Nem tudo é relativo no jornalismo

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

 

Os números têm sido mal interpretados por parte de alguns jornalistas. Consideram apenas os valores absolutos e ignoram os relativos, da mesma forma que desconhecem o básico de estatística. Enquanto ontem o portal Terra notificou que a cobrança de corretagem de imóveis é proibida, pois tinha gerado multa de mais de R$ 40 mil sem especificar o percentual sobre o valor do contrato, a FOLHA dias atrás anunciou que o Morumbi foi assaltado em 22 casas enquanto Alto de Pinheiros 18 sem informar também o percentual que estes números representam sobre o total de casas existentes.

 

Delfim Neto sempre chamou atenção para este aspecto numérico, alertando inclusive para o perigo da estatística. Se não se sabe nadar é preciso ao menos conhecê-la para evitar afogamento num rio de 0,5m de profundidade, mas com trechos de 5m.

 

Parece que enquanto as domésticas são um produto em extinção, os jornalistas letrados em números estão em contração.

 

Atentando à especificidade destas notas, além de desconhecimento aritmético há em ambos os casos inequívoco maniqueísmo.

 

“Justiça: pagamento de corretagem na compra de imóvel é abusivo”. Abaixo desta manchete é que o Terra além de se restringir a números absolutos confunde taxa de assessoria com a de corretagem.

 

“Morumbi lidera casos de roubo a residências”. A liderança descrita referia-se a números absolutos entre Morumbi e Alto de Pinheiros. Questionei então a Ombudsman da Folha, que enviou a minha indagação à jornalista Giovanna Balogh do Caderno Cotidiano, embora sua matéria tivesse ganhado também o nobre espaço do alto da primeira página. Recebi a seguinte resposta:

 

“Os dados utilizados na matéria são da Secretaria de Estado da Segurança Pública que são feitos com base nos boletins de ocorrências registrados pela polícia. O levantamento, portanto, não contabiliza o universo de casas, mas sim as dos imóveis que foram vítimas de assaltos”.

 

Se os números, elemento quantitativo, são tratados de forma tão leviana, podemos imaginar nas matérias qualitativas e conceituais o nível de distorção a que as informações estão expostas para determinados jornalistas.

 

O papel relevante que a imprensa tem tido na história contemporânea não deve correr o risco de atuações que a desmereça. Que tal um exame de Ordem?

 


Carlos Magno Gibrail é doutor em marketing de moda e escreve às quartas-feiras no Blog do Mílton Jung

Um comentário sobre “Nem tudo é relativo no jornalismo

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