De bandeja

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em boa hora voltou para mim a lembrança da vovó escolhendo feijão na mesa da cozinha da nossa casa, quando eu era menina. O fato é que percebo à minha volta que não são muitos os que percebem a beleza da vida na alegria e na dor, no ter e no não-ter, no ir e vir, no trivial e no especial. Tem sempre uma condição subjacente a cada respirar. Conversávamos lá em cima no terraço sobre a importância do não-permitir que fatos e pessoas tomem o comando do teu sertir-se-bem, do teu sorriso, da tua mansidão, dos teus sonhos. Nunca. A alegria deve vir de dentro, da receita que somos, da nossa mistura de cada momento. Onde quer que estejamos. Entregar esse poder de bandeja é no mínimo falta de respeito com a gente mesmo. O que também deveria ser matéria obrigatória desde a pré-escola, para não falar na educação em casa, no exemplo de cada dia que vem acoplado ao pão com manteiga; ao mingau de aveia. A aberração do suborno legalizado no seio da família é uma, no longo rosário de pérolas semelhantes. São sementes de pepino, e desentortá-lo é que são elas.

 

Tive sorte de ter um pai muito rígido, que não dava mole. Meu pai dizia, estava dito. Teve um tempo que eu ficava de cara com ele, mas não demorei demais para compreender o objetivo. Meu pai não cursou faculdade formal, mas aprendia com tudo e com todos e “se fez na vida”, como era usança dizer, tinha dignidade admirada por todos, ricos e pobres, cultos e incultos.

 

Levei tempo para juntar lé com cré, mas parece que o programa se instala mesmo devagar. Hoje escolho, inspirada pelo feijão da vovó Grazia, minhas emoções e reações. A bichada vai para uma vasilha destinada ao lixo, a que me traz paz vai para a panela.

 

A reação não é mais, quase nunca, acionada pelo piloto automático do “eu sou o bom, sou o bom, sou o bom”, e o meu sentimento, espero, nunca mais será regido por ressentimento.

 

E também espero que, pouco a pouco, possamos reassumir o controle de ação e reação, podendo dizer em ritmo sereno e terno: “não posso ficar nem mais um minuto com você, sinto muito amor, mas não pode ser”, em vez de grafitar com hematomas o corpo do pretenso amor para quem se prometeu eterno amor.

 

Maria Lucia Solla é professora, realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

6 comentários sobre “De bandeja

  1. Querida, agora mesmo lá no teu blog mencionei mais outra de nossas semelhanças, e aqui já descobri mais 2 : feijão da vovó e pai “durão”. Só podia dar no que deu, amigas-irmãs para sempre! Bjs, Maryur

  2. Amiga Maria Lúcia,
    Boa tarde.
    Que saudades de minha avó,de meu avô eu que sou carcamano dos quatro lados,acostumado com jantar aos sábados e almoço aos domingos sempre com ,mínimo de 20 pessoas.
    Bjs
    Farininha.

  3. Farina, meu amigo,

    Recooordar é viveeer! larilará!

    e com amigos, então, fica um recordar ainda melhor.
    Lembra de nossas andanças pela Itália. Lá a gente estava em casa também. Lembra as incursões por Pompeia? Fica feia sem acento, né? Vontade de me rebelar contra as mudanças na ortografia, mas acho que cansei de me rebelar…

    Obrigada pelo teu carinho e pela companhia.

    beijo e boa semana,

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