Ajude-me a construir a nova sede da Cáritas Santa Suzana

 

 

Conheci o trabalho da Cáritas Santa Suzana pelas mãos do Padre Manoel, que reza as missas na Capela da Imaculada Conceição, local que frequento aos fins de semana como já devo ter contato em outras oportunidades neste blog. A ação pedagógica e de formação que os voluntários desenvolvem há mais de dez anos é contagiante. São cerca de 350 crianças de famílias carentes que passam pela instituição e recebem apoio socioassistencial, no bairro Monte Kemel, zona oeste de São Paulo. Muitos desses jovens já foram para a universidade ou encontraram oportunidade no mercado de trabalho, graças ao apoio de empresas que investem neste projeto. Outros tantos, levaram o conhecimento, adquirido nas muitas atividades realizadas, para dentro de suas casas e compartilharam com parentes, amigos e colegas. A obra que se realiza neste espaço é transformadora pois atende jovens e suas famílias que moram em algumas das maiores favelas das zonas sul e oeste da capital paulista, tais como Paraisópolis, Real Parque e Vila Praia.

 

Durante todo esse tempo, a Cáritas recebeu as crianças e adolescentes em conteiners adaptados para serem salas de aula. Agora, chegou a hora de mudar este cenário. Aproveitando o terreno próprio, um grupo de voluntários iniciou trabalho de captação de recursos para erguer uma nova sede, muito mais moderna, confortável e digna, que ampliará ainda mais o alcance deste projeto. As novas instalações terão um edifício principal, com 1.700 m2 de área construída, ladeado por um pátio externo de 1.000 m2, estacionamento multiuso, com 3.100 m2 área construída – que também será fonte de renda para a Cáritas -, e espaços para hortas e jardins.

 

Eu estive no local onde o prédio está sendo erguido e aproveitei para fazer uma transmissão, através do Periscope, oportunidade em que conversei com várias pessoas que assistiram ao vídeo, ao vivo, e enviaram perguntas pelo aplicativo. Um resumo deste vídeo está publicado aqui no blog e você poderá ver que a obra está avançando, principalmente devido a ajuda de um fundo do governo da Itália destinado a projetos de caridade em países do terceiro mundo. Apesar da colaboração, ainda são necessários cerca de R$1milhão para sua conclusão, e você está convidado a nos ajudar com qualquer quantia que estiver ao seu alcance.

 

As doações devem ser feitas em dinheiro na conta bancária da Cáritas Santa Suzana:

 

BANCO BRADESCO
AG 2403-1
CC 28573-0

 

CÁRITAS SANTA SUZANA
CNPJ 64.033.061/0016-14

Elefante Branco: amor, violência, drogas e religião em uma favela logo ali

 

Por Biba Mello

 


FILME DA SEMANA

“Elefante Branco”
Um filme de Pablo Trapero
Gênero: Drama
País:Argentina, França, Espanha

 

 

Elefante Branco, pois a história se passa em uma favela no entorno de um hospital imenso que nunca ficou pronto. Dois padres se desdobram para melhorar a qualidade de vida dos mais pobres que ali habitam. Amor, violência e drogas permeiam a narrativa.

 

Por que ver: É um filmaço! Meu querido Ricardo Darìm está no elenco ajudando a excelente história. Minha sogra detesta filmes violentos, mas este em especial a prendeu do início ao fim.É um filme violento e crível: “favela movie” ao estilo “tropa de Elite”.

 

Como ver: eu vi com a minha sogra… Ela adorou uma pegação que rola no meio do filme…Quente sem ser apelativa…Meu marido não estava, perdeu um filme que tenho certeza que adoraria.Vimos tomando um vinho tinto…Encorpado como o filme…Denso…

 

Quando não ver: com aquele amigo/a socialista radical, vai ficar dando lição e tentanto te converter…Com seu filho menor de idade…Meio barra pesada… Se bem que as vezes é bom esta galerinha ter contato com a realidade dos menos afortunados…Fica a seu critério.

