Conte Sua História de São Paulo: sentimental do tempo

 

Por Frank de Oliveira
Ouvinte-internauta do CBN SP

 

Ouça o texto de Franklin de Oliveira, sonorizado por Claudio Antonio

 

Para muitos, eu era ali um transeunte apenas, a disputar um espaço. Para esses muitos, tudo era apenas a metrópole pulsando ao cair da tarde. Para mim, era um mundo de lembranças, emoções e sentimentos. Quando parei o carro próximo à estação Marechal do metrô, tratava-se de uma providência prática. Por que insistir no trânsito até chegar ao centro da cidade, se o metrô era bem mais rápido? Mas a minha perdição foi desistir também do metrô e decidir ir a pé. Daí, o inevitável aconteceu: à minha revelia, as emoções me abraçaram, resultado das lembranças que emergiam pelas ruas por onde passava. Uma jornada psicossentimental por aquela região, mágica, que tinha em suas veias uma notável dicotomia – o chique de Higienópolis, ali tão perto, e a autenticidade dos Campos Elísios, que assumiam, impávidos, descontraídos até, a própria degradação, sem saudades do tempo em que eram o bairro mais badalado de São Paulo.

 

E foi por ali, no rumo das lembranças, que começou minha viagem no tempo. Ali, na rua Vitorino Carmilo, numa casa com tijolos aparentes, pertencente a uma vila inglesa, que por si já espelhava o passado.

 

Nessa casa, trabalhei no início deste século na edição de uma enciclopédia. Paralelamente, em casa minha, lia a biografia de Tarsila do Amaral escrita por sua sobrinha Tarsilinha, um mergulho na Belle Époque brasileira, com cenas que aconteciam ali bem próximo, na rua onde Tarsila tinha morado com Anita Malfatti, na casa de Mário de Andrade ou na de Dona Yolanda Penteado…

 

Histórias como aquela segundo a qual Mário comprava todas as flores da feira e mandava entregar na casa das meninas pintoras. Quando eu saía para o almoço, ficava imaginando que aqueles construtores de sonhos tinham andado um dia naquelas mesmas ruas, quem sabe com um poema ou um quadro a se formar na alma e na mente…

 

Da Vitorino para a rua Martim Francisco. Um espaço de alguns quarteirões, mas também um salto de muitos anos na minha vida. Um salto até a minha juventude em seus anos mais bonitos. Dezoito anos, a primeira namorada “firme”, Ângela… Ela morava na Martim Francisco, era nissei, de Sagitário. Três irmãs de personalidade fortíssima, e a mãe ainda mais. Ela me chamava de Toni (foi a única até hoje a fazê-lo). E volta e meia dizia: “Toni, eu não gosto disso!!!”. Quase um bordão. Com ela conheci muito de amor e de brigas, que aconteciam quase todos os dias e demoravam quase algumas horas…

 

Essa garota estudava comigo no Colégio Caetano de Campos, sim, mas o Caetano de sua versão mais bacana, ali na praça da República, com sua arquitetura antiga, ali onde conheci Jimi Hendrix, Janis Joplin, James Taylor, e onde aprendi, com o amigo Mazagão, que era possível você chorar diante da beleza, pelo excesso dela.

 

Em minha caminhada, antes de chegar ao colégio, havia o largo do Arouche, com seu cinema onde eu conhecia o porteiro, que me descolava ingressos gratuitos, para assistir a filmes que eu nem entendia direito. E também com seu restaurante macrobiótico Arroz de Ouro, onde eu ia com meu amigo Milton, que de tão fã dos Beatles quis também se ligar nessas modas, quando os quatro rapazes de Liverpool foram para o Oriente e voltaram de lá falando em meditação transcendental e em Ravi Shankar.

 

Ravi Shankar, que eu conheci ali bem perto, no Teatro Municipal. Naquele dia em que meus colegas descolados do Caetano de Campos me convenceram a cabular as duas últimas aulas, sair escondido e ir lá fazer pressão para entrar mesmo sem ter ingresso. E entramos! Difícil imaginar o efeito que causou naquele menino que eu era a magia de penetrar naquela sala já com as luzes da platéia apagada e dar de cara com toda a riqueza da música indiana, assim, sem prévio aviso.
Todas essas emoções estavam ali, guardadas. E foram despertadas de leve, por aquela caminhada entre bancários, automóveis, ruas e avenidas, como dizia a canção. Uma caminhada exterior, mas que me revelou de novo a mim mesmo, lembrança, sentimento, riso e canção, e uma imensa vontade de renascer.

 

Conheça o Blog de Frank de Oliveira, autor deste texto.

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