De favela

 

Por Maria Lucia Solla

Favela no horizonte

Ouça “De Favela” na voz e sonorizado pela autora

Quando a gente não consegue mudar a realidade, muda o termo, torce a língua, tira e põe acento, mexe, remexe, e nada acontece. Favela é um bairro pobre, criado sem permissão nem conhecimento de órgão público que, recheado de servidor público, não percebe quando um morro começa a ser ocupado irregularmente, ilegalmente, por gente que prefere comprar terreno e casebre, de bandido declarado, a comprar de bandido amoitado.

Uma palavra nasce com DNA próprio; tem suas razões para nascer e vingar. Favela nasceu e vingou, correu mundo, e em cada rincão foi cantada em verso e prosa, nos mais diferentes sotaques. Hoje a palavra é considerada politicamente incorreta porque dá nome a um bairro pobre, criado clandestinamente à luz do sol e da lua, por gente e mais gente que descia e subia o morro carregando cimento, tijolo, folha de zinco, panela, pote e pinico, criança, velho, sem que ninguém visse!

Enquanto a instituição pública e seus motorneiros fingiam que não viam, e os futuros favelados fingiam que não eram vistos, tudo corria solto. Enquanto o mundo se encantava com a criatividade do homem sem diploma, sem carteira de trabalho e sem estudo, esse mesmo homem, calejado e malhado pela subida e descida do morro, foi percebendo que a instituição pública lhe voltava as costas à medida que ela, a favela, crescia, formava corpo; criava raiz, a pústula. O negócio ilegal também crescia e se organizava, pelo mesmo homem sem lenço nem documento que enfim conseguia morar, acampado entre bons e ruins, no mesmo canto do mundo onde morava o homem estudado, entre bons e ruins.

Quando o mundo inteiro já estava voltado para aquilo que a instituição local não via, procurou-se esconder o fardo, e o homem público gaguejou e ainda gagueja ao tentar explicar como bairros de proporções municipais tinham sido plantados, regados, cultivados, sem serem notados, dentro de bolsos e debaixo de narizes que se regalavam com o produto da ilegalidade.

mas o bicho homem é poeta por natureza
e cantava a favela em verso e prosa
sua alegria
colorido
o homem de coração sofrido

Tentou então a instituição cobrir o sol com a peneira e ergueu uma barreira de prédios horrendos, levando um punhado de favelados a habitarem seus cubículos empilhados, a fim de esconder a poesia nefasta.

E a gente foi levando: um fingindo que não via, o outro que não era visto, até que os bairros-municípios não pararam de crescer, de tomar espaço de quem podia e queria pagar, e o bicho começou a pegar. O ilegal começou a matar a se armar, e o legal a se armar a matar. Arma mata mata arma, e o mundo todo a olhar. A ilegalidade não se escondia mais, já que o jogo de ver e não ver já não dava mais prazer. Estávamos tão craques no jogo da cegueira coletiva e seletiva, que os legais e ilegais trocavam de lugar, num tira-põe-deixa-ficar, e a gente nem notava.

foi então preciso
como faz ladrão
e bandido
mudar o nome para camuflar a identidade
e favela virou comunidade

favela rima com amor por ela
favela rima com batuque na panela
e eu o que faço
vou lavar minha louça e
no cordão do tênis
do pé esquerdo
dar um laço

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

9 comentários sobre “De favela

  1. Bom dia Mike Lima!

    Favela, favelados, gente pobre, miseráveis, existem na maior parte do mundo, infelizmente
    Todos sabemos.

    Com certeza, favelas, periferias, são interessantes para politicos em geral.
    Pois rendem um marketin fantástico!
    Quanto mais povo pobre, sem cultura por falta de apoio e incentivo dos poderes publicos,melhor.
    Politicos aproveitam-se da falta de cultura, da carencia, das necessidades básicas, do desespero, da esperança de dias melhores deste povo que vive em favelas.
    Repare em épocas eleitoreiras como estes locais ficam repletos de politicos!
    êles vestem -se de forma simples, sobem morros, descem morros, caminham popr vielas estreitas, sem sol, ao lado de corregos de esgoto, de lixo, entram nos barracos de alguns moradores, apreciam um cafezinho em butecos, apertam mãos dos moradores, com “caras de tristesa e desapontamento” com o que veem prometem mundos e fundos assim que forem eleitos.
    Esse é o marketing dos miseráveis que se valem politicos.
    Já ouvi em épocas passadas um candidato a deputado estadual dizendo que quando estava em campanha caminhando em uma favela, teve que apertar as mãos de um favelado de um pobre.
    Outro teve que almoçar salgadinhos.
    Resumindo:
    Favela, favelados, fome, miséria, falta de cultura, de educação, de saúde são ítens importantes e interessantes para uma maioria esmagadora da raça politica brasileira.
    Em épocas de caça votos ficam circulando junto com o povo dentro de favelas, bairros miseraveis, hipercarentes como se fossem siriris, urubus aguardando a morte de um animal agonizante para depois atacarem a sua carne.
    Depois que conseguem finalmente o que querem, num passe de mágica somem pelas vilas e vielas da favela como baratas quando acendemos as luzes.
    Se a maioria esmagadora de politicos fossem sérios, competentes, desapegados, interessados pelo povo e pelos problemas e amarguras do povo, certamente não existiriam favelas.
    Dinheiro é o que não falta na maior cidade das ampericas.
    Basta somente verificarem o quanto pagamos de impoostos por cinco mêses por ano no Brasil.
    O estado e a cidade de são paulo, locais onde a população paga mais impostos e os mais escorchantes do planeta.
    E em troca recebe uma banana podre e promessas somente.
    E assim o povo crédulo, desesperado, miserável, favelado ao extremo acredita em promessas feitas por politicos.
    mas as favelas aumentam e proliferam aos olhos de todos dia a dia.
    Um outro exemplo de favelados, somos, nós que residimos em predios, verdadeiras favelas verticais “de luxo”
    E isso que as prefeituras, governos, politicos querem
    Quanto mais predios (favelas de luxo) mais unidades, mais eleitores, mais arrecadação de impostos.
    Os resultados temos ai.
    Caos nas cidades, no transito, a qualidade de vida indo para um burado sem fundo e não temos a quem recorrer, para gritar SOCORRO.
    Favela é uma mina de dinheiro e de votos e tanto para politicos.
    As favelas de luxo onde moramos, nos predios e as favelas das periferias.
    quer mais?
    Bjus e um exelente domingo cavok sempre!

    Alpha India November.

  2. Ano passado o noticiário deu conta que um casal caminhava pela estrada Transamazônica em direção a uma de nossas capitais. Eram idosos e o lugar onde eles estiveram até menos de vinte dias havia sido tomado à força.
    Não tiveram tempo de juntar documento nem roupa. Era apenas um lote com uma casa.
    Dois dos filhos já estavam mortos e o casal estava a procura de um terceiro, morador de uma favela das de palafitas. Eles ainda teriam que encontrar este filho do qual não tinham notícia…No bolso, algumas moedas.
    Eram só mais dois Malu, mas também a gente, muita gente, fingiu que não viu.
    Pra quem quiser ver, ainda da tempo. Na estrada que leva a alguma capital isto acontece agora mesmo.

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