 


Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos. Toda semana oferece boas dicas de filmes para o Blog do Mílton Jung

Carros abandonados e casas irregulares na av. Hebe Camargo

 

Desmanche de carro

 

Fui conhecer a avenida Hebe Camargo, inaugurada às pressas no fim do governo passado, entre o Panamby e a Paraisópolis, na zona Sul de São Paulo. Foi aquela via que, ao ser entregue, parcialmente, descobriu-se que haviam esquecido de tirar as árvores e postes do meio do caminho. É uma aposta antiga da cidade para que se ofereça alternativa no trânsito aos motoristas que saem dos bairros mais ao Sul e tentam chegar na zona Oeste ou central. Hoje, costumam usar a Marginal Pinheiros e a Giovanni Gronchi, as duas entupidas, especialmente no horário de pico. A primeira surpresa que tive ao entrar na avenida foi perceber que ela não serve para quase nada, pois termina logo após o CEU Paraisópolis, e, não por acaso, tem pouco trânsito. Talvez tenha utilidade quando concluída, mas não há prazo confirmado. O que mais me surpreendeu foi a quantidade de carcaça de veículos abandonas ao longo da via. Fato que chamou atenção de outros motoristas, a ponto de ter recebido a imagem que ilustra este post, feita recentemente.

 

Hoje, fico sabendo que não são apenas estes carros desmanchados que estão ornando o cenário da Hebe Camargo. Moradores da região perceberam que foram levantados casebres feitos de tapumes, inclusive com instalação elétrica, e há sinais de que novas habitações, do mesmo tipo, estão a caminho. É desta forma que, historicamente, as favelas se formam na capital paulista e as pessoas são incentivadas a morar em áreas de alto risco, com a possibilidade de serem vítimas de tragédias. O Subprefeito do Campo Limpo Sérgio Roberto dos Santos teria sido alertado para a ocupação ilegal, por e-mail, que ainda não foi respondido.

Foto-ouvinte: arquitetura moderna

 

Favela-prédio

 

A arquitetura do prédio popular chamou atenção de um dos ouvintes-internautas do Jornal da CBN quando andava pelas ruas de São Paulo. Infelizmente, por um erro qualquer deste que publica a foto, não tenho o nome do autor nem do local onde a imagem foi feita. Apesar disso, não me contive e divulgo a fotogografia dada a curiosa engenharia usada que sustenta andar sobre andar. Se você souber onde é este local ou se o autor da foto passar por aqui, por favor, deixe a informação nos comentários abaixo.

É nas escolas que a casa está caindo

 

Coluna publicada na revista Épocas São Paulo, edição de março, que está nas bancas:

 

Demolição da favela Jardim Edite

 

Um amontoado de casebres, construído de forma irregular com puxadinhos para os lados e para o alto, sempre me chamava atenção quando passava pela Avenida Roberto Marinho, no Brooklin. Até 2009, ali existia a favela do Jardim Edith, vizinha às obras estaiada – novidade que, mesmo suntuosa, não atraía meu olhar como as cons- truções populares. Eu ficava impressionado com a arquitetura local, feita de improvisação e audácia, adaptada à fal- ta de espaço para se expandir pelo terreno (já cercado de prédios e interesses imobiliários). Algumas casas ganhavam um ou dois andares com uma rapidez incrível. Quando menos esperava, mais um cômodo havia sido concluído. Como se mantinham em pé aquelas habitações mambembes? Tanto me intrigava que procurei engenheiros da prefeitura e, com surpresa, descobri que haviam sido realizados ensaios que com- provavam a segurança das obras. Problema, mesmo, era a ausência de área de escape. Em caso de incêndio ou desmoronamento, não havia para onde correr.

 

Lembrei-me dos “prédios” do Jardim Edith ao acompanhar, em fevereiro, a sequência de que- das de edifícios no Rio de Janeiro e em São Bernardo do Campo, ambos construções antigas e consolidadas, nas quais morreram 20 pessoas (18 no Rio e duas no ABC). Especialistas especularam sobre o que teria causado as tragédias. Nos jornais, reformas malfeitas são apontadas como as principais suspeitas, o que só poderá ser comprovado após a conclusão da perícia téc- nica. Seja como for, a probabilidade de barracos despencarem sempre foi muito maior do que a de qualquer prédio construído com alvará. Mesmo assim, nunca tive notícia de que uma das 400 famílias que viviam no Jardim Edith tenha perdido um parente devido a um desmoronamento.

 

A política de conveniência que pauta a administração de Gilberto Kassab (PSD) o levou a defender, agora, uma lei que obriga a vistoria, a cada cinco anos, em edifícios com mais de 500 metros quadrados. Em 2009, ele mesmo vetara projeto do vereador Do- mingos Dissei (PSD), alegando que interferiria no trabalho do Departamento de Controle e Uso de Imóveis (Contru). Após as quedas de fevereiro, Kassab pede para que os vereadores derrubem seu veto e mandem a conta de mais uma burocracia para os cidadãos – sem qualquer garantia de que isso impedirá, em São Paulo, acidentes como os do Rio e São Bernardo.

