De meditação

 


Por Maria Lucia Solla

 

 

Você medita? Não sou meditante modelo, mas tenho experiência na Meditação Transcendental para afirmar que se meditasse duas vezes por dia, como recomendado, metade dos meus problemas estourariam feito bolhas de sabão; aquela metade que contem ansiedade, enfermidade, medo, criticismo, e outros venenos. Então por que não medito regularmente para me livrar do que me traz rugas mais profundas, olheiras mais escuras, taquicardia, urubus no plexo solar… Pelo mesmo motivo que tomava refrigerante mais do que devia, que como chocolate muito mais do que devo, que ainda me sento torta no sofá, com o iPad no colo e a cabeça enterrada no peito. Pelo mesmo motivo que ainda penso negativo durante mais tempo do que devia, que me irritava no trânsito, que ainda sou escrava de alguns apegos, que estudo menos do que gostaria, que sou muito menos tolerante do que um dia pretendo ser, que sou uma pessoa pior do que aqueles que me rodeiam gostariam que eu fosse.

 

Auto-sabotagem.

 

Tem fases em que consigo meditar livre e mansamente, mas preciso confessar que essa disposição não tem feito parte do meu dia a dia, há tempo. Ou não medito ou, se medito, não consigo ficar quieta por muito tempo. O pé cheio de manha não para quieto, e a cabeça enreda enredos mascarados de realidade. É quando mais preciso, eu sei. E daí? A gente sabe coisa demais e põe em prática coisa de menos. Medida certa? Como boa anarquista de coração, acredito que a medida certa seja diferente para cada um. Somos perto de sete bilhões de pessoas sobre a face da terra e, portanto, o mesmo número de receitas diferentes. Todos feitos dos mesmos ingredientes, com dosagem diferente. Se você tem noção do que se faz numa cozinha além de abrir a geladeira, entende o que quero dizer. Tem receita que não aceita um ingrediente, que cai feito luva em outra.

 

E isso me leva a pensar no equilíbrio que a gente persegue, tentando dosar a vida que leva, minuto a minuto. Sem trégua. Pois hoje, na minha sentada para meditar, no processo de acalmar a mente, enquanto ela dava guinadas circenses e derrapava nas curvas de meus neurônios neuróticos, percebi o peso do meu corpo no assento do sofá. Aqui está o exemplo de equilíbrio perfeito, pensei. Meu corpo não exerce pressão maior do que meu peso, sentada assim feito índio fumando cachimbo, sem tentar um braço de ferro (se bem que a expressão não se encaixe nesse caso) com o assento do sofá que também faz o que pode. Me suporta. Equilíbrio e respeito. Cada um na sua. Ah, sonho…

 

E vinte minutos depois, sem tirar nem pôr, abri os olhos e tinha meditado como fazia tempo que não conseguia.

 

A meditação não é ensinada na escola porque não paga imposto, não cobra dízimo e não dá lucro para comando de laia nenhuma.

 

A meditação, ao menos a minha, não tem sido praticada antes do dia começar com a abertura da agenda, porque o caos é o regente da vez e, portanto, tudo o que traz paz deve ser eliminado e, se isso não for possível, ao menos coberto com o véu do ridículo. Assim que eu, ridiculamente, continuo buscando paz, útero gerador de equilíbrio e cidadania. Faço parte, com muita honra, da tribo dos loucos, dissidentes do caos.

 

Para você, paz durante a semana que começa, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

8 comentários sobre “De meditação

  1. Oi amiga, confesso que meditar é um sonho que tenho, um objetivo que almejo.
    Sei dos benefícios, mas a danada da mente acaba sempre ganhando, e até já parei de tentar. Deste uma boa dica , que sabe eu recomeço. Bjs, Maryur

  2. Oi Maria Lúcia. Adorei seu escrito. Entrelaçamento tão lindo de conteúdo e forma, que entra manso pelos olhos e chega na alma. Tão manso que a gente quase não percebe a “sapatada”. Também tenho dificuldade para meditar, desfocar do desnecessário. Hoje, por exemplo, até tentei, mas comecei a me lembrar da aria I da Bachiana nº 5 (a cantilena) e me joguei no piano. Pensando bem, acho que eu meditei! Boa semana, querida.

  3. A meditação é nata no ser humano.
    Porém, ainda muito desconhecem que possa existir, seus efeitos.
    Uma pessoa pode meditar a hora que quiser, quando quiser, em qualquer lugar
    Bastam somente dez minutinhos por dia e comprovará sua real eficiência em todos os sentidos
    Mas, lembrando que o sentir é importante, e saberá como funciona o “seja você mesmo”
    Boa semana

  4. Vamos, Maryur?

    É só assim para engrossar o caldo que…

    … parei para prestar atenção à entrevista de uma geriatra, num canal de TV, e ela prescreve meditação para eliminar estresse e tudo o mais que já sabemos.
    Também diz que gostar do que a gente faz, faz a gente mais saudável, mais feliz e mais longeva.

    Bora meditar?

    Beijo e boa semana,

  5. Ah, Elizabeth,

    você meditou, e como!
    e levou à meditação muitos seres mais.

    A Vida foi criada pela música; pelo Rock’n Roll do Criador, que a gente chama de Big Bang. Reinava a percussão.

    Obrigada, querida, boa semana procê também.

    Beijo,

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