O jogo do Brasil que os meninos viram

 

Direto da Cidade do Cabo

Escrevo por procuração. Transcrevo o que me disseram dois meninos diante de sua primeira Copa do Mundo. Com 10 e 13 anos, esta é a primeira vez que eles assistem à seleção brasileira diante da responsabilidade de levar a outro Continente nossas glórias, traumas e identidade cultura. Sim, o futebol tem este caráter que se sobrepõe a análise crítica do desempenho individual dos jogadores e do pensamento de seu técnico.

Agora mesmo, quando escrevo, a versão americana do canal de televisão Bloomberg abre o programa Bloomberg News Asia e nas manchetes fala da vitória do Brasil sobre a Coreia do Norte, logo após destacar o discurso do presidente dos Estados Unidos Barack Obama, sobre o vazamento de óleo que provoca um dos maiores desastres ambientais que já assistimos, ao vivo. Nas manchetes oferece pesos parecidos aos dois “fenômenos”.

Por mais incomodado que você esteja com a cobertura jornalística sobre a Copa, não há argumentos suficientes que me convençam de que não se deve dar tal importância a este evento.

Conscientes disto, os meninos tem se envolvido com a Copa do Mundo antes mesmo do álbum de figurinhas chegar às suas mãos. Na sala de aula, têm estudado temas referentes à África, apresentado pesquisas sobre países deste continente e recebido informações sobre as 32 nações representadas no Mundial.

Digo que esta é a primeira Copa deles, pois consta que é a partir dos oito anos que as crianças começam a desenvolver o gosto pelo jogo. Os pais colocam babador com o símbolo do time, gorrinho com as cores e penduram cartaz com os craques (onde ele existirem), mas é depois dos oito anos que os meninos e meninas passam a definir sua preferência. Além disso, na Copa passada, os dois interlocutores desta história não estavam muito afim de “perder” seu tempo diante da TV.

Veem o futebol muito mais pelo coração. E com este sentimento vibraram no segundo gol de Elano: “aquele narigudo com cabelo encaracolado tem cara de choro, parece que tudo vai acontecer errado para ele, por isso estava torcendo pra ele fazer um negócio legal”. Por mais que o futebol tenha me ensinado algumas coisas, muitas vezes peco pela mesma sensação. Vejo um atleta em campo e por ele desenvolvo um sentimento de pena, compaixão, mesmo levando em consideração que está sendo muito bem remunerado para exercer aquele papel.

Ficaram alegres ao ver Robinho com a bola. Toda vez que esta chegava aos pés dele, os dois comemoravam como se soubessem que dali sairia um lance interessante: “ele ia pra cima dos coreanos, não ficava lá parado, queria sempre driblar”. Pensamento complementado pelos mais novo: “não tinha medo de jogar”.

Se Elano os fez vibrar, e Robinho, sorrir, o craque do time, garoto-propaganda de todas as propagandas, Kaká os deixou com raiva. Praguejaram contra o bom-moço durante a partida, várias vezes “Ele não acertava nenhum passe, tinha de ter saído no primeiro tempo”. Não querem saber, os dois, dos problemas físicos que limitam o desempenho do meio-campo brasileiro, querem resultado. Como todos nós. Como Dunga, também.

Dos norte-coreanos, não tiveram dó. Nem mesmo após ouvirem de um professor na escola que nestes países em que há ditadura jogadores que não cumprem seu papel são punidos e voltam para o exército (?). Passaram o jogo todo falando mal do “Rooney Coreano”, o atacante Jong Tae Sae, que teimava em impor perigo ao gol brasileiro. “Ele chorou quando tocou o hino, ele chorou quando cortou a perna, ele chorou quando perdeu o gol, ele chorou quando fez o gol. Ele é um chorão” – disse um. E o outro concluiu: “Vai ver tá com medo de levar chibatada quando voltar pra casa”.

Terminado o jogo de estreia deles em Copa do Mundo já querem saber qual a chance do Brasil contra a Costa do Marfim. “Será que o Dunga vai tirar o Kaká ?”.

Com esta sinceridade sobre o futebol, confesso que ficarei mais atento a opinião deles do que a de uma turma mal-humorada e comprometida que anda solta por aí.

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