 

“Kassab tem de se preocupar com a estrutura das escolas, e não dos prédios”, ouvi de Seu Venceslau, companheiro de pastel no sacolão perto de casa. “É lá que a casa está caindo”, disse, sem notar o tro- cadilho. Tens razão, amigo Venceslau! De cada 10 alunos da rede pública paulistana, apenas três sabem razoavelmente mate- mática, diz relatório do Movimento Todos Pela Educação. Talvez por não saber fazer contas, mais de 60% dos estudantes que entram em engenharia na USP desistem do curso. Resultado: no Brasil, apenas 10% dos formandos são engenheiros, enquanto esse índice chega a 40% em países mais avançados. Como faltam engenheiros, contratamos mestres de obra para reformar nossas casas; e, no lugar do mestre de obras, pedreiros – que sabem mais por hábito do que pela técnica. Na falta de conhecimento, partimos para o improviso, o jeitinho brasilei- ro, que funcionou enquanto éramos só Terceiro Mundo. À medida que o Brasil cresce, como os puxadinhos, tem se tornado um desastre.

 

A imagem deste post é do meu álbum digital no Flickr e foi feita pela estudante de jornalista Beatriz Salgado, durante a destruição da favela do Jardim Edith

De favela

 

Por Maria Lucia Solla

Favela no horizonte

Ouça “De Favela” na voz e sonorizado pela autora

Quando a gente não consegue mudar a realidade, muda o termo, torce a língua, tira e põe acento, mexe, remexe, e nada acontece. Favela é um bairro pobre, criado sem permissão nem conhecimento de órgão público que, recheado de servidor público, não percebe quando um morro começa a ser ocupado irregularmente, ilegalmente, por gente que prefere comprar terreno e casebre, de bandido declarado, a comprar de bandido amoitado.

Uma palavra nasce com DNA próprio; tem suas razões para nascer e vingar. Favela nasceu e vingou, correu mundo, e em cada rincão foi cantada em verso e prosa, nos mais diferentes sotaques. Hoje a palavra é considerada politicamente incorreta porque dá nome a um bairro pobre, criado clandestinamente à luz do sol e da lua, por gente e mais gente que descia e subia o morro carregando cimento, tijolo, folha de zinco, panela, pote e pinico, criança, velho, sem que ninguém visse!

Enquanto a instituição pública e seus motorneiros fingiam que não viam, e os futuros favelados fingiam que não eram vistos, tudo corria solto. Enquanto o mundo se encantava com a criatividade do homem sem diploma, sem carteira de trabalho e sem estudo, esse mesmo homem, calejado e malhado pela subida e descida do morro, foi percebendo que a instituição pública lhe voltava as costas à medida que ela, a favela, crescia, formava corpo; criava raiz, a pústula. O negócio ilegal também crescia e se organizava, pelo mesmo homem sem lenço nem documento que enfim conseguia morar, acampado entre bons e ruins, no mesmo canto do mundo onde morava o homem estudado, entre bons e ruins.

Quando o mundo inteiro já estava voltado para aquilo que a instituição local não via, procurou-se esconder o fardo, e o homem público gaguejou e ainda gagueja ao tentar explicar como bairros de proporções municipais tinham sido plantados, regados, cultivados, sem serem notados, dentro de bolsos e debaixo de narizes que se regalavam com o produto da ilegalidade.

mas o bicho homem é poeta por natureza
e cantava a favela em verso e prosa
sua alegria
colorido
o homem de coração sofrido

Tentou então a instituição cobrir o sol com a peneira e ergueu uma barreira de prédios horrendos, levando um punhado de favelados a habitarem seus cubículos empilhados, a fim de esconder a poesia nefasta.

E a gente foi levando: um fingindo que não via, o outro que não era visto, até que os bairros-municípios não pararam de crescer, de tomar espaço de quem podia e queria pagar, e o bicho começou a pegar. O ilegal começou a matar a se armar, e o legal a se armar a matar. Arma mata mata arma, e o mundo todo a olhar. A ilegalidade não se escondia mais, já que o jogo de ver e não ver já não dava mais prazer. Estávamos tão craques no jogo da cegueira coletiva e seletiva, que os legais e ilegais trocavam de lugar, num tira-põe-deixa-ficar, e a gente nem notava.

foi então preciso
como faz ladrão
e bandido
mudar o nome para camuflar a identidade
e favela virou comunidade

favela rima com amor por ela
favela rima com batuque na panela
e eu o que faço
vou lavar minha louça e
no cordão do tênis
do pé esquerdo
dar um laço

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung

Um dia na Favela do Moinho

 

A Favela do Moinho é como todas as outras que estão no imaginário paulistano. Tem cerca de 900 famílias, 4.500 moradores, sem rede de água e esgoto, e a energia elétrica é garantida pelos “gatos” que dão luz e perigo de vida. Apenas não se pode dizer que ali se tem uma vida típica do paulistano despejado na periferia porque a favela está esmagada entre as linhas de trem da CPTM, no centro da cidade, a três quilômetros da Praça da Sé.

No Dia das Crianças, um grupo de grafiteiros e fotógrafos foi até lá, pintou paredes, interagiu com as crianças, distribui brinquedos e doces, e saiu convencido de que a cidadania é um direito ainda a ser conquistado por comunidades paulistanas.

O Massao Uehara, que integra o Adote um Vereador, levou sua versão fotógrafo para o evento batizado de “A vida é um moinho” e compartilha com os leitores do blog sua experiência.

Canto da Cátia: A vida na Real

 

Incêndio na favela Real Parque

O que sobrou foi para a viela. Do que sobrou, algo foi roubado.

No incêndio que destruiu 300 barracos na favela Real Parque, em zona rica de São Paulo, a repórter Cátia Toffoletto flagrou não apenas imagens mas histórias do cotidiano deste povo. Logo que chegou ao local, após trânsito e encrencas, entrou ao vivo. E ao vivo entrevistou uma moradora ainda impressionada com o ocorrido.

Incêndio na favela Real Parque

A senhora (tinha voz de senhora) disse que o fogo começou “nove e pouquinho” e ela só ouviu a gritaria dos vizinhos, acordou, e passou a mão na bolsa e em um dos filhos. Correu pra fora enquanto alguns poucos pertences foram retirados do barraco. “O microondas foi roubado”, disse para Cátia. Ao fundo, uma voz de menina se espantava: “Foi roubado ?”

Incêndio na favela Real ParqueEm meio ao desespero de quem tentava impedir mal maior, houve quem visse ali a oportunidade de levar daqueles que tem muito pouco. E este pouco ficou no caminho a espera de um lugar para ser abrigado.

Foi a Cátia quem lembrou também o esforço dos bombeiros para impedir que as chamas chegassem na mata que resistiu a ocupação do local e no Singapura, construído há anos pela prefeitura para maquiar um problema que nunca foi contido. Faltam mais de 600 mil habitações para os paulistanos ao mesmo tempo que milhares vivem nas condições precárias dos moradores da Real Parque.

Candidatos estiveram na favela este ano garantindo melhorias. Mas toda eleição é a mesma coisa. Vão até lá, prometem “fazer e acontecer” e voltam para casa. A única coisa que deixam para trás é a propaganda irregular pendurada no poste.


Ouça aqui a reportagem da Cátia Tofolletto

Leilão de famosos ajuda alfabetização em Paraisópolis

 

Doações

Emerson Fittipaldi, Giselle Bündchen e Bono Vox são três das personalidades que aceitaram o convite para ajudar o programa de alfabetização de jovens e adultos realizado na favela de Paraisópolis, onde 80 mil famílias vivem, ao lado do rico bairro do Morumbi, na zona Sul de São Paulo. Assim como eles, uma centena de pessoas doaram objetos pessoais para o leilão que se realiza nesta noite, no Budha Bar, da Daslu, que arrecadará dinheiro para a Escola do Povo.

“Este ano, ainda não conseguimos abrir uma turma por falta de dinheiro”, disse Gilson Rodrigues, presidente da Associação de Moradores de Paraisópolis, na conversa que tivemos, nesse sábado. Ele explicou que há cerca de 15 mil analfabetos morando na região e o leilão “é o grande momento desta comunidade, pois com o dinheiro queremos garantir as turmas de 2011”.

Ouça a entrevista de Gilson Rodrigues para o CBN SP

Na lista do site Dutra Leilões, além dos objetos que aparecem nas fotos, é possível encontrar doações de Mick Jagger, uma guitarra autografada por ele; Anna Hickmann e Fausto Silva, que participam com relógios de suas coleções; e do presidente Lula, o terno azul-marinho que usou na primeira posse.

Os lances podem ser feitos on-line através do site ou participando do jantar beneficiente com convites para casal a R$ 250,00. Mais informações na página da Escola do Povo, na internet.

Da maloca querida à favela temida

 

Por Carlos Magno Gibrail

Foto da Galeria de George Campos no Flickr

Saúde, educação e habitação, trinômio básico para o bem estar de qualquer população. A acrescentar apenas mais três necessidades urbanas contemporâneas: segurança, transporte e previdência social. Temas adequados ao momento nacional, véspera de eleições estaduais e federais.

As variações climáticas extremas ocorridas recentemente, tal qual no passado, quando antecederam e aceleraram rupturas, como a Revolução Francesa, ressaltaram o problema habitacional brasileiro com o alastramento das favelas, extensa e intensamente.

Em 1897, Prudente de Moraes decidiu exterminar Canudos e seu líder Antonio Conselheiro arrasando a “Cidadela” para mostrar ao mundo que o Brasil tinha reconquistado o território do “incompreensível e bárbaro inimigo” como descreveu Euclides da Cunha. A desinformação governamental existente ficou evidenciada na duração da batalha de junho a outubro daquele ano, travada contra a população instalada em morros, entre eles o Morro da Favela, batizado com o nome da planta que o cobria, favela.

De volta ao Rio, sem o soldo prometido, os combatentes se instalaram no Morro da Providência e levaram a alcunha de favela trazida de Canudos. Com a Lei Áurea de 1888, e as reformas urbanas de Pereira Passos em 1902, o Rio iniciou a era das favelas. Ex-combatentes, ex-escravos e ex-moradores do centro da cidade passaram a ser favelados.

De lá até cá, somos a 8ª economia do mundo, mas dos 200 milhões de brasileiros 50 milhões vivem em favelas. Do Rio a São Paulo, que viu no processo de industrialização e urbanização a partir de 1950 o início do problema das favelas, a questão é efetivamente considerada como algo negativo a ser resolvido, embora visto de diferentes ângulos. De origem e de tratamento.

Os que consideram os favelados migrantes se integrando ao meio urbano e criando lugar que possa lembrar o campo, sugerem que é preciso treiná-los e reurbanizar o espaço, fazendo com que gradativamente passem a se incorporar ao mercado de trabalho e à cidade.

Outros visualizam as favelas como local onde se obtém votos, e neste aspecto visitam-nas constantemente, fazendo promessas e interferindo na vida da comunidade, agindo com acentuada demagogia, colocando o interesse eleitoreiro em primeiro lugar.

Há quem veja as favelas apenas como território de marginais e defende a total destruição, tipo Canudos.

Alguns mais criativos e românticos se inspiraram e compuseram sucessos musicais. Dorival Caymmi: “Eu não tenho onde morar. É por isso que eu moro na areia. Eu nasci pequenininho como todo mundo nasceu. Todo mundo mora direito. Quem mora torto sou eu.” (ouça aqui)

Jota júnior e Oldemar Magalhães: “Favela amarela. Ironia da vida. Pintem a favela. Façam aquarela. Da miséria colorida.”

Adoniran Barbosa: “ …O dono mando derrubá.Peguemo tudo a nossas coisa.E fumo pro meio da rua…” (ouça aqui)

Os mais técnicos como o economista Sérgio Besserman, em recente entrevista a Veja, tendo em vista a tragédia carioca, sugere que em casos de risco de terrenos contaminados ou íngremes, inevitavelmente a remoção é a saída correta. Em casos como as grandes favelas, tipo a da Rocinha no Rio, onde há uma enorme população é prudente reurbanizar. Quando não há este empecilho defende categoricamente a remoção: “Em contradição com a opinião dominante, acho que há muitos casos em que a remoção se justifica. Encarando uma questão de fundo econômico que é central: as áreas favelizadas provocam uma acentuada degradação da paisagem da cidade, um ativo cujo valor é incalculável. Portanto quando uma análise de custo-benefício revelar que a realocação de uma favela trará retorno financeiro e social elevados, por que não cogitar sua remoção?”

Besserman ressalta, todavia a fundamental questão da autoridade do Estado e do ordenamento jurídico no âmbito das favelas: “É preciso fazer primeiro o básico do básico: o Estado deve recuperar o monopólio da força nos territórios hoje dominados pelos bandidos. As favelas são lugares em que milhões de pessoas vivem sob outras leis que não a do estado de direito democrático. Na prática elas não estão sob a órbita da Constituição Brasileira.”
Considerando que o Brasil estará sendo observado dentro em breve em função da Copa e das Olimpíadas, e ainda este ano em eleições, é imprescindível absorver a lição de Canudos. É preciso discernir no uso das armas adequadas. Os canhões para os bandidos, a técnica para a estratégia e honestidade acima de tudo para o país e para a nação.

Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas no Blog do Mílton Jung