De direita e esquerda

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Está tudo errado de baixo para cima, de um lado e do outro e de trás para frente. Um povo não pode estar dividido em esquerda e direita. Isso é mais velho do que a Santa Ceia. Se meu braço esquerdo tivesse um objetivo, e o direito outro, o que seria de mim? O que seria se meus olhos se olhassem de esguelha e um visse só a bandeira azul, e o outro a vermelha? Por que nos dividirmos assim? Não percebemos que desse jeito ficamos literalmente partidos e não chegamos a lugar nenhum?

 

Já que finalmente brotamos, neste Brasil de meu Deus, o próximo passo é nos unirmos em prol de todos. De nós todos. Sem repúdio aos que têm instrução e chegaram aonde chegaram porque trilharam o caminho. Sem distinção de credo, cor, preferēncia sexual ou extrato bancário. Elite é quem tem caráter, consciência acordada, tolerância com as diferenças, instrução, respeito pelo seu semelhante e pelos nem tão semelhantes assim.

 

O país só pode funcionar em benefício de todos se andarmos na mesma direção. Todos nós, começando por um comportamento digno de seres-humanos, sem ódio, sem ranger de dentes, e principalmente sem fanatismo.

 

Não entra na minha cabeça:

 

– que um partido político quer o bem do país e o outro não

 

– que porque você é fanático por uma bandeira, isso faz de mim uma mentecapta-alienada-ignorante

 

– que as pessoas demonizem um canal de tevê, ou todos eles, porque não servem ao seu paladar.

 

Isso é extremismo, e quem tem um pouquinho de massa encefálica sabe que tudo é feito de gente, por gente e para gente, que extremismo não chega a lugar algum, e que a partir dele só existe um caminho a seguir; o do equilíbrio.

 

Assistir a tevê faz de mim um ser abjeto? Gostar de amarelo, andar de ônibus em vez de dirigir um Mercedes, ou vice-versa? É exatamente esse tipo de pensamento e sentimento que tem nos afastado uns dos outros, que tem nos feito perder a direção, que nos tem feito andar feito baratas-tontas tentando ser isso ou aquilo, olhando o outro com desconfiança, seja ele careca ou use trança.

 

Enquanto não entendermos que somos todos irmãos, que somos todos um, não sairemos do lugar, ou pior, andaremos para trás, cada um puxando para o seu lado, nesta sociedade do eu-primeiro.

 

Ouvi ou li um comentário de que o fato de alguém rasgar a bandeira do PT com os dentes era o de menos. O feito era hediondo pelo simples fato de rasgarem uma bandeira. Como assim? E se fosse uma bandeira nazista? E se fosse uma bandeira da Ku Klux klan? Uma bandeira de cura aos gays? Lamentaríamos também?

 

Bandeira é um símbolo que se dignifica pelo seu significado. Como todo símbolo. Nada mais.

 

Enfim, não quero perder a oportunidade de dizer quanto orgulho sinto pela juventude de hoje e pelos nem tão jovens que se manifestam como podem. Que saem da zona de conforto e bradam pelo bem de todos. Quanto sou agradecida por sua coragem, pela firmeza de caráter que demonstram em suas manifestações, bradando pela não-violência, levantado cartazes que expressam sua desolação pelo caminho que este país tem tomado.

 

Não é hora de fazermos um concurso para saber qual lado é o pior ou foi o pior. O fato é que, hoje, os políticos que nos representam não nos representam. Isso é fato, sejam eles de esquerda ou direita. A grande maioria é no mínimo despreparada e ignorante, e no máximo formada por ladrões, corruptos, farsantes, criminosos, bandidos.

 

Tanta luta e discussão sobre drogas, quando a droga maior aqui é o poder. Parece que quem chega lá fica intoxicada por ele, fica doidona. Temos uma presidente que já foi terrorista armada, lutando supostamente pelo quê? Por sua crença, pelo seu lado do rio, pelo seu extremismo. Hoje é uma mulher plastificada, que sorri dirigida por maestros marqueteiros e por um ex-presidente fantasma, que não vê, não ouve, tem horror a leitura e tem linguajar chulo, toda vez que crê não haver um microfone ou uma câmara por perto.

 

Não queremos que o dinheiro lidere. Queremos consciência, competência e preparo. Precisamos de respeito por nós mesmo, para aprendermos a respeitar nosso semelhante.

 

“A idéia de que a vida social deve preocupar-se em saber o que é o homem é uma idéia moral, antes que material e política. Uma idéia que não existe ainda. Os governantes não se preocupam com ela”. Jean Paul Sartre

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

8 comentários sobre “De direita e esquerda

  1. Muito bom o artigo.
    Eu lamento muito também a maneira como as pessoas se julgam melhores do que outras. Infelizmente tive que me afastar de pessoas e movimentos sociais por conta disso. Um lado não admite e nem quer diálogo com o outro.
    Triste.

  2. A VIDA DE TODOS SERIA MUITO MELHOR EM TODOS OS SENTIDOS SE TODOS UM DIA PASSAREM A PERCEBER O QUE ELEVA UM SER HUMANO É O SEGUINTE:
    -harmonia
    -desapego
    -NÃO a ganância
    -NÃO a sêde perlo poder, pelo ter.
    -Viver com simplicidade e humildade fazem nossas vidas mais suaves e saudáveis.
    -Ambas as mãos e pés trabalham juntos. Direito e esquerdo.
    Somo apenas um aglomerado de átomos e mais nada!

  3. Concordo plenamente com o artigo. O problema da tv, é que alguns manifestantes se voltaram contra a Globo principalmente, pela maneira como ela se comporta. Favorável ao poder político. Natural, por receber benesses financeiras. Aliás, por ter maior audiência, recebe mais dinheiro das verbas de propagandas oficiais. As outras, Record , por ser de empresários ligados a I. Universal, acredito.
    Assistindo a cobertura das emissoras de tv sobre as manifestações, viu-se nitidamente que se mostrava mais o vandâlismo do que o manifesto em si.
    Em Fortaleza mesmo, a omissão do juiz aposentado que “peitou” a polícia nem citado foi o fato. Fato que serviu de primeira página ao “New York Times”.
    Talvez isso que incomode muitos, inclusive eu. Queiramos ou não, a tv forma opinião e informa o que lhe convém. Me atenho as tvs, pois vejo no meu dia a dia, essa influência nas pessoas, pois tá implícito “novela das oito”; “viu o fantástico domingo”; ” e o Faustão”…,etc. Isso da globo.
    Num país, onde os analfabetos funcionais, formam a maioria da população e tem na tv seu principal entretenimento e informação, essa tv incomoda a quem pensa um pouco diferente da maioria. Não sou “elitista” por isso. Vejo programas da tv, SBT e alguns da Globo e outras emissoras “abertas”.
    Mas nada que leva a violência justifica isso. Acredito que por ainda ser o início de manifestações democráticas e nunca havíamos a praticado como agora, os excessos apareçam.
    Mas só acredita que haja uma “esquerda” ou “direita” quem é fora da realidade, pois nossa política não é assim dividida. Ao contrário, os do poder hoje se amarram com a suposta oposição (há oposição?). Para mim, jogo de cena, quando aparecem em público. Lá na “coxia”, se acertam. E como!

  4. Querida, belíssimo e verdadeiro! Com certeza, com consciência e competência já estaremos numa nova caminhada, e como diz o Dib, com sua sabedoria: Se cada um cuidasse de seus deveres, os direitos de todos estariam assegurados, bjs Maryur.

  5. Maria Claudia,

    bem-vinda e obrigada por tua participação.

    Também ando muito triste. O sectarismo está se alastrando. O fanatismo não permite ver a triste realidade do ‘o fim justifica os meios’, mesmo que esses meios trafeguem nas vias da roubalheira e da bandidagem, do fisiologismo, e das associações escusas. Nosso povo está sendo dividido, como o povo da Venezuela, como os dois Vietnãs…

    A cultura é tratada como um ‘mal’ e elite virou xingamento.

    Você tem razão: triste, muito triste!

    Beijo e boa semana,

  6. João Alencar Andrade,

    bem-vindo e obrigada por tua participação.

    Eu vejo tevê. Não sempre, mas escolho o que quero ver e aceito que não seja feita sob medida para mim. Lido com as tevês como lido com os cardápios de restaurantes e aceito que há de tudo porque não somos iguais. Lido com elas como com as livrarias. Compro o que quero ler, mas aceito a diferença.

    Agora, convenhamos,exigimos do outro e esquecemos de olhar para o próprio umbigo quando não nos interessa. Se você é funcionário de uma empresa e é bem pago pela tua competência, não vai procurar se ajustar? Ou vai criar uma guerrilha por dia?

    Ah, sim! A coxia da política, que é nem é mais tão coxia assim…

    Beijo, boa semana, e viva o nosso acordar!

  7. Maryur,

    O problema é que quando a corja fica doidona com o efeito do poder, deixa de lado o dever e cuida mesmo é do ter, especialmente quando o ter é novidade. Feito novo rico em loja de Outlet.

    Beijo e cuida bem de ti,

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