De São Paulo um dia depois da festa

 

Por Maria Lucia Solla

 


Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

 

 

São Paulo chora, e não é manha. Síndrome do dia seguinte? A cidade amanheceu chorando. Não um choro explosivo, intenso, mas aquele choro intermitente de quem para pelo cansaço, se lembra das agruras e dá-lhe chorar de novo.

 

São Paulo é uma senhora respeitável, de 458 anos, com artérias comprometidas e algumas irremediavelmente entupidas. A quantas plásticas já foi submetida, perdeu a conta, Quando nas cidades do exterior a moda muda, corremos para dar o que consideramos um upgrade na nossa, em vez de respeitarmos sua personalidade.

 

Nossa cidade vem rapidamente perdendo suas curvas ao enfrentar escavadeira, britadeira e toda a parafernália moderna usada para modificar sua beleza natural e real em favor da beleza prometida e comprometida. Insatisfeitos e cegos, copiamos daqui, colamos de lá e criamos uma balbúrdia tão grande que nem nós conseguimos aguentar.

 

Essa respeitável senhora teve seus veios de água, por onde deveria correr livre e solta a sua emoção, condenados a prisão perpétua e enjaulados em canos de concreto.

 

Nos breves intervalos do seu choro arrastado e gemente, imagino que ela deva dar graças por nenhum dos velhos amigos estar por perto. Ela não aguentaria a dor, pois tem certeza de que nenhum deles a reconheceria.

 

Observando seu choro, me transposto a uma conversa lá em Camanducaia, no alto do morro, quando meu filho me explicava, paciente, como ele e sua família, três filhos pequenos, viviam cercados pela Natureza quase intocada, sem medo.

 

Tranquilizando meu coração que há muito está distante da terra, ele dizia, mãe, precisa negociar com a Natureza, é isso que fazemos aqui. Não é só escolher o pedaço de terra onde se quer viver, cortando aqui, alinhando lá, precisa respeitar limite. Antes de a gente chegar aqui, tudo obedecia a um ritmo que a gente veio modificar. Demos um chega pra lá nos bichos, modificamos o desenho do chão, plantamos concreto onde havia flor. Se não tiver o mínimo bom-senso, se não agir com a consciência acordada, com respeito, a relação fica impraticável. Não te preocupa, mãe, que as crianças fazem parte desse equilíbrio.

 

Ele tinha razão; fora a queda de um andaime deixado pelos pedreiros, que resultou num bracinho quebrado e depois remendado no hospital, e um ataque de abelhas, a Natureza acabou cuidando para que nada sério acontecesse aos pequenos, lá em cima da montanha.

 

Por isso, chora, São Paulo, chora até que as lágrimas acalmem o teu coração.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

12 comentários sobre “De São Paulo um dia depois da festa

  1. É isso aí prima, temos que respeitar a natureza, afinal incomodamos tanto que ela tem que ter seus momentos de fúria.
    Adoro minha cidade, com todo seu movimento e loucura, e vamos deixá-la chorar, pois não é a toa que é considerada a “terra da garoa”, né?!?!!?
    Beijocas e uma ótima semana
    Maga

  2. Minha carissima Mike Lima
    Nos agraciando com mais belo texto como sempre!

    Apesar de ser paulistano nato para te ser sincero, não tenho a menor afinidade com a cidade que nasci
    Talvez por ter trabalhado durante anos na aviação, pro ter conhecido e vivido outras cidades e estados onde o mais importante é a qualidade de vida, a natureza, o bem estar dos seus cidadãos.
    Fatos estes praticamente nos dias de hoje inexistentes para o paulistano, cidadão que vive e mora em São Paulo.
    Apesar da cidade oferecer uma excelente cozinha, museus, teatros, cinemas, shopping centers, grandes eventos dos mais variados, centros de compras, grandes, eficientíssimos hospitais luxuosos.
    Tudo isso acima somente para quem tem dinheiro para desfrutar, politicos, amigos do Rei ou da Rainha e para turistas que vem a cidade para tratar de negocios, permanecem na cidade somente por alguns dias, desfrutam o que podem e voltam para suas terras.
    Na minha modesta opinião São Paulo foi boa para viver até meados da década de oitenta, quando não existiam a infinidades de predios, transito caótico, a segurança pulbica e as nossas leis eram realmente eficientes, apesar do grande esforço das nossas plicias civis e militar que prendem a marginalidade e a justiça os soltam.
    Porém vale lembrar que este é um contexto nacional não somente paulistano.
    Mas aqui diante do numero assustador de habitantes parece-me que a situação é pior.
    Infelizmente a cada gestão a cidade vai se deteriorando, sendso devastada por politicos e construtoras, por causa da especulação imobiliária e da gananancia.
    O paulistano hoje valoriza somente o dinheiro, o “TER” a posição social, o consumismo desenfreado, o status, quem está em cima não gosta de olhar para baixo e quando olha é com ares discriminatorios, de pouco caso, porque aquele de baixo não tem um carrão de luxo, um celular da moda, não mora nos jardins, no alto de pineiros, no Morumbi.
    Até a vila sonia, Ferreira, Monte Kemel acabou “virando Morumbi” para muitos moradores dos novos predios construidos nestes antigos e bairros, antes considerados periféricos.
    Seria Vergonha dos novos new richs e emergentes em dizer que moram nestes bairros?
    Por estas e por outras prefiro ficar “escondido no meio do mato” a quase quarenta quilometros de distancia ou na praia onde me indentifico do que viver em são Paulo da atualidade, no meio deste caos que se tornou a cidade que nasci, da insegurança, do descaso politico e eleitoreiro, etc etc etc.
    Pouco permaneço em São Paulo.
    E quando tenho que ir, somente para tratar de assuntos de extrema importancia, urgência ou para tratar da minha saude.
    O Paulistano consciente, pouco tem a comemorar nos 458 anos de vida da senhora judiada, São Paulo.
    Tanto é que quase setenta por cento da população gostaria de sair de são Paulo na buscca de um outro local onde possa viver com um mínimo de dignidade.
    Uma boa semana!

  3. Maryur,

    sim, é verdade, mas uma vez que elas, as cidades, não têm como escolher o seu destino, cabe a nós, mesmo que seja na prosa e na poesia, sermos seus porta-vozes.

    Agora, é verdade, sim, que maior concentração, maior confusão, mas aqui nas nossas plagas exercitamos ainda um pensar deturpado que entende necessário destruir o velho para dar lugar ao moderno. Temos história em destruição da história.

    Aproveita o que POA ainda tem de bom, aliás, que você consegue garimpar muito bem, obrigada.

    beijo, obrigada por ter passado por aqui e boa semana,
    ml

  4. Farina, meu amigo,

    já estava com saudade da tua intervenção.

    Ontem fiz uma caminhada deliciosa no Parque Burle Marx e fiquei com a alma alimentada ao menos por uma semana.

    Claro que fiz um slideshow (maniac…) e postei no meu blog. Dá uma olhada se tiver tempo. Enriqueci o trabalho com um verso de Cecília Meireles.

    Me diz se gostou.

    beijo e boa semana,
    ml
    PS: com as más línguas dizem que o mundo vai acabar, em vez de vestir uma camisa listrada e sair por aí, que tal pedir para a Vivi marcar um café gostoso pra gente se ver?

  5. Mama,

    De lá te falei essas e tantas coisas… tantos pedidos de bênção em meio aos desfiados e rococós, descrições um tanto filosóficas que a mente me ajudava a tagarelar naquela época.

    Mais uma vez, a viagem chama… ainda mais pra dentro da Natureza, pela porta que se abre quando o ser humano compreende essa relação e traz ela pra dentro de si… move o front pro peito, ao invés da roça, mas cercado dela, Natureza por todos os lados.

    E com a Natureza dos lados de fora e de dentro, buscar se ainda há o espírito depois da correria da vida ter consumido parte do tempo… enorme parte do tempo.

    Porque viemos mesmo pra esse mundo?

    E São Paulo, que de boba não tem nada… percebe e chora. Ela bem sabe por que foi que viemos… Tava lá no começo de tudo e viu o rumo… e nos conta com seu choro o que pensa de tudo isso!

    Te amo mama, mana, mina… gente… pessoa Malu!

    Valeu pela luz…

    Paulinho

  6. Viemos exatamente pra isso, meu filho
    pra ver rolar a festa
    às vezes fazer parte dela
    e outras ficar olhando pela fresta

    Importante é ter pra si que tudo faz parte
    o salto e a escorregadela

    mas só pra você não esquecer
    estamos nesta para o que der e vier
    juntos.

    amo você,
    mm

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