Inezita Barroso , guardiã da música caipira e da cultura do interior do Brasil

 

 

Inezita Barroso morreu neste domingo, dia 8 de março, dias após completar 90 anos. Tímida, apesar de dominar com maestria o palco e o público, e de sorriso fácil, mesmo que insista em dizer que era um professora brava, ela foi uma mulher encantadora. Fui conhecê-la, ao vivo e em cores, nos bastidores da TV Cultura, onde já apresentava Viola Minha Viola, programa que esteve no ar por 35 anos. Mesmo próximo dela, eu mantinha meu silêncio em reverência a cultura e conhecimento que Inezita carregava consigo. Ficava só a espreita ouvindo os causos que contava. E poucas pessoas conheceram tantos quanto ela. Mais do que isso, sabiam contar como ela, com riqueza de detalhes e conhecimento de causa.

 

Fui conversar com Inezita mesmo, além de alguns cumprimentos envergonhados, quando já estava na CBN em entrevistas esporádicas e programas especiais. Um deles, quando no estúdio da CBN, comemoramos juntos os 80 anos de vida de Inezita – época em que lançava CD em homenagem aos 25 anos do programa Viola Minha Viola. Oportunidade em que ela se mostrou muito à vontade contando cada detalhes da sua rica vida artística e cultural. Uma riqueza que começou a ser construída ainda pequenina e em família. Nasceu na Lopes de Oliveira, no bairro da Barra Funda, e conviveu na casa do avô, na Conselheiro Brotero, em São Paulo. Família apaixonada pela cultura e pela música brasileiras que recebia alguns dos maiores intelectuais e artistas da época: Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Cândido, Mário de Andrade – gente que ela viu, ouviu, mas conversou pouco pois se dizia envergonhada, humilde. Um contato, porém, que foi suficiente para ela se apaixonar pela leitura, a ponto de formar em bibliotecononia.

 

Foi no interior, em Matão, na fazenda dos parentes, que ela passou a ouvir a Moda de Viola e as músicas religiosas, que a marcaram para sempre. Curiosamente, ela aprendeu a gostar desta música em uma época que se fazia pouco caso do caipira. Mais ainda: em uma época que mulheres tocando este tipo de música não eram aceitas. Mas Inezita sempre foi muito forte para se entregar por tão pouco. Pegou a viola aos seis anos mas foi tocá-la de verdade lá pelos 18/19 anos. Antes de fazer sucesso com a música, esteve no palco do teatro, fez cinema, ganhou prêmios importantes como atriz. O primeiro disco saiu em 1953, quando Inezita foi ao Rio, com Paulo Vanzolini, gravar Marvada Pinga, uma das músicas que marcaram sua carreira. Era só um teste, não se pensava em colocar à venda. Como o disco tinha dois lados, precisava escolher outra música e Vanzolini ofereceu Ronda, que não era caipira, era samba (e samba de paulista). E um lado e o outro do disco fizeram um baita de um sucesso.

 

Inezita se transformou em guardiã da música caipira e da cultura do interior do Brasil, carregou esta bandeira e história por todo o país, preservou-a na televisão, com seu programa na TV Cultura, e na academia, onde foi professora por muitos anos. Rígida professora, pois não admitia aluno copiando texto errado da internet. Obrigava-os a pesquisar e conversar com quem fez a história. E assim aprender e tomar gosto pela cultura brasileira como ela. Inezita é daquelas pessoas para as quais o Brasil terá de, eternamente, fazer reverência. E pelas quais, a gente dá graças à Deus por ter tido oportunidade de conhecer.

 

O programa que realizamos no CBN São Paulo, em 2005, você ouve no arquivo acima.

3 comentários sobre “Inezita Barroso , guardiã da música caipira e da cultura do interior do Brasil

  1. Talvez não saibas,Mílton, a saudade que despertaste em mim, tanto da Inezita Barroso,cantando na CBN,tanto quanto simplesmente ouvindo suas voz em CDs maravilhosos, Sempre me chamoiu a atenção o fato de a voz dela,mesmo com 80 anos,ser a
    s mesma de quando era uma jovem, cantora..Obrigado por teres reproduzido a entrevista que fizeste com ela faz já tantos anos. Tu me emocionaste e me fizeste chorar.

  2. O mais legal da mensagem é saber que ainda nos damos o direito de chorar pelos momentos de alegria que as pessoas nos proporcionam. Inezita era incrível mesmo. O sorriso dela e a humildade sempre foram marcantes.

  3. Em ocasiões como esta é que fica claro que há pessoas insubstituíveis. Ao mesmo tempo, os momentos recentes provam que a perda ainda fica maior porque não surge inovação que possa ao menos preencher de alguma forma estes espaços.
    Inezita Barroso é cultura. Que saibamos preservar.

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