O carro

 

Sérgio Mendes é companheiro de Adote um Vereador, apóia o Movimento Voto Consciente, dá aula de inglês e passa sempre a impressão de que está de bem com os amigos. Não bastassem todas estes predicados, ainda escreve contos sobre sua vida e os deixa guardados no computador, máquina que ele também sabe mexer como poucos. Resolvi provocá-lo e ele aceitou a ideia de ceder alguns textos para o blog. O primeiro, publico hoje. Os demais, vamos ter de pedir para ele.

 

Bom proveito !

 

Causa de problema muito comum aos metais nas cidades do litoral, a maresia não perdoa. E um carro velho sempre tem aqueles grilos escondidos que ainda que bem escondidos, revelam-se qual orquestra de pífanos depois que o carro velho imprime algum movimento. Um grilinho até a gente deixa passar se o assunto é o sonho dourado de possuir um carro. Mesmo velho e com grilos falantes, a gente perdoa. Só que carros que envelhecem em cidades do litoral, não tem assim digamos, grilos. São uns besouros aqueles nhec, nhec….!

 

Estava se formando o cenário da nossa odisséia cruzando o Brasil. E nhec, nhec seria a trilha sonora. O diacho do carro não tinha um toca-fitas sequer.Mas também, não tínhamos fitas.

 

Fazia algumas semanas que estávamos em Picos outra vez. Eram as férias. De fato fim delas e precisávamos voltar. Minha mãe até já tinha planejado algumas vezes comprar um carro pra nós, ha anos nunca mais tivemos um. O problema é que eram daqueles planos que a gente faz sem pensar na parte prática da coisa. Os tempos eram outros, carro era coisa cara de se compra e ela tinha três filhos. A prioridade certamente não seria aquela. Pra completar o quadro, na cidade pra onde nos mudamos, todo mundo usava bicicleta e conosco em casa não era diferente.

 

‘Vejamos como vai ser’ era o que ela devia pensar.

 

Nós os meninos não tínhamos acesso a discussões muito sérias e carro era a típica conversa de adultos. Não podíamos, mas também nenhum de nós estava tão interessado assim.

 

O comando,‘menino sai pra lá’, também já tinha selado que não participaríamos daquele tema e por isso minha aguçada memória não registrou nada do que antecedeu aquela compra. O que eu sei e que creio que era o que acontecia então, é o que uma amiga pontuou numa situação semelhante:

 

‘Carro é sempre assim, a classe média pira!

 

Mas voltando pra onde parei, ele chegou!
E vinha de uma cidade do litoral, Fortaleza.
Era um belo Corcel II cor…, acho que era amarelo mas também puxava pra um bege. Ta bom vai, a cor era a mesminha da de um burro pálido fugido!

 

Acordei bem cedo como de costume e como de costume ninguém mais estava com os olhos nesse mundo a aquelas horas. Fui logo na cozinha beber água pra refrescar e procurar alguma coisa que pudesse matar a fome antes que ela me matasse.

 

Mal entrei e na mesa encontrei aquele chaveiro e sua chave encantada!
WoW!!! Ele chegou! Nosso carro chegou!
Corri pra fora e lá estava.
Eu não o tinha visto chegar, só sei que naquela manhã ele estava ali na minha frente. Lindo e cor de burro fugido, parado na frente de casa. E como se ele também tivesse acordado naquele instante, me chamava para um passeio matinal!

 

Esqueci da fome mas me lembro exatamente daquela sensação incrível de ser o todo poderoso dono de um carro e poder dar-lhe ordens de me levar para onde eu quisesse ir!

 

De tão confiante, voltei pra casa e peguei as chaves sobre a mesa. Até parecia que eu sabia ou podia dirigir.
Meus pais como todos, ainda estavam dormindo. Na noite anterior o meu pai tinha saído para uma volta pela cidade. Foi encontrar com os amigos e voltou, também como era de costume muito tarde ainda que ele soubesse, no dia seguinte viajaríamos rumo a nossa aventura inesquecível.

 

Paciência! A vida é assim mesmo.

 

Peguei as chaves como disse e fui dar uma olhada naquela belezura. Tentei abrir a porta do lado certo, o do motorista. Eu estava disposto inclusive a fazer o motor roncar! Recordei perfeitamente da lição em que um tio me ensinou que com a marcha em ponto morto o carro não pula na partida. Pronto, era tudo que eu precisava para guiar aquele corcel de vários cavalos. Aquilo sim era um super cavalo, era um Corcel II! Cor de burro, mas burro puro sangue eu cria!

 

Infelizmente ou felizmente não foi possível abrir o bicho por aquele lado. No lapso de tempo de tentar abrir, a sensatez que nunca havia sido o meu forte, me sussurrou que dar a partida não seria uma boa idéia.
De pronto refreei o impulso de piloto e dei a volta para abrir a porta do outro lado, aquele que segundo a sensatez, minha amiga pouco presente, seria o mais apropriado pra mim. Enfiei a chave e girei descuidado esperando que a porta abrisse. Senti um click e ela abriu.

 

Oba, pensei.

 

Ato contínuo fiz menção de retirar a chave como seria natural e como também natural em carros velhos de cidades litorâneas, a ferrugem tinha feito a sua parte. A chave trouxe junto com ela a fechadura. Não me lembro se me espantei. Era como se meu inconsciente estivesse disposto a não registrar nada daquilo para não quebrar o encantamento de estar do lado daquele possante só meu. Mas não teve jeito. O fato era concreto demais! Dei uma boa olhada naquele buraco e percebi que ele cheirava a menta. Duas fungadas desconfiadas e identifiquei que o cheiro era menta, mas não da folha que eu conhecia do jardim de vovó. Aquele cheiro era de goma de mascar. Sim senhor! Chiclete-bola Plóc!!! Esse sujeito eu também conhecia e realmente era ele quem estava ali. A fechadura estava grudada com goma de mascar mastigada. O autor daquela façanha mastigatória eu não fazia a menor idéia mas também nem estava interessado. Mesmo um tanto desgostoso com aquele primeiro contato, e sem querer entender que aquilo era prenúncio de coisa alguma, com muito cuidado, tratei de recolocar tudo no lugar e meio de soslaio puxei a porta e entrei. Primeiro no banco do passageiro na frente.
Um susto!!! Apreensivo e arrepiado me sentei e bem devagar me estiquei como que tomando posse daquele espaço.
Olhei tudo do piso ao teto. Olhei bem nos detalhes onde pudessem se esconder mais daquele fenômeno inimigo dos dentes saudáveis e mesmo entendendo que já não encontraria mais do engodo, continuei olhando. E olhei, olhei e olhei muitas vezes.

 

Estava aparentemente tudo lá, com exceção do toca-fitas. Algumas vezes forcei com cuidado as maçanetas internas que se moveram aparentemente bem.

 

Carros não eram novidade pra mim, claro que não. Na verdade a alguns anos meu pai já tinha comprado um outro Corcel II daquele mesmíssimo modelo na cor azul. Ele tinha até a buzina na manopla do limpador do para-brisa igualzinho ao primeiro. Só que diferente deste em que eu estava me acostumando era novo. Um carro zero quilômetro que depois de nós passou por muitas mãos na família. Primeiro ele tinha sido nosso depois foi para as mãos da minha tia Cecília e dela para o meu avô, pai de minha mãe. Com ele permaneceu muito tempo graças a ajuda dos conhecimentos de mecânica de carros velhos dos meus tios.

 

Carros não eram surpresa pra nenhum de nós, da mesma maneira que o Corcéu também não. Mas aquele era o primeiro que na sua constituição corpórea tinha chiclet, e tanto o chiclete como o fato daquele carro ser tão misterioso, teriam que se transformar numa viagem de mais de 2000km Brasil a dentro e levar no seu interior, seis pessoas.

 

Entre tantos pensamentos, olhei bem o painel, os pedais, cambio, bancos, inclusive forçando um pouco o encosto do de onde eu estava. Bem com cuidado é certo.

 

Pronto! Dei por completa a minha inspeção. A fome voltou com toda força e o possante lindo e cor de burro pródigo agora parecia assustador. Perdi a graça até de tentar ligar o muar.
Só queria pensar que correria tudo bem!

 

Saí dele, fechei a porta sem passar a fechadura e tornei a entrar em casa para depositar as chaves exatamente onde elas estavam.

 

Todos ainda dormiam.

 

Silenciosamente, saí outra vez e depois de fechar o portão de tábuas num tropeço das idéias, tomei a calçada que margeava o jardins de vovó seguindo o comando do estômago vazio. Eu estava determinado a me esquecer daquela fechadura suspeita como que para acreditar que ela não tivesse feito o que fez. Pensei num pensamento danado com toda a glicose que já escasseava mas apesar do esforço, a fechadura não queria deixar os meus neurônios em paz.

 

Rumei trançando as pernas e pálido feito uma vela, fui para a o reino encantado de vó Remédios, a cozinha.

5 comentários sobre “O carro

  1. Daci,
    talvez você nem se lembre mas numa de nossas conversas quando você estava de visita em Sampa pela ultima vez, você usou uma expressão que copiei literalmente neste texto. Ele estava em construção naqueles dias e você é participe dele também!
    Obrigado pela visita.

  2. Oi Tânia,
    que bom que você gostou! Fico muito feliz por que esta história tem continuação e você vai ficar sabendo da fechadura e da viagem também!
    Nas próximas semanas, continuo. Muito obrigado pela visita.
    abraços

  3. Sérgio, que prazer eu tenho de sua companhia.
    A descrição de Milton Jung sobre vc é muito justa. E acrescento, seus textos traduzem sua alma leve , sensível e de humor raro.. Delicioso!
    Tenho muito orgulho de seguir os caminhos dessa vida compartilhados com vc. Um grande abraço meu amigo! E não pare de escrever , a gente agradece. 😉

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