Medos privados em lugares públicos

 


Por Carlos Magno Gibrail

Estradas e aeroportos poderiam despertar gostos e desgostos similares dos brasileiros. Poderiam, mas ao que se depreende das recentes reportagens na mídia não é o que vem acontecendo.

Embora carros e aviões tenham tido frotas cada vez maiores, as avaliações das normas, das condições e das fiscalizações de estradas e aeroportos tem sido mais favoráveis às rodovias do que aos aeroportos.

Não sabemos se devido ao velho medo de voar, ou a questão da capacidade de interpretação e entendimento dos fatos por uma parcela da população, ou ainda a preferência nacional pelo automóvel.

A revista VEJA SP publicou reportagem sobre fiscalização nas estradas paulistas, ressaltando o aplauso dos usuários à aplicação rigorosa da legislação sobre os cidadãos inadimplentes diante do fisco.

João Carlos Rodrigues ficou sem o seu carro por atraso no licenciamento e, segundo a matéria, ficou feliz: “Eu acho bom eles serem rígidos”.

Outro motorista estava com duas crianças e tentou sensibilizar os policiais, que irredutíveis disseram para ele procurar outro meio de ir para casa.

A professora Márcia Felix ia visitar o marido no hospital, mas teve seu veículo retido por atraso no licenciamento. Não há na VEJA nenhuma crítica dela nem de ninguém pelo fato de ficar sem o carro e sem nenhum meio de transporte convencional para sair do posto policial.

A leitora Jessica Costa, entusiasmada, teve sua mensagem publicada na edição desta semana: “É muito bacana ver as leis sendo cumpridas com seriedade”

Outro comentário publicado sobre a reportagem, também não ressaltou o fato de ficar sem o carro e sem opção formal de transporte. André Pedrosa diz: “Acho correta a atuação da Polícia Rodoviária que resulta em apreensões por falta de pagamento. Considero, porém, inadmissíveis a qualidade do serviço e o tratamento dado ao cidadão que após esse infortúnio busca regularizar a situação do veículo.”

Coincidentemente, na semana anterior da reportagem citada, o ouvinte-internauta Julio Tannus enviou e-mail relatando ter seu veículo rastreado e parado por falta de pagamento no valor de R$ 59,00. Às 21hs de sábado, a 400 km da capital, onde reside, foi informado pelos policiais rodoviários que deveria deixar seu carro e providenciar transporte. Precisaria também aguardar a segunda-feira e se dirigir a cidade próxima para efetivar o pagamento, pois este não pode ser feito no posto policial, somente em repartição autorizada para tal.

Passado o medo, mas não o inconformismo, Tannus pergunta: “Por que não posso pagar no ato e ter meu carro devolvido, ou ir até um caixa eletrônico pagar e ter a liberação, ou levar a multa devida e sair com o carro, ou ter sido avisado do valor não pago?”

Por quê?

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feira no Blog do Mílton Jung

18 comentários sobre “Medos privados em lugares públicos

  1. Carlos
    Todos sabemos que atualmente os custos para manter um automovel, principalmente em São paulo é exorbitante!
    Muitos diante das “facilidades” existentes para se adquirir um automovel acabaram comprandi um, ou outro mais novo financiado em até 70 mêses, praticamente alugaram o automovel da financeira.
    E depois quando começam a surgirem as despesas, muitos não tem condições de arcar com as tais.
    E dá no que dá.
    Acabam ficando sem dinheiro para pagar IPVA, licenciamento, multas, manutenção preventiva e até prestações.
    Então quem tem automovel, ou acabou de comprar um deve estar ciente antes de mais nada que os custos são elevadíssimos.
    Deixei te ter um automovel justamente porque não acho justo ter que gastar em media perto de 1500,00 por mes em um automovel e me ver privado de itens mais importantes e relevantes.
    Quanto a burocracia existente acima, esse quesito sempre existiu infelizmente.
    Pois para legisladores, se puderem dificultar a vida do cidadão para que facilitar.
    Carro é para quem pode e realmente precisa de um.

  2. E pq então, ao invés de reclamar sobre as apreensões, a falta de transporte e sobre a falta de condições de pagamento imediatas, o condutor do veículo não providenciou a regularização da documentação do veiculo ANTES de iniciar sua viagem? Tais constrangimentos seriam evitados e a senhora poderia ter chegado ao hospital para visitar seu esposo, bem como o pai de família acima citado não teria exposto sua esposa e filhos a risco e constrangimentos desnecessários. Falta condições financeiras para fazê-lo? Uma dezena de bancos dispõe de financiamento de débitos veiculares.

    Em resumo, em minha opinião o brasileiro está tão acostumado com a situação de impunidade que quando é flagrado cometendo alguma irregularidade, reclama.

  3. Respondendo ao sr. Julio: porque o pagamento feito no posto policial poderia configurar extorsão.

    O policial agiu corretamente ao informá-lo que o pagamento deveria ser feito em dia útil e em local apropriado.

    E o sr. Julio agiu incorretamente ao deixar sem pagamento o valor de 59 reais devido.

  4. Acho certo que carros irregulares sejam apreendidos, mas o serviço de regularização deveria funcionar inclusive aos sábados, domingos e feriados. Tenho um amigo que o carro dele foi apreendido na sexta a tarde um dia antes do Carnaval. Ele só conseguiu regularizar na quinta-feira porque quarta era Cinzas. E cinzas tbém ficou o bolso dele. Afinal quando o carro é apreendido paga-se a diária do estacionamento onde o carro foi recolhido. Hj os bancos funcionam 24 horas no tal do Intenet Banking, já o Detran tá 30 anos atrasado com tanta tecnologia hj em dia. . Isso me lembra uma época em que a Eletropaulo cortava a energia do cidadão numa sexta-feira a tarde e o pagamento da fatura só poderia ser pago na segundona. Até lá apagão na casa do cliente. Hj tem as lotéricas. Acho que esse rigor com os carros de passeio deveria valer tbém para caminhões. Se a fiscalização fosse rígida, acredito que uns 40% da frota de caminhões que trafegam pelas estradas seriam recolhidas por pneus carecas, excesso de peso, altura das cargas, placas pouco visível e documentação irregular. Mas o que vejo nas estradas é de dar medo e esses caminhões só serão fiscalizados se cometer um acidente.

  5. A TITULO DE ESCLARECIMENTO: Voltando para São Paulo há alguns dias atrás num sábado lá pelas 15h pela Rodovia Washington Luiz, minha viagem foi subitamente interrompida por um policial militar rodoviário. Estava distante de SP um pouco mais de 400 km, próximo de São José do Rio Preto.
    Após apresentar a documentação de praxe – CNH e Certificado de Propriedade – fui solicitado a entrar no Posto de Polícia Rodoviária e incontinenti me informaram que o licenciamento estava vencido. Em consequência, o meu carro seria guinchado, levado para algum local na cidade de São José do Rio Preto por meio de um guincho de empresa terceirizada, e que na segunda-feira eu deveria me dirigir nessa cidade a um posto de Poupatempo para pagamento da dívida pendente.
    Incrédulo, argumentei que deveria estar ocorrendo algum equívoco, pois sou absolutamente rigoroso com minhas contas.
    Após constatar no terminal de computador que efetivamente meu licenciamento estava vencido, lembrei-me que na época de renovação do licenciamento estava totalmente absorto em questões médicas de pessoa da família.
    Foi assim que iniciei um longo processo de questionamento junto aos policiais presentes. Resumidamente:
    – Por que não posso pagar agora o valor devido e ter meu carro liberado?
    – Por que não posso ir até uma cidade próxima e num caixa eletrônico saldar a dívida e ter meu carro liberado?
    – Por que não é lavrada uma multa devido ao não pagamento do licenciamento e assim ter meu carro liberado?
    – Por que não fui alertado que o meu licenciamento estava vencido?
    – Por que um cidadão que sempre honrou com suas obrigações, é obrigado a ficar a pé quilômetros de distância de seu domicílio?
    E, finalmente:
    – Como pode uma lei exigir que uma autoridade policial deixe um cidadão a pé na beira da estrada, distante 400 km de sua moradia, por não ter pagado uma obrigação no valor de R$ 59,33?
    – Como pode essa mesma lei não possibilitar que esse cidadão pague no ato a quantia exigida, através de um terminal independente da corporação policial, possibilitando assim que prossiga sua viagem até o distante destino?

  6. Boa tarde Milton e aos colegas do Blog,

    Julio comentario 6. Eu sei que erramos quando deixamos de pagar esses imposotos que são uns engodos na nossa vida. Se tratando do estado de SP, que é o estado mais rico do pais para se manter um veiculo, a situação, fica pior. Mas o que eu gostaria de questinar é o seguinte: tenho a mais absoluta certeza, de que se fosse: um deputando, sendor, um coroenl, um tenente, um policial, filhos dos mesmos ou um juiz, que com certeza tem muitos por ai, com habilitação vencida, documentação atrasada, fazem as piores faucatruas com os veiculos roubados ou mesmo um veiculo sem documentação, eles seriam liberados e tal vez, o policial, os convidasse para tomar um cafezinho ou puxaria tonto o sacos, que poderia receber um cafezinho também.
    Não adianta querer nos falar que essa situação não ocorre, porque, ocorre sim.
    Ai que fica a pergunta: eles são diferente de de nós? ou de vc? Como somos pessoas onestas, pagamos os nossos impostos e pagamos eles, temos que cumpri a lei. Agora eles, a lei que vai as favas.

    Abr,

    JR.

  7. Carlos
    Se uma pessoa decide em comprar um automovel nos dias de hoje deve estar ciente das dores de cabeça e das infinitas responsabilidades, cuidados que tera que enfrentar apartir do momento que retira o automovel da concessionaria, de terceiros, etc.
    antes de sair por ai com seus possantes porquê não fazer um chec list?
    Verificar se a documentação do veiculo, do motorista, se a habilitação esta em dia e a manutenção também em dia, etc.
    Estando tudo ok podem pegar os seus possantes e sair por ai por estradas a fora.
    Ai o “esquecido” não precisará passar por todo este inferno, ter seu carro retido, esperar o banco abrir na segunda feira.
    A burocracia existe sim e poderia ser melhorada face aos avanços tecnologicos existentes nos dias de hoje.
    mas nada justifica o desleixo do motorista com relação aos cuidados gerais com seu automovel, sua documentação e com a vida de todos abordo.
    Ai vacilou a policia pega mesmo.
    Não adianta reclamar.
    E o mesmo um contribuinte ser chamado na receita federal “porque esqueceu” de declarar certos ítens.
    quanto a burrocracia brasileira sem condições
    Olha um exempl da falta de atenção
    O Lear Jet que caiu logo depois de decolar do campo de Marte em 2007 a causa foi devido ao desbalanceamento de combustivel que não foi verificado pela tripulação.
    Porque não foi checado o balanceamento de combustivel de um avião?

    Abraços
    Armando Italo
    Armando Italo

  8. Wiliam Carvalho Jr., espero que a sua perfeição seja absoluta e permanente, e nunca venha a ficar com filhos abandonado em uma estrada sem condição de locomoção e acossado a tomar uma providência para seguir adiante. É bom que tenha celular e condições psicológicas, administrativas e financeiras para enfrentar o momento.
    Porque se depender da ordem estabelecida, a intenção das multas de trânsito tidas como preventivas de acidente, viraram fonte de renda. E a indimplència de taxas deveria ser eliminada no momento do pagamento usando os recursos eleltrônicos que possibilitaram a apreensão.

  9. Edson M., não entendi a possibilidade de extorsão.
    Certamente a sua atualização da TI isto é, da tecnologia da informação está ultrapassando o meu conhecimento. Isto porque quando estamos preparando o mundo para convergir num mesmo equipamento eletrônico as funções de celular,cartão de crédito,cartão de débito, emissor e receptor de e-mails, não vejo como o pagamento imediato não possa ser realizado.
    Veja bem, pela placa do veículo, a qualquer velocidade o radar flagra a velocidade,compara-a com a permitida, checa o histórico financeiro e técnico , e você crê que não se pode ter a contrapartida desta modernidade, pagando no ato, sem interferência ?

  10. Por que então não manter a coerência?
    – deixou de pagar a conta da Eletropaulo: a luz é cortada sem aviso prévio
    – deixou de pagar a conta da Comgás: o gás é cortado sem aviso prévio
    – deixou de pagar a conta da Telefônica: o telefone é cortado sem aviso prévio
    – deixou de pagar a conta da Sabesp: a água é cortada sem aviso prévio
    – deixou de pagar o IPTU: só entra em casa quando pagar e sem aviso prévio da penalidade
    – deixou de pagar o licenciamento do carro: o carro é guinchado e o proprietário é colocado na beira da estrada, a noite, sem condução e a centenas de quilômetros de sua residência, sem aviso prévio da penalidade
    Ou seja, a lei “dente por dente, olho por olho”

  11. Daniel Lescano, muito bem colocado, tanto a dificuldade de solução do pagamento quanto a questão dos caminhões.
    É explicável esta posição destas grandes corporações, tanto públicas quanto privadas, pois estão maximizando resultado.
    Gastam em sistemas sofisticados para punir, mas mantêm os sistemas arcaicos, mais baratos e que não exigem investimentos em TI para os pagamentos.
    É pena que esta percepção não esteja ao alcance de todos. E, pelo jeito vai demorar pois a meninada está tirando nota baixa nos exames internacionais de interpretação de leitura.

  12. Rosangela Mascarenhas de Mendonça, veja que além do problema em si ainda temos uma injustiça semântica.
    A palavra Burocracia definiu originalmente uma forma de organização que veio resolver grande necessidade das empresas.
    Max Weber, o criador da estrutura burocrática, que estabeleceu principalmente a unidade de comando, não podia imaginar que burocracia fosse designar o mau funcionamento de seu espetacular invento.
    Em todo o caso, eles merecem a forma composta negativa,

  13. Armando Italo, comentário 9, o ponto central da idéia não é desvirtuar a obrigação. A questão é se somos uma sociedade democrática,ou uma cultura fundamentalista.
    Os fundamentalistas como sabemos usam a tortura pessoal e a auto tortura para remissão de faltas e pecados.
    O Brasil teoricamente não propõe estes extremos.
    Ora, assim sendo, cessada a causa deve cessar o efeito. Divida paga é caso encerrado. Ou não?
    Vamos identificar a falta através dos mais caros,sofisticados sistemas e vamos punir os faltantes com a tortura de proceder a rotinas do tempo das carroças?

  14. Julio Tannus, diante destas situações não dá para esquecer da previsão de John Kenneth Galbraith, o economista de Jonh jKennedy, em sua obra O NOVO ESTADO INDUSTRIAL, quando alertou que as grandes corporações, publicas e privadas teriam o mesmo estilo e objetivos, Isto é , puramente o resultado.
    Estão aí as reclamações de todas elas, com o estrelato das TVs a cabo, das operadoras de celulares, dos cartões de crédito, etc.
    Cada dia uma nova surpresa, hoje na loja da CLARO do Iguatemi fui informado que não há telefone que permita se comunicar entre as lojas CLARO.
    É um prato cheio para quem leciona GESTÃO DO VAREJO. Na próxima aula já tenho assunto novo..

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