Conte Sua História de SP – 462 anos: da minha casinha no Butantã até onde o olhar alcança

 

Por Samuel de Leonardo

 

 

No Conte Sua História de São Paulo, trechos do texto enviado pelo ouvinte-internauta Samuel de Leonardo, nascido em 1956, na cidade de Inúbia Paulista. Veio para a capital no fim dos anos de 1950 quando a família se fixou em uma chácara na rodovia Raposo Tavares:

 

Dias difíceis aqueles, contavam meus avós. Pouco trabalho, pouca comida e um frio de matar. Minha avó japonesa, era assim que a chamávamos, permanecera com os irmãos de minha mãe tocando a lavoura de café na região de Rinópolis, interior de São Paulo.

 

Com dignidade, meu avô paterno tocava a lida na chácara e subsistíamos com o que ali se plantava: verduras, mandiocas, muitas abóboras, muitos chuchus e criação de galinhas. Meu pai ingressou na construção civil, foi ser servente de pedreiro. O que poderia mais conseguir um semi-analfabeto que dos 30 anos vividos frequentara a escola apenas dois?

 

Decorrido pouco tempo ele conseguiu ingressar na Prefeitura Municipal de São Paulo, no cargo de gari, e com isso passara a ganhar um pouco mais. Assim como todo brasileiro, a casa própria era o seu sonho. Com muito sacrifício comprou terreno num loteamento novo em São Domingos, lá pelos lados do Butantã, na zona oeste.

 

Lembro-me vagamente dos dias vividos na chácara nas imediações onde hoje está erguido o Shopping Raposo Tavares: a bola colorida, presente dada pela mulher que era a dona do local; a minha queda de cima do barranco quando soltava bolhas de sabão com canudo de talo de mamona feita pelos meus tios. Tenho vivo em minha memória quando, aos três anos, pela primeira vez entrei em um veículo motorizado, um caminhão. Foi o dia da mudança para a casa nova, um cômodo apenas, perdido numa imensidão de terra vermelha, mas que para nós era um lar.

 

De frente àquela casinha olhando um pouco mais para alto podia-se avistar um imenso milharal e uma imagem tal qual uma colcha de retalhos em várias tonalidades de verde, repleta de verduras. Era a chácara dos Fonsecas. À direita uma estreita rua subia rumo às casas, que se perdiam de vista, espalhadas colina acima em direção ao Bonfiglioli. À esquerda, a poucos metros da casa, uma imensidão de sapezais e, mais abaixo, um córrego com várias tábuas ao seu redor. Ainda ao longe uma estradinha que terminava em uma granja e um pouco mais à frente podia-se contemplar os telhados de uma olaria lá pelos lados do Rio Pequeno.

 

Aos fundos outra colina em menor escala onde a uns 200 metros passava uma estrada de terra batida, caminho principal daquele então modorrento lugarejo onde existia um comércio capenga formado basicamente por uma única avenida que abrigava uma padaria, a farmácia do Zé, o salão de barbeiro do João, o Ligeirinho, o Armazém dos Gregos, um açougue que não me recordo o nome do dono, e mais de uma dezena de botecos, desses onde o estoque principal é variado, variado nos tipos de cachaças, e com o salão ocupado por mesas de bilhar.

 

Perceba que morávamos em um grande buraco.

 

Samuel de Leonardo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A narração é de Mílton Jung e a sonorização de Cláudio Antonio. Envie seu texto para milton@cbn.com.br

 

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