40 anos da morte de Pedro Carneiro Pereira

 

Por Milton Ferretti Jung

 

No dia 21 deste mês fez 40 anos que Pedro Carneiro Pereira morreu. Quem nasceu na década de 60 ou pouco antes,se gaúcho ou,pelo menos,ouvinte de futebol no rádio,deve ter conhecido,conforme imagino,esse que foi,em minha opinião,o melhor narrador desse esporte até que a morte o retirou do ar de maneira abrupta. Tenho bons motivos para lembrá-lo com muita saudade. Afinal, vi o Pedro,que não se importava de ser chamado de Pedrinho,chegar como candidato a uma vaga de locutor na Rádio Clube Metrópole. Eu chefiava o setor e coube a mim testá-lo. Pedro Carneiro Pereira foi aprovado. O moço que,na época, cursava a Faculdade de Direito da PUC,desde logo demonstrou possuir as melhores condições para exercer a função. Na Rádio Clube Metrópole,chegamos a narrar algumas competições automobilísticas.

 

Em 1958,transferi-me para a Rádio Guaíba e Pedro logo também mudou de prefixo. Foi para a Rádio Difusora. O que ele queria mesmo,porém, era narrar jogos de futebol. Prova disso é que, em jogos realizados no Olímpico,costumava levar um pesado gravador até uma cabina desocupada e gravava partidas inteiras como se estivesse no ar. Um belo dia,criei coragem e perguntei a Mendes Ribeiro,um dos diretores da Guaíba,se não daria uma chance para o Pedrinho. Mendes o contratou para a equipe de locutores comerciais. A chance de ele narrar apareceu quando Mendes Ribeiro dava a quem quisesse a possibilidade de relatar jogos dominicais em Caxias do Sul,onde as partidas do campeonato estadual começavam meia hora antes que as de Porto Alegre. O Pedro e eu recebemos esse tipo de oportunidade. Ambos fomos incluídos na equipe esportiva da Guaíba.

 

Pedro Carneiro Pereira,no entanto,apreciava corridas de automóvel. Lembro-me da primeira prova que ele disputou,pilotando um Fusca. O carrinho não tinha nenhum preparo especial. Como ele foi convidado para ser diretor da Penitenciária de Porto Alegre e aceitou, não tinha tempo para amaciar os carros que usava nas suas primeiras competições e entregava a mim a responsabilidade de os amaciar. Pedro foi um dos principais incentivadores da criação do Autódromo de Tarumã. Chegamos a trabalhar,lado a lado, quando ele assumiu a presidência do Automóvel Clube do Rio Grande do Sul e me pediu para ser o secretário.

 

Pedro foi evoluindo no automobilismo de competição. Passou dos Volks e Gordinis para carros mais potentes.Com um Gordini 1093,ao participar da Prova Antônio Burlamaque em 1966,atropelou um porco,perdeu a direção e o carro se chocou com uma árvore. Com o braço esquerdo na tipoia,fez a cobertura da Copa do Mundo da Inglaterra.Naquele tempo, Pedrinho dirigia o Departamento de Esportes da Guaíba,atuava na Standard Propaganda como diretor (nessa eu era redator) e saíamos correndo da agência ao meio-dia,ele para apresentar um comentário,eu para redigir o programas esportivo das 12h30min .

 

No dia 21 de outubro de 1973,Pedro escalou Armindo Antônio Ranzolin para narrar,no Beira-Rio,Inter x São Paulo. Eu faria,em Vitória,capital do Espírito Santo,a cobertura de um jogo do Grêmio. Mal chegados ao estádio,alguém disse que,em Tarumã,acontecera um terrível desastre. Como de hábito,meus companheiros de transmissão e eu,entramos em contato com o estúdio da Guaíba pela linha de serviço. A notícia que nos chegou pelos fones não poderia ter sido pior: Pedro e Ivã Iglesias,disputando a ponta da corrida da Divisão 3,bateram com suas carreteiras no muro dos boxes,os carros se incendiaram e os pilotos morreram. Conseguimos lugares em um avião que nos deixou no Rio. lá embarcamos no “corujão da Cruzeiro”,à meia-noite. Fomos do Salgado Filho diretamente para o cemitério São José. Eu,particularmente,havia perdido muito mais do que um colega,mas o meu melhor amigo.

 

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele)

6 comentários sobre “40 anos da morte de Pedro Carneiro Pereira

  1. Como Guaibeiro que fui (vejam só, no passado… que triste ver isso!), foi sim realmente triste aquele final de semana e lembro-me bem onde eu estava naquele domingo a tarde. Eu morava na casa de uma tia na Rua Corte Real no bairro Petrópolis aí em Porto Alegre e passava as tardes de domingo escutando a Guaíba quando não tinha jogo no Velho Casarão e veio aquela notícia chocante, pois mesmo que a gente não conhecia o pessoal do rádio por fotos (na época sabia-se apenas o nome e nem mesmo fotos se tinha de vocês), a gente formava uma opinião e gostava de todo o pessoal da rádio.
    Hoje, com toda esta tecnologia que existe, a primeira coisa que se vê é a fotografia da pessoa que fala ou escreve e aí, quer queira, quer não, você já forma uma opinião diferente.
    É assim com a narração de futebol que se ouvia nas décadas passadas apenas pelo rádio. Que emoção os narradores transmitiam para os ouvintes!
    Parabéns MIlton Pai pela lembrança do nosso sempre lembrado Pedro Carneiro Pereira, que mereceu ter o nome gravado em uma cabine no Velho Casarão. O que se fez com a placa?

  2. Caro Milton, não há como esquecer aquele tarde triste de domingo. A Rádio Guaíba deixou muita saudade e muitas lembranças. Me lembro do comentário do Ranzolin, na segunda-feira seguinte, e como me emocionei, na hora do almoço, lá em Veranópolis. Estou atualmente em Brasília e há tempos conversei com o Clóvis Resende sobre o acidente, já que era ele o repórter que narrou o lamentável fato. Honra muito grande para mim conversar contigo. Abraço. Com o Grêmio, onde estiver o Grêmio.

  3. Lembro daquela tarde de outubro de 1973. Inter de Figueroa contra São Paulo de Pedro Rocha. Clássico nacional. Um jogo para Pedro Carneiro Pereira, “titular de esportes da Guaíba”, narrar. Mas, Pedro queria correr. E durante a transmissão dupla da Guaíba (o Grêmio jogava em Vitória/ES) – no RS, quando há jogos simultâneos da dupla Grenal, as emissoras fazem narração também simultânea, numa combinação interessante -, entrou a voz de Antônio Augusto, plantão de estúdio, chamando o repórter Clóvis Resende. E do autódromo de Tarumã veio a notícia da fatalidade. Armindo Ranzolin, outro extraordinário narrador, estava cobrindo o clássico e, em voz trêmula, procurando palavras, encerrou ali a jornada esportiva da Guaíba. Pedro foi o maior narrador esportivo que já ouvi. Não só do RS. De todos. Era universal. Fala fácil, culta, rápida. E olha que a Guaíba tinha um timaço de narradores: Ranzolin, Milton F. Jung, Élio Fagundes. Ali terminava aquele bordão ao iniciar uma partida: “o árbitro olha o seu relógio, nós o nosso…”. Que belo texto do Milton F. Jung, uma das mais belas vozes do rádio (“Aqui fala o Correspondente Renner…”), aliada a um grande talento. Bela e justa postagem. Parabéns.

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