Conte Sua História de SP: na rua da viração, minha pensão tocava fado

 

Por Agnes Fátima Cavalheiro Gati
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Guardei, em segredo, essa lembrança de quase 40 e poucos anos de minha chegada a São Paulo, em 1970. A interiorana de Piraju, cidade que em guarani significa peixe dourado. Saí de lá para morar e estudar na capital. Na época, o interior parecia estar adormecido, esperando na janela as muitas mudanças prometidas. Estudar e fazer faculdade eram o sonho de todos os adolescentes, mas era preciso vir para São Paulo.

 

Lembro-me da minha chegada de ônibus, sozinha, vendo o dia amanhecer. Da parte bem alta da rodovia Raposo Tavares, comecei a avistar a terra sonhada. Tive a mesma sensação de quando, aos sete anos, pisei pela primeira vez nesta terra incrível. A mesma imagem, inesquecível! Uma  imagem que guardei e que avistei de novo para sempre a  imensidão  sem  fim  de  prédios.  Ajeite-me na poltrona,  procurando sossegar o corpo, que se agitava ao se deparar com aquele imenso horizonte acinzentado, mas cheio de magia e esperança!

 

O ônibus parecia seguir o caminho sonhado em meus muitos sonhos acordados. Sempre quis morar na capital. Meu pai não se conformava, pois achava um absurdo viver em uma cidade louca como São Paulo.

 

– Essa Vermelhinha, sempre dando trabalho. Por que São Paulo?

 

Vermelhinha era o meu apimentado apelido.

 

A chegada à rodoviária foi assustadora. Muitos medos foram colocados em minha cabeça, para que eu desistisse. Os meus olhos se agitavam por todos os lados. Sentia, como diz a música caipira, “o sangue ferver”. De repente, uma pitadinha de desespero começou a tomar conta de mim, a começar pelo cenário macabro da rodoviária, da Estação da Luz. Parecia que estava vivendo um filme de terror, desses bem hollywoodianos, com todos os possíveis truques e efeitos sonoros  e visuais. Pela primeira vez me deparava com pessoas muito maltrapilhas. Era assim que referíamos às pessoas pobres e mal vestidas,  um cenário que aliás, se repete nos tempos de hoje em qualquer canto da cidade e do Brasil.

 

O primeiro susto passou e eu passei a driblar os muitos outros medos que toda hora pareciam me pegar.

 

O segundo susto veio a galope, meu Deus! Cheguei ao pensionato para “Moças”, na pensão da Dona Lourdes, uma portuguesa incrível, lá do bairro de Santa Cecília.

 

A indicação foi dada por um ex-aluno de minha mãe, com a maior das boas intenções. Obviamente, não conhecíamos nada e muito menos sobre a rua em que eu iria morar. Ah, mas essa rua tinha muitas, mas muitas histórias. Hoje entendo o porquê da famosa rua que nada mais era que um “local de viração”: era a famosa “boca do luxo”, a rua Major Sertório, onde ficava a boate “La Licórnia”.  

 

Entretanto, como eu era do interior e mal conhecia a cidade, como haveria de conhecer tal rua e ainda essa boate?  Só passei a perceber quando dava o meu endereço a alguém e aí sim via uma certa reação das pessoas que, visivelmente, estranhavam o lugar onde eu morava.  Ainda com os resquícios   de   espírito   interiorano,   bem   inocente,   não   percebia   nada.  Achava   que   morava   hiper bem,   principalmente   por   ser   pertíssimo   do   meu cursinho,  o   Equipe.   Hoje entendo   o   porquê   de   Carlos,  hoje   meu  marido,  e namorado na época, fazia um esforço sobre-humano para me visitar todos os dias.

 

Comecei a sentir uma pressão anormal, não podia sair sozinha nunca, um paparico incomum, e ainda por cima, a única que não tinha a chave daquela pensão. Dona Lourdes, era maravilhosa, me tratava com todo cuidado e dizia que estava atendendo as recomendações dos meus pais. Quanta delicadeza e quanto carinho! Quantas noites passamos, no terracinho gostoso e aconchegante daquele sobradinho da Major Sertório, quase esquina com a Rua Maria Antonia, conversando, cantando e ouvindo violão…ela e Carlos davam um show todas as vezes que ali ficávamos. E os fados invadiam noites a dentro.

 

O terceiro susto…

 

No dia do vestibular, o percurso era muito longo, pois o exame era no recém-inaugurado estádio de futebol do São Paulo, no Morumbi, um bairro até então novinho e muito elegante. Ouvia comentários de que era um bairro de milionários. O percurso do ônibus foi uma viagem. Lembro-me