DASLU: o lado oculto na morte de Eliana Tranchesi

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

O sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, designa o tempo atual como Modernidade Líquida, constatando que “A mudança é a nossa única permanência. E a incerteza é a nossa única certeza”. O falecimento de Eliana Tranchesi confirma de certo modo a assertiva de Bauman. Houve mudança até no trato do pós-morte de Tranchesi ao se distanciar da tradição de se falar apenas o lado bom, mesmo que este tenha sido excepcional. Da dedicação plena à DASLU e à família, que se confundiu ao longo de sua existência, Eliana deixou um acervo invejável ao setor de Moda na área de divulgação. Ao mesmo tempo em que foi pioneira no estabelecimento do foco no “estilo de vida”. Aqui talvez a origem maior do sucesso e ao mesmo tempo da repugnância ao luxo exalado pelo seu negócio, por parte de uma grande maioria. A imprensa e também o público em geral. Afinal de contas seu segmento de mercado sempre foi o do luxo e, num país com grandes desníveis de renda e de cultura, a percepção da emoção e da provocação pode estar num mesmo quarteirão.

 

Ao definir prioritariamente o seu negócio pelo “life style” elegendo a classe mais sofisticada como o seu mercado, foi ao encontro das marcas mais expressivas do mundo. E conseguiu respeito e admiração profissionais, trazendo ao Brasil todo o espectro da Moda de luxo, introduzindo a alta qualidade, que serviu de inspiração às mais expressivas marcas nacionais. No exterior era reconhecida e cortejada pela quantidade e qualidade de produtos que operava. Em nosso país foi seguida nas principais cidades com réplicas de sua operação paulistana. Na loja em São Paulo exibia um atendimento adequado ao público alvo, ao mesmo tempo em que propiciava à sua equipe, de copeiras às Dasluzetes, carinho especial na melhor relação empregador e empregado.

 

Chegou ao ápice quando conseguiu reunir todos os departamentos em um prédio de 17mil metros quadrados, totalmente planejado para atender de forma especial os seus clientes especiais. A tal ponto que detalhes e mais detalhes, como que para confirmar a expressão norte americana, de que “Retail is detail” eram as vedetes da Vila Daslu. Não havia corredores com o intuito de levar o visitante a todos os espaços e evitar também a visita de curiosos. Eram mais de 300 marcas internacionais e marcas nacionais das mais importantes, além de uma coleção DASLU com produtos feitos aqui e preços mais acessíveis. No setor feminino não entravam homens. Em compensação o público masculino se servia de mimos como café italiano, uísque 18 anos, prosecco italiano, etc. Esta megaloja que também vendia automóveis especiais, imóveis de luxo, eletrônicos de vanguarda, helicópteros, não durou 40 dias. Mas esta é a parte da história que todos já sabem.

 


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve, às quartas-feiras, no Blog do Mílton Jung

5 comentários sobre “DASLU: o lado oculto na morte de Eliana Tranchesi

  1. Só tenho uma dúvida. O que é “a grande maioria”?
    Acredito que seja um vício de linguagem que eu também, comumente, pratico e que sou sempre cobrado por meus colegas acadêmicos. Se é maioria já é grande. Me desculpe a observação.

  2. Wladimir Viveiro, comentário 1
    Obrigado pela observação. Na verdade é um vicio de redação, talvez com o intuito de acentuar a maioria, como se esta não bastasse.

    Neste caso, com exceção da Hildegard Angel que elaborou um digno Requiém à Eliana e Gloria Kalil, não identifiquei mais nenhuma reportagem , editorial ou artigo que abordasse nada além do aspecto policial . E foram muitas.

    Vale a pena ler a matéria de Hildegard :

    http://noticias.r7.com/blogs/hildegard-angel/2012/02/24/requiem-para-eliana-tranchesi-uma-visionaria-a-quem-a-receita-do-brasil-deve-muito/

  3. Complementando a respeito da “a grande maioria”, sob o aspecto numérico, há explicação. A pequena maioria corresponde aos 51%, ou a metade mais 1 dos votos obtidos, por exemplo.
    A grande maioria pode ser os 99%, ou pela quase totalidade dos votos.
    Faz sentido.

  4. Dora, comentário 4
    Ainda bem que a filha viu apenas o lado positivo, se concentrando nas pessoas amigas e deixando de lado as “amizades” que nem na hora da morte se apresentaram.
    Provavelmente é mais um aprendizado de origem materna.

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