Conte Sua História de SP: O manequim do Mappin

 

Alex Periscinoto nasceu em 1925 na cidade de São Paulo e, após passar por vários empregos e funções, se tornou publicitário. Um dos lugares onde trabalhou foi a antiga loja de departamentos – famosa na capital paulista – Mappin. Foi nessa fase de sua carreira que ele viveu a história que contou ao Museu da Pessoa, em 1994, e se transformou em mais um capítulo do Conte Sua História de São Paulo, na CBN:


Ouça esta história que foi ao ar no CBN SP, sonirada pelo Cláudio Antônio

Eu já era casado e tinha um cunhado – tinha muitos cunhados, se você precisar de cunhados fala comigo. E cunhado, você sabe: acho que Deus inventou cunhado para jogar buraco, porque todos os cunhados se reúnem para jogar buraco. Ele era um deles. Era muito linguarudo e via publicidade na televisão, via a Sandra Bréa e cutucava a minha esposa. Ele achava que, como eu trabalhava em publicidade, tinha chance de sair com a Sandra Bréa. Vê se a Sandra Bréa ou qualquer atriz ia dar confiança. Não tinha relação nenhuma, mas ele era diabólico. 



Eis que um dia eu estou no Mappin trabalhando e estava chovendo. Chuva miúda e inclinada. Eu tinha um Coupê Mercuri 48. Todo mundo, na época, tinha carro usado, não podia comprar carro novo. Meu carro era velho. O vidro oposto ao motorista virava a manivela, mas não subia, estava quebrado. E eu não tinha dinheiro para consertar, ficava assim mesmo. Nesse dia, eu saio do Mappin e a Sônia, uma funcionária, irmã de um diretor do Mappin: 



– Alex, você vai lá para a Vila Clementino?


– Vou.


- Você me leva?


- Claro, vamos, está chovendo…



Então, eu subo a rua Augusta e paro no sinal. Chovendo. Eu ouço:



- Fiu, fiu!



Quando eu olho, a Sônia falou:



- É com você!



Era meu cunhado, que sempre inventou histórias. Eu transpirei: “mas, meu Deus do céu, todos menos esse”. Eu olhava e ele fazia um gesto, com a Gazeta Esportiva feito telhado na cabeça, como quem diz: “Abre aí que eu pulo, abre a porta”. E a Sônia:



- Abre, porque senão ele vai fazer todos os gestos possíveis – ela meio tonta, já limpando a chuva onde ele ia sentar.



Falei:



- Não, não, esse não!



Abriu o sinal e eu fui embora, deixei ele lá. Você imagina a situação que eu criei. Deixei a Sônia e ela falou:



- Alex, mas você está preocupadíssimo, vou lá falar com a tua mulher, eu conheço tua mulher, você estava me levando pra casa!


- É, Sônia, isso aí é uma outra história.



Eu deixei a Sônia, peguei o carro e voltei para o Mappin. Cheguei lá e falei para o Zé Paródia – ele era o meu subordinado na área de vitrine: 



– Zé, coloca um desses manequins de gesso, vestido, no assento da frente do meu carro.


Sabe esses manequins que ficam na vitrine com dedos tortos, de gesso, peruca de naylon? Ele pôs um bicho de gesso e eu fui segurando para casa. Caía aquilo, e eu segurando até chegar em casa. Mais tarde, eu falei pra minha mulher: 



– Olha, eu demorei porque eu tenho que comprar um manequim lá para o Mappin, umas duas dúzias de manequim e tem um mostruário aí. Ela, pela janela da cozinha, olhou e falou: 



– Bonitinho, né? Eu acho bom você tirar isso daí senão vão dizer que você ‘tá’ andando com mulher no automóvel…

Eu falei:
– Boa ideia. 



Ela me ajudou a desatarraxar e botamos tudo atrás do carro. Jantamos, e eu falei:



- Vamos jogar buraco lá na casa do Sabião?


- Vamos. 



Nem deu outra, ela entrou na minha frente, estava um passo na minha frente, quando eu vi…



– O Alex…

Louco, ele contou tudo, com todos os detalhes, entregou mesmo. Ele acabou de falar, a minha mulher nem sequer olhou para ele. Olhou para a irmã, que nós somos casados com duas irmãs, e falou assim:



- Você fala pro seu marido tomar cuidado, porque ele é muito linguarudo. Era um manequim, eu ajudei a tirar do carro… Ele fica inventando essas histórias do Alex… Agora eu tive provas que ele inventa.

Ele olhava para mim e dizia assim:



- Como é o negócio?



Nós jogamos buraco naquela noite, ele dava a carta para mim assim: “O manequim”.

Passados dois anos, eu estava pescando no barco dele, no clube Samambaia, no Guarujá. Eram dez horas da noite, estava sentado no barco, pescando sossegado, ele meteu o pé nas minhas costas e me jogou na água. E eu só ouvi: 

- Manequim, é?



Ficou atravessado dois anos aquele negócio. Foi engraçado. Quando eu levei a história para os meus colegas do Mappin, que conheciam a Sônia, o caso ficou famoso.


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, no CBN SP. Você pode contar a sua história, também. Ou procura o Museu da Pessoa e grava em áudio e vídeo, ou manda por escrito para mim no milton@cbn.com.br.

Um comentário sobre “Conte Sua História de SP: O manequim do Mappin

  1. Milton, o Alex Periscinoto deve ter muitas histórias interessantes como esta. Principalmente na área de varejo e marketing.
    Alex é um dos ícones da Propaganda brasileira.
    Sugiro que volte com outros episódios.
    Estive com Alex há anos almoçando no Restaurante Massimo com Jayme e Henrique Pasmanik. Reunião inesquecível.
    Abraço.

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