Conte Sua História de SP: o caminhão de manivela do Dito Caipira e minha rua de terra

 

Por Nerci Pedroso Bueno

 

 

Meu nome é Nerci, nasci no Belenzinho, precisamente na maternidade Leonor Mendes de Barros. Mas sou moradora de um bairro da periferia de São Paulo, Ermelino Matarazzo.

 

Quero falar um pouco do meu bairro: minha casa é de esquina e fica numa rua com descida. Naquela época, em 1969, as ruas do bairro eram todas de terra como a gente costumava a falar. Quando chovia, descia tanta água por aquela rua que não dava outra: entrava água nas casas, um metro de água, mais ou menos. Minha casa vivia enchendo e ainda me lembro da minha mãe e irmãos puxando a água com rodos, vassouras, o que desse certo.

 

Meu pai, o Dito Caipira, como era conhecido no bairro, motorista de caminhão a manivela, fazia carretos para os moradores. Uma vez, ele contou que, quando foi morar no bairro, só tinha a casinha dele de madeira e de alguns vizinhos, dizia que cansou de matar cobras no nosso quintal. E que, juntamente com os poucos moradores, foi pedir ao então governador de São Paulo para colocar luz elétrica no bairro. Foram todos no caminhãozinho do meu velho pai.

 

Minha infância se deu neste bairro pobre de periferia.

 

Nessa mesma rua que descia a chuva em forma de correnteza, eu e muitas crianças entravam na enxurrada. A rua tinha muitos buracos. Como disse, minha casa era na esquina e toda água desembocava lá, era uma farra.

 

Em dias de sol, descia a rua de carrinho de rolimã feito pelo meu irmão mais velho. Descia com tudo a rua, sem medo do perigo e sem medo de ser feliz.

 

As brincadeiras dessa época eram inocentes, recordo-me que meu pai plantava milho num terreno emprestado e eu brincava com as espigas, logicamente sem arrancar do pé: fazia carinha nas espigas e trancinhas nos cabelinhos do milho.

 

Ah, saudades daquele tempo!

 

Hoje, o bairro progrediu, as ruas estão asfaltadas, já não entra mais água na minha casa, o terreno emprestado tornou-se uma vila de sobrados, que já foram todos vendidos.

 

A rua ficou movimentada, não tem mais carrinho de rolimã nem as espigas – agora só no supermercado mesmo – , e o caminhãozinho de mudança ligado a manivela já não existe mais nem seu dono, o Dito Caipira.

 

Essa é minha história, história de uma paulistana que ama profundamente esta cidade.

 

2 comentários sobre “Conte Sua História de SP: o caminhão de manivela do Dito Caipira e minha rua de terra

  1. História muito interessante,,fez-me lembrar das corridas de carrinho-de-lomba que eu assistia com o meu pai. Sabia que ele jamais me deixaria descer a Rua Dom Pedro. Temia que me desse mal.

  2. Caminhão de manivela…Dito Caipira…Rua de terra… Enxurrada…Carrinho de rolemã…
    Obrigado, cara Nerci, por esse “filme” que o seu conto me trouxe de um passado bem
    próximo. Adorei.

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