Por Maria Lucia Solla
Ouça “De nado” na voz e sonorizado pela autora

Eu não nado. Quando boio faço inveja a placa de cortiça, mas nadar, não nado. O colar de histórias que leva ao meu não-nadar é longo, mas vou poupar teu ouvido e minha memória, e editar.
Meu pai, ainda adolescente, quando casou com minha mãe, que era dois anos mais nova, sonhava com um filho homem. A linguagem era essa. A maioria dos europeus, provavelmente pelo fato de terem perdido tantos homens nas guerras que devastaram o seu chão, queria filho homem, e pronto. Filho de portuguesa das brabas e de espanhol ainda mais brabo, meu pai nem sonhava ter uma filha mulher. Ele tinha um irmão e uma irmã, mas dois a um era aceitável.
Agora, como a vida não vive para atender aos caprichos de quem quer que seja, eu nasci. Não bastasse ser menina, eu era sensível e frágil, cabeção e coração, mas nenhuma habilidade esportiva. Na escola, na aula de Educação Física, a classe formava um time de queimada. Para quem não conhece, na queimada ou jogo do mata, usava-se uma bola feita de pano, socada e dura para valer, que devia ser atirada com muita força, por uma jogadora, para atingir o alvo; outra jogadora. Até hoje não entendo a agressividade da coisa. A menina atingida pelo petardo morria, às vezes quase literalmente. No primeiro tiro que levei, quis desistir de ir à aula, mas na minha meninice não tinha essa história de querer isso ou aquilo. Na escola, currículo e regras existiam para serem seguidos, e em casa, meu pai mandava e eu obedecia. Simples assim. A única saída, para mim, era a porta que levava à criatividade e à estratégia, portanto eu sempre tinha dor na perna, na barriga ou na cabeça, e ficava sentada no jardim em volta da quadra, fazendo o que eu mais gostava de fazer. Eu lia.
No clube também. Sentava em volta da piscina, tomando sol e lendo. Lia tudo, revista em quadrinho, livrinho de fábula, pedaço de jornal deixado para trás, qualquer coisa, mas nadar que é bom, nada. Até que meu pai, fruto de sementes europeias altamente explosivas, resolveu aplicar em mim a psicologia de seus ancestrais. Me levou até o tanque de salto – ele precisava fazer tudo grandioso! – e num zás, me atirou na água e disse: nada, nada! E eu, nada. Me debatia, tentando ficar em cima daquela massa mole que queria me engolir, até que uns amigos dele, conhecendo a figura e se compadecendo da minha luta para manter o nariz fora da água, mergulharam num segundo zás e me tiraram dali, quase morta, ao menos de medo. Ameaçaram fazer dele picadinho se isso se repetisse, e ele, minoria na situação, bateu em retirada.
Como você vê, nunca esqueci o incidente que, graças ao segundo zás não chegou a acidente, mas nunca aprendi a nadar. Sinto muito, pai, mas sei que não te decepciono tanto, porque sei fazer outras coisas das quais o senhor ia gostar. Mas hoje, para ser sincera, não gosto de piscina; gosto do mar, que esse eu tenho no nome. Mesmo assim, fico no raso, onde as ondas já se amansaram, e curto cada gota do oceano, ali, na areia quase firme.
E você, nada?
Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung.
Lembra do: “atirei um prego n’água, de pesado foi ao fundo e os peixinhos responderam: que petisco vagabundo”. Pois é. Não nado nadica de nada. Naveguei nas suas divagações e não morri na praia. Beijos e bom domingo!
Falando em nadar………………..

Imprescindível para quem vier visitar São paulo saber nadar
a prefeitura da cidade está ministrando aulas de natação “di gratis” para turistas, moradores.
Aproveitem!!!!
Boa semana
Suely,
essa eu nunca tinha ouvido.
Pra mim era assim: “Atirei um prego n’água, de pesado foi ao fundo, e os peixinhos responderam: Viva Don Pedro II”!
Boa semana,
mls
Alpha India,
Acho que nem vou segurar lugar na fila.
Mais fácil eu aprender a pilotar…
Boa semana,
mls
Mama,
Ele já gosta de muitas coisas que fazes… adora algumas, admira várias delas… até inveja boa ele tem de umas poucas… respeita um outro tanto e tem estudado muito pra entender umas tantas outras!
Lá de cima, ele faz força pra que a Luz que ele vê, chegue mais pertinho de cada um de nós… e olha que ele vê uma Luz daquelas mesmo… do tipo que faz até um calor no coração de quem olha…
Te amamos… eu e o Vovô!
Pi
Filho meu,
generosidade e amorosidade é uma dobradinha que pouca gente tem e que faz um bem enorme pra quem é alvo dela. Este mundo parece um poço de desamor, e fica difícil manter o nariz pra fora, pra respirar, igual o tanque de salto do clube.
Obrigada pela dose de oxigênio em forma de amor.
Amo você,
mm