Do prazer de ser

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça Do Prazer de Ser na voz e sonorizado pela autora

Olá,

Tem dias que eu gostaria que nem tivessem raiado, porque sou mimada e esperneio, cada vez menos, é verdade, quando alguma coisa não sai como quero que saia. Tem outros que simplesmente não é justo que acabem! E quando acabam, procuro segurar o gostinho deles o quanto posso, fico posicionando a agulha do braço da memória nos momentos mais gostosos do disco do dia, até furar.

E assim vai a vida, aceito um tanto e esperneio, brigando com outro tanto.

Não tive irmãos com quem dividir a atenção dos meus pais. Até os catorze fui filha única, aos dezenove fiquei noiva, e aos vinte casei. Não tive com quem dividir o quarto, o bife, a sobremesa. Era meu, o melhor, e era meu, o pior. Não fui treinada para competir. Faço parte da minoria. A maioria teve irmãos para treinar a vida. Sou autodidata, aprendo de ouvido, atenta, olhando à volta, entendendo a importância do outro. Aproveitei o quanto pude a privacidade com que fui premiada. Hoje, ainda me guardo, me escondo, me protejo, mas não sou mais única. Longe disso. Moro sob o mesmo teto, com dezenas de pessoas que nem conheço, e sou cercada por outras tantas, que infelizmente me põem alerta.

Para mim, um dia delicioso é feito de coisas simples. De coisas que eu gosto e que são simples porque estão à mão, não tem que sair para comprar, não tem que mandar buscar e esperar que cheguem, não dependem de viagem nacional nem internacional, mas dependem do outro, mesmo que esse outro não seja visível, não tenha um nome, um rosto. E reforço a consciência de que mesmo passando um dia inteiro sozinha, dependo, sim, de muita gente. Isso é fácil perceber quando a internet cai, quando o pão acaba na hora do café, quando a luz apaga, quando esfria a água.

E vejo passar na tela da minha vida, dias de festa e de solidão que, como a água da chuva, que é a mesma da emoção, escorrem pelo ralo do tempo, ou empoçam nas crateras do desalento e da desilusão.

Tenho alma de poeta que vive aos saltos, se esvai em lágrimas de alegria, em soluços de desilusão, que um dia se enche de fome e no outro rejeita a água e o pão. Sou feita das peças que a vida engendrou, mas uma coisa digo de boca bem cheia: nunca fugi dela, na dor nem no amor. Me ponho sempre pronta para a próxima onda depois do caldo que me fez ralar os joelhos na areia molhada. Quero tudo e me contento com nada. Às vezes me animo, parto para a luta, e volto para casa, derrotada. Noutras, distraída, o brilho de um olhar faz de mim a sua presa, me rendo ao calor de um sorriso, de uma risada solta que denuncia a entrega, e me entrego, eu, a mais um sonho, o mesmo sonho de cada dia.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung


10 comentários sobre “Do prazer de ser

  1. E o que seria de nós se acertássemos mais e fossemos mais auto-suficientes Malu? Tudo certo ‘imexível’, irretocáveis !
    Você nunca mais escreveria, nunca mais teríamos que ler, que estudar, aprender, nem falar, nem serviríamos a mais ninguém!
    Tem dias de ‘bruxisto’ , e tem dias que uma amiga me pede ajuda com alguma máquina rebelde. Tem dias que quero auxilio e tem dias que o auxilio chega e vai depois de um conversa, e nada mais.
    Ainda bem que não subsistimos. E que para todas as coisas, existem outras que as completam.

  2. Alpha india,

    no ar é tudo mais preciso, não é?
    a gente tem moleza, em terra, e nem se dá conta. no ar, um erro é fatal. aqui a gente repete o mesmo erro uma centena de vezes e ainda reclama do resultado.

    Só rindo!

    beijo e boa semana,
    mike lima sierra

  3. Mike Lima

    Apesar de lá em cima uma tripulação atualmente poder contar com o auxilio de avançadissimos sistemas que podem garantir segurança e precisão perto dos 100%,mesmo assim não existe o “meio termo”.
    Ou é ou não é!
    e se não for…………….
    Não existe o cem por cento
    Se assim fosse, as naves espaciais, columbia, Challenger não teriam explodido em voo.
    Projetadas e construidas pelas maiores mentes do planeta!
    Ainda bem que “aqui em baixo” da-se um jeito!.

    Bjus e uma excelente semana

  4. Olá Maria Lucia,
    Como é bom nosso encontro por aqui . Não é mesmo?
    Pois é, mais uma vez acredito que não vale a pena desistir…ou seja desistir jamais…viver um dia de cada vez, buscando sempre aprender com as coisas simples e ser feliz….ah, como é bom…
    beijo…

  5. Maria Lucia, Vamos em frente !!!
    com fé, esperança, praticando o bem, boas lembranças e saudades sempre vou levar comigo…
    a Simone gosta demais de você,sempre manda um beijo.Ela minha companheira paciente,lembra-se sempre que nesta caminhada quem planta o bem colhe o bem…e não deixa a “peteca ” cair, rs,rs.
    beijo…

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