechas para espeta-los. Aqui não temos o Rin Tin Rin para nos alertar.

  9. O cidadão que mora na periferia da cidade e tem que acordar 04:00hs da matina para pegar no batente em meio a escuridão , o aluno que mora em lugares onde a polícia sequer passa para fazer uma ronda, tendo que atravessar a cidade de um extremo ao outro para estudar chegando em casa muitas vezes depois da meia noite só tem uma única proteção: Deus. E não é so quem tem grana que cria muro para se proteger. Em várias favelas da cidade, uma pessoa estranha só consegue trafegar nas ruas próximas à favela se conhece ALGUÉM desse lugar. Do contrário, muita gente já morreu porque não conhecia a região e desconhece que em muitos lugares da cidade clandestinamente existe o toque de recolher imposta por muitos traficantes e chegam ao absurdo de cobrar pedágio de quem quer transitar por essas ruas. Em SP tbém é comum um morador contratar o serviço do chamado “Guarda Noturno” para proteger sua casa e as pessoas que moram na rua. E a maioria nem é rico. Trabalhador comum que apenas esta zelando pela sua segurança. Coisa que o Poder Público deixou de fazer a muito tempo. Nesses tempos de violência desenfreada, cada um se protege como pode. E salve-se que puder. De preferência com muita poesia. Pelo menos Poesia em nossas vidas nos faz sorrir até mesmo em meio a tantas violências.

    Medo
    Carlos Drummond de Andrad

    Em verdade temos medo.
    Nascemos escuro.
    As existências são poucas:
    Carteiro, ditador, soldado.
    Nosso destino, incompleto.

    E fomos educados para o medo.
    Cheiramos flores de medo.
    Vestimos panos de medo.
    De medo, vermelhos rios
    vadeamos.

    Somos apenas uns homens
    e a natureza traiu-nos.
    Há as árvores, as fábricas,
    Doenças galopantes, fomes.

    Refugiamo-nos no amor,
    este célebre sentimento,
    e o amor faltou: chovia,
    ventava, fazia frio em São Paulo.

    Fazia frio em São Paulo…
    Nevava.
    O medo, com sua capa,
    nos dissimula e nos berça.

    Fiquei com medo de ti,
    meu companheiro moreno,
    De nós, de vós: e de tudo.
    Estou com medo da honra.

    Assim nos criam burgueses,
    Nosso caminho: traçado.
    Por que morrer em conjunto?
    E se todos nós vivêssemos?

    Vem, harmonia do medo,
    vem, ó terror das estradas,
    susto na noite, receio
    de águas poluídas. Muletas

    do homem só. Ajudai-nos,
    lentos poderes do láudano.
    Até a canção medrosa
    se parte, se transe e cala-se.

    Faremos casas de medo,
    duros tijolos de medo,
    medrosos caules, repuxos,
    ruas só de medo e calma.

    E com asas de prudência,
    com resplendores covardes,
    atingiremos o cimo
    de nossa cauta subida.

    O medo, com sua física,
    tanto produz: carcereiros,
    edifícios, escritores,
    este poema; outras vidas.

    Tenhamos o maior pavor,
    Os mais velhos compreendem.
    O medo cristalizou-os.
    Estátuas sábias, adeus.

    Adeus: vamos para a frente,
    recuando de olhos acesos.
    Nossos filhos tão felizes…
    Fiéis herdeiros do medo,

    eles povoam a cidade.
    Depois da cidade, o mundo.
    Depois do mundo, as estrelas,
    dançando o baile do medo.

  10. Christian Jung, o relacionamento com o meio ambiente, pessoas e natureza é importante, creio eu, para o equilibrio emocional e social.
    Há anos, quando mudei para a minha residência de hoje, a vizinha veio dar as boas vindas e oferecer para atender eventuais necessidades de uma mudança.
    Quando algum vizinho faz alguma festa ,avisa e envia algum mimo.
    Quando meu filho , hoje com 6 anos, era bebê, o vizinho ao lado mandou hospedagem em hotel para todos.
    Bem, juntamos os dispostos a proteger o bairro nos aspectos de natureza e segurança e fundamos uma entidade para tal.
    Moramos todos em ruas abertas. A minha casa não tem muro na frente, mas tem câmeras gravando e temos um sistema preventivo de entrada e saida de pessoas.
    Não podemos ficar reféns de quem deveria estar preso.

  11. Claudio Vieira, o CONSEG é uma das boas coisas que existe em nossa cidade.
    Também já participei de várias reuniões nesta mesma unidade, em frente ao estádio do Morumbi.
    É bom que estejamos falando sobre o CONSEG, para chamar mais participantes e aumentar a visibilidade.
    Interessante que se passe da crítica á ação para melhoria da segurança.
    Não podemos entrar na onda da espetaculirização do crime. Devemos divulgar a prevenção.

  12. Sergio, a opção de morar em predio, condominio vertical, condomínio horizontal, rua fechada , rua aberta, é dificil de discutir.
    Há muito da cognição de cada um, formando um gosto pessoal quase que indiscutível.
    Entretanto tentando anular parcialmente os juizos de valores, os preconceitos, à luz da racionalidade, podemos analisar em torno de estatisticas.
    Seria oportuno verificar a quantificação e a qualificação dos crimes sobre estas formas de habitação, bem como a sua área geográfica.
    Hoje o Milton Jung entrevistou o comandante da PM responsável pelo policiamento, que colocou um dado importante. Disse que não basta que os numeros indiquem que o Morumbi sob os dados históricos não apresente nenhuma acentuação de ocorrências, é preciso que a população sinta segurança.
    Ora, se você sente segurança em rua fechada, basta procurar , uma rua legalmente fechada e viver nela.
    Espero que respeite os que moram nas ruas abertas do seu entorno, pois não é o que tenho observado.

  13. Christian,comentáro 6, concordo plenamente.
    Como temos observado há fatos que atestam que a vida real tem copiado o cinema, haja visto o caso das Torres Gêmeas. E, também os filmes futuristas, que mostram cidades em que há clusters como moradia, mas em torno existem bandidos ou mendingos assaltando permanentemente os moradores dos clusters, quando estes saem ás ruas.
    Se houver intensificação dos enclausuramentos, quer através de grandes condomínios, quer por ruas e regiões fechadas, haverá grande mudanças comportamentais.
    Será que serão para melhorar?

  14. Armando Italo, comentário 7, acredito que o poder sempre será usado discricionáriamente. Entretanto o sistema não é constante, é crescente.
    Como há evolução e intensificação, quando chega ao exagero , há implosão. Ou seja, Sadam Husseim, e todos os ditadores que já existiram.
    Há um limite para o abuso de autoridade e, quando chega este limite, retornamos ao ponto zero.
    Não se pode esquecer da Bastilha, do Baile da Ilha Fiscal, etc

  15. Beto, comentário 8, boa esta recuperação do Rin Tin Tin.
    Já que estamos voltando ao passado, podemos lembrar que as cidades antigas tinham muros. Os castelos também.
    Nada disso impediu invasões. Apenas eram mais atraentes.
    .Lembra da frase

    O FEITIÇO VIRA CONTRA O FEITICEIRO?

  16. Daniel Lescano, essa questão do medo, vem na direção daquilo que o Coronel da PM, entrevistado hoje pela manhã no programa do Milton Jung se referiu.
    Disse ele que os numeros continuam dentro do histórico , mas a população está tendo outra leitura.Está insegura.
    Na minha opinião a questão é que se os numeros divergem da observação dos moradores, é porque as noticias estão sendo tratadas com exagero. Exatamente é o que tentei colocar neste artigo sobre a PORTA DA ESPERANÇA, ops, PORTÃO DA ESPERANÇA.

  17. Carlos, com.10,

    Vc acabou de quebrar um tabu, ou calar a boca de muitos babacas que existem por aí: “Há anos, quando mudei para a minha residência de hoje, a vizinha veio dar as boas vindas e oferecer para atender eventuais necessidades de uma mudança”.

    As pessoas acham que este tipo de gentileza só acontece em cidades do interior ou bairros periféricos. Boa vizinhança e camaradagem todo mundo gosta, independente da classe social.

  18. Beto,comentário 17,
    Depende apenas das pessoas.
    O relacionamento geralmente precisa apenas ser instigado por alguém, que normalmente é quem tem espírito de liderança. Ou, ao menos iniciativa.
    Onde moro há 10 anos fundamos uma entidade de bairro que gerou bons frutos dos mais diversos. Preservação da região,amizade entre os membros e moradores e até negócios .
    Hoje com a internret a interatividade pode se estender a infinitas fronteiras.
    Veja o nosso caso , a partir do BLOG DO MILTON JUNG, já estabelecemos uma relação nova com “n” pessoas.
    É preciso disposição.
    Hoje há jornalistas que predispõe esta interatividade,informando endereço de e-mail. outros preferem o antigo. Mesmo nos blogs, que teoricamente seriam ferramentas de interatividade, muitos articulistas não respondem aos comentários.Tudo indica que onde moram também não estarão se relacionando com os vizinhos.Mesmo que morem em condomínios fechados.Ou não?

  19. Carlos, Com. 18,

    Eu não perdia os comentários de Walter Maierovitch na CBN. As ilustrações mitológicas e filosóficas eram muito bacanas. Certa vez, tive uma dúvida e lhe enviei um e-mail, o qual foi respondido com elegância e toques de humor. Daí por diante, jornalista ou colunista que não responde seus admiradores, considero uns “boco-mocos” (risos)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s