De obrigado

 

Por Maria Lucia Solla

 

Céu

 

Olá,

dizemos obrigado a muita gente, e muitas muitas vezes ao longo da vida. Tem vezes que agradecemos assim como quem diz bom dia, no piloto automático, sem nos darmos conta da intensidade da manifestação, mas tem outras que, quando brota a palavra mágica, o corpo inteiro se entrega ao sentimento de gratidão. Um jorrar de amor que vai se encontrar com o amor que jorra do gesto do outro. Em tempo não muito remoto, a vida era mais simples, e a gente fazia no máximo duas ou três coisas ao mesmo tempo e pensava outras tantas. Lembro da minha mãe na cozinha preparando o macarrão de quinta e domingo. A macarronada não era assim tão rápida como a de hoje. A massa era feita em casa, fuzzili ou tagliarini, e o molho era preparado por ela ou pela minha avó Grazia, que vinha duas vezes por semana dar uma mão à minha mãe no preparo dos quitutes da semana. Nada de cozinheira. O tomate, fresco e bem maduro, mas firme e vermelho, era ligeiramente batido no liquidificador e depois coado. Esse suco lindo ia para uma panela alta e virava molho. Na panela, faziam parte da receita, bifinhos enrolados que escondiam cenoura, toucinho e outras gostosuras. Então essa mistura cozinhava em fogo bem baixo e cozinhava, cozinhava, até se transformar num molho de comer de joelhos. Eu rodopiava pela cozinha e tinha sempre permissão de, no meio da manhã, comer um pãozinho sem miolo, fechado nas laterais e recheado com um bifinho enrolado, quase se desfazendo de tão macio, e uma colherada do molho. Era o céu! Elas, minha mãe e minha avó, desenvolviam um balé que me encantava. Fogão, mesa, pia e panela acompanhavam a conversa que tinha às vezes um tom mais baixo porque era coisa de gente grande; não para os meus ouvidos. Da sala vinha o som de música na vitrola, que meu pai não vivia sem ela. E esse era o enredo e a trilha sonora.

 

Hoje não fazemos só duas ou três coisas ao mesmo tempo, e não preciso descrever como funcionamos, ao menos em cidades frenéticas como São Paulo. É burbulhar na panela, no tablet, no telefone, nas mensagens no celular, no e-mail, na televisão, na mente e no coração, de fazer inveja a conjunto de percussão. Imagino que, por isso, da mente ocupada e embaralhada, os nossos obrigado e muito obrigado afloram cada vez mais no piloto automático. Só quando vivemos um período de perrengue daqueles é que, ao agradecermos, agradecemos com todas as células que nos compõem, que cantam em uníssono a nossa gratidão. E é assim que tenho me sentido, há algum tempo.

 

Andei mudando de obrigada para grata, porque nunca me sinto obrigada a nada, mas acabei como o Recruta Zero e resolvi me entregar outra vez ao obrigada, já instalado no programa de todo mundo. Portanto, a todos os que têm me ouvido, lido, abraçado, alimentado, acompanhado, partilhado comigo folia e tristeza, compreendido a dificuldade do obstáculo e dos perrengues que enfrento, aqui e ali; a todos os que têm aguentado meus arroubos de alegria e meus miados, meu muito obrigada que não jorra guiado por piloto automático, mas por uma gratidão que toma meu corpo inteiro.

 

Feliz Páscoa.

 

Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

 

20 comentários sobre “De obrigado

  1. Amiga Maria Lucia,
    Feliz Pascoa também.
    Nós é que agradecemos pela sua inteligência,cultura,dedicação que nos brinda todo domingo.
    Abraço
    Farininha.

  2. Obrigada a vc, que nos delicia com sua sensibilidade… que compartilha palavras tão doces, tão fortes… que nos faz refletir.

    Obrigada pela delicadeza com que nos toca, querida amiga.

    []´s

    Mari ;o)

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