No gravador de Enon, a essência do rádio

 

Por Christian Müller Jung
reproduzido do LinkedIn

 

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Formei-me publicitário. Mesmo sendo filho, irmão, sobrinho, primo de jornalistas, a veia criativa sempre esteve presente em minha vida. Muito disso por influência da mãe que era uma pessoa super inspirada.

 

Mas, enfim, o que me traz aqui hoje é curiosamente essa tarefa instigante de levar a informação para todos os cantos do planeta: o jornalismo.

 

Tive a oportunidade de conviver desde a infância com essa turma que carrega gravadores nas mãos para não perder uma palavra que tenha sido pronunciada ou alguma mensagem que seja de interesse da população.

 

Cresci dentro da Rádio Guaíba, de Porto Alegre, em virtude do pai que por lá circulou mais de 50 anos, como locutor comercial e de notícias, narrador esportivo, comentarista e, claro, jornalista. Quando digo o pai, refiro-me a Milton Ferretti Jung.

 

Assistia ao trabalho dele e dos colegas nos campos de futebol e, por vezes, presenciei os repórteres chegando da rua prontos para editar as suas matérias.

 

Muitas vezes, apesar do Christian no nome, fui e sou chamado de “Miltinho”, seja porque o pai é Milton seja porque meu irmão também é Milton, o Júnior (e, também, jornalista). Nada que me afete porque afinal de contas tenho orgulho dessas referências; assim a troca de nome mais do que uma simples confusão, é uma deferência.

 

Apesar de ser publicitário, fui parar na tribuna do Palácio Piratini como Mestre de Cerimônia. Se a gente não herda uma coisa herda outra. Se não virei jornalista como o pai, fiquei com o padrão vocal do velho Milton e isso me ajudou na obtenção do registro de locutor e apresentador.

 

O Palácio e as atividades pelo Rio Grande como Mestre de Cerimônia me permitiram acompanhar de perto as coberturas jornalísticas, especialmente nas solenidades do Governo, e me aproximaram desse pessoal: os jornalistas de rádio.

 

Alguns são da velha guarda, são do gravador da National e da fita K-7 – um trambolho que exigia o uso das duas mãos, uma para apoiar e a outra para apertar o botão REC.

 

Junto a eles, tem a turma bem mais nova que se recicla a cada dia chegando com toda a tecnologia disponível para facilitar e arquivar a informação. Tanto de áudio como de vídeo.

 

Nessa atividade que exerço no governo gaúcho, desloco-me por várias cidades do interior e foi numa destas, mais precisamente em Tapes, no centro sul do Estado, que encontrei o radialista, o jornalista e o dono da Rádio Tapense, Enon Cardoso.

 

Na solenidade anterior em cidade bem próxima, Sentinela do Sul, já o tinha visto trabalhando, porém foi em Tapes, após escutar a minha apresentação, que ele quis saber como eu me chamava. Logicamente que pelo tipo de voz e o sobrenome, Jung, ele me perguntou o que eu seria do Milton Ferretti Jung. Disse que era o filho mais novo e de cara ele abriu um sorriso lembrando-se de um acontecimento que tinha marcado a vida dele, há muito tempo.

 

Em certa oportunidade, muito antes das grandes redes de rádio, Enon veio a Porto Alegre para saber se teria autorização para reproduzir na emissora dele o Correspondente Renner, que era lido pelo Milton, na Guaíba. Falou com o pai que era só o locutor no noticiário e não tinha esse poder de decisão. Depois, falou com Flávio Alcaraz Gomes, amigo dele e um dos jornalistas mais influentes da emissora. Precisou, porém, muita insistência para chegar à direção da Guaíba quando, então, recebeu o aval inédito para retransmitir o Renner. Havia apenas uma condição: ele não poderia dizer o nome da rádio dele durante a locução.

 

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Quando vejo um senhor como o Enon, de cabelos brancos, sentado em uma cadeira, próximo ao palco da cerimônia, em frente a caixa de som e com o gravador na mão, em pleno 2017, parece que voltei no tempo. A maneira improvisada de cobrir os assuntos como forma de superar a falta de dinheiro e condições de trabalho, me remete à época em que cada um tinha de fazer das tripas coração para emendar fios, montar um transmissor, levantar enormes e pesadas antenas e torcer para que o trabalho todo fosse ao ar.

 

A história de Eron por si só já é ótima, mas o que quero destacar mesmo, nisso tudo que relato até aqui, é a essência da coisa. É nela que se cria a verdadeira escola da informação. Muito mais que a tecnologia, está a vontade de retransmitir e compartilhar os fatos da forma mais imediata possível com a audiência.

 

Ainda que os telefones celulares e toda a tecnologia desenvolvida facilitem tanto a vida dos profissionais, quando faço essas solenidades percebo que a necessidade de levar a informação para o ar ainda exige algum tipo de improviso para não que se perca nenhuma sílaba do que foi dito.

 

Os gravadores mudaram de tamanho e de analógicos se transformaram em digitais, mas a turma ainda precisa correr, instalar antenas de wi-fi, conectar notebook, tablet ou qualquer outra traquitana nova. Sai de uma solenidade para a outra, tem pressa para chegar e para transmitir a mensagem ao seu público.

 

Se antigamente era preciso colar o gravador e o microfone no rosto de quem falava ou se tinha de se subir na tribuna para captar tudo, hoje basta se aproximar da caixa de som ou ligar o equipamento direto na mesa montada pelos técnicos.

 

Se antes o material coletado tinha de viajar de carro ou ônibus para chegar à emissora, hoje é editado na mesma hora, viaja pela nuvem ou é transmitido ao vivo e com sinal digital.

 

Mas nada disso muda a razão maior que move todos os jornalistas desde quando comecei a conviver nesse mundo da notícia. Velhos ou novos profissionais, todos buscam cumprir sua missão.

 

Bem lá atrás ou aqui na frente da linha do tempo, o que interessa no fim do dia é se a bendita da informação chegou ao público.

 

Naquele dia em Tapes, com seu gravador em punho, Enon mais uma vez cumpriu sua missão.

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