Kaká, Robinho e Luis Fabiano, sem pudor

Direto de Roma

Os cinco amigos o esperam ansiosos no boteco em uma rua escondida no extremo sul de São Paulo. Lá é Cidade Dutra, distante do que você conhece, longe, mesmo para quem mora ali. Marcão, aquele torcedor sofrido que citei neste blog, há dois dias, chegou depois do expediente, durante o qual oferece segurança para a casa do patrão. A moto não havia sido desligada nem o capacete retirado e já ouvia a gritaria que vinha do pessoal sentado nas poucas mesas que enchem o salão.

Como um goleiro que repõe a bola em jogo, Marcão passou a mão na encomenda que havia recebido diretamente da África do Sul (“aí é mais barato, chefia”) e a chutou em direção a pequena porta que dá acesso ao bar. Os dois menos combalidos pela cerveja que regou o fim de tarde saltaram antes e conseguiram pegá-la ao mesmo tempo. Puxa daqui, empurra dali, o mais novo levou a melhor. Vantagem que não durou muito, pois o pessoal sem reflexo no primeiro arremesso aproveitou-se do entrevero para roubar-lhe o objeto.

Preocupado com o prejuízo que teria, Marcão gritou mais alto: “Para lá, para lá, essa Jabulani é minha e ninguém tasca”.

Os, agora, seis amigos reverenciavam de seu jeito a bola desta Copa, a mais criticada e querida (no sentido de “pedida”) de todos os tempos. A trataram como um troféu desejado e assim que tiveram um pouco de lucidez passaram a analisá-la de raio a raio. Não viam hora de testá-la no Peladão, campo de várzea da vizinhança que ganhou este nome devido a inexistência de qualquer vestígio de grama entre as quatro linhas, todas devidamente cavadas pelo tempo.

Inversamente proporcional às reclamações dos profissionais da bola, surgiu o desejo dos peladeiros no mundo todo pelo objeto fabricado pela Adidas, especialmente para a Copa da África. Seja no extremo de São Paulo, no comércio de Johannesburgo ou aqui em Roma – de onde escreverei até o fim desta Copa – não é difícil ver alguém comprando, carregando ou chutando a tal bola de supermercado, assim definida pelo goleiro Julio César – que não tem muito o que reclamar dela até aqui – e, posteriormente, comprovada em testes de laboratório.

Parece que todos querem exercitar seus dotes na Jabulani e desafiá-la. Ou desafiar os craques (?) da Copa: “Ela é tão ruim assim ou eles é que são pernas de pau?”. Jamais vão descobrir pois a bola vendida em lojas – e supermercados, também – com preço mais em conta tem diferenças em relação aquela que rola nos gramados da África. Com mais gomos do que a original, ganha mais atrito e oferece efeitos menos danosos.

O curioso desta bola não chega a ser os problemas que pode gerar, em especial aos goleiros. Mas o fato de o objeto ter ganhado vida própria com nome de batismo e tudo. Enquanto estive na África, ninguém me pediu para comprar uma bola, todos queriam a Jabulani.

Verdade seja dita, esta coisa de não chamar bola de bola é antiga aqui no Brasil e se iniciou com o pessoal do rádio que na criatividade de suas narrações a chamavam de tudo, menos de seu nome próprio: balão de couro, criança, menina, gorduchinha, maricota, leonor, pelota, perseguida, maria, redonda, nega, esfera, caroço, esférico, esfera de couro, margarida, caprichosa, pneu, bexiga, … (complete a lista se quiser).

Antigamente, também, os jogadores costumavam tratá-la de forma diferenciada, bem mais carinhosa. Era uma dama a ser cortejada, acariciada. Lembro de alguns que a beijavam antes de chutá-la. Quando pisavam nela, os locutores gritavam: “Tá chamando a bola de Vossa Excelência”. No Brasil, a bola sempre foi admirada como mulher, culpa da gramática que a apresenta como substantivo feminino.

Hoje, os craques que sobram não tem mais tempo para todo este apego, assim que a pegam precisam mandá-la em frente antes que um “zagueirão” chegue rachando e acabe com a graça da jogada. Nosso Elano, infelizmente, sabe do que estou escrevendo.

A bola – a Jabulani – anda com velocidade, sempre tocada com pressa nem sempre de pé em pé, resultado de um futebol moderno que exige cada vez mais força e – ao contrário do que críticos dizem – muito mais jeito para fazê-la chegar ao destino desejado. Por isso tendem a não alcançar seu objetivo.

Desconfio que a bola da Copa não trata ninguém mal, é maltratada por jogadores que têm cada vez menos tempo para intimidades com ela. Para estas quartas-de-final, sugiro que os técnicos destinem uma bola para cada atleta e que os obriguem a dormir abraçado nela para quem sabe, assim, comecem a tratá-la como uma amada amante.

Kaká é dos brasileiros o que mais deixa explícita sua relação sem limites em toques e assistências – uma contradição para um atleta recatado com sua vida privada. Robinho é o mais atrevido ao dançar com ela diante do adversário e, ao menos uma vez até aqui, enfiar-lhe nas redes. Luis Fabiano, sem vergonha, tem demonstrado capacidade de aproveitá-la de todos os jeitos. Por cima, por baixo, de primeira, de chapéu e, se preciso for, passa a mão nela.

Que amanhã, contra a Holanda, os três repitam esta falta de pudor.

O torcedor iria se apaixonar.

Um comentário sobre “Kaká, Robinho e Luis Fabiano, sem pudor

  1. Sabe que eu acho Milton?
    Depois que começou a debandada de jogadores para a europa, a globalização do futebol, os estilos se fundiram.
    Os nossos até então criativos jogadores, a ginga malandra do brasileiro, como viamos nos tempos de Pele, Pepe, Mengalvio, Zito, Garrincha, Djalma Santos, Djalma dias, Gersos, Tostão, Zé Sergio, Zico, Bebeto Nhem Nhem Nhem, Ademir da Guia, Serginho, nossa se ficar digitando nomes dos verdadeiros artistas do passado com a bola nos pés acho que o espaço não será suficiente.
    Temos hoje exelentes e ainda os não “viciados” e ainda nem tanto gananciosos jogadores no Brasil, a exemplo de Neimar, Ganso, que ficaram no Brasil, pois deveriam estar na copa mesmo sem a “experiencia” que os cartolas ainda acreditam que seja necessária para jogar na seleção brasileira.
    Pele quando jogou a sua primeira copa do mundo estava com desessete anos somente.
    E como jogou!
    ai vão dizer:
    Ahhhhhhhhh Armando, mas era o Pelé.
    Ledo engano, obviamente devemos relevar e considerar o óbvio.
    Hoje os nossos jogadores jogam “duros” quadrado, cadenciado, retrancados, no contra ataque.
    Excuindo obviamente Robinho, Caca e o “doidão” Luiz Fabiano.
    Esses graças aos deuses pelo que parece não permitiram que a dureza européia os atigissem.
    Até quando?
    Realmente, em parte, concordo com Cruiff quando afirma que a nossa seleção atual está muito aquem do que era no passado.
    O mesmo vem acontecendo com outras modalidades esportivas.
    O Judô por exemplo perdeu o seu glamour, a sua filosofia, a sua verdadeira arte marcial.
    Só se usa a força, golples antes proibidos hoje podem ser aplicados, meio ponto ou wasari virou Ipon.
    O barulho da torcida durante um shiai, campeonato dentro de um ginasio é ensurdecedor, lastimável, falta de respeito total a filosofia e aos ensinamentos do judô
    O tenis, considerado o esporte fino, branco, torcida silencionsa, já era!
    Depois que as torcidas invadiram as quadras com cornetas, gritarias ficou pior.
    Tenistas hoje atuam com roupas coloridas, nada contra, mas……
    Tudo mudou!
    Para melhor ou para pior?

    Abraços
    Armando Italo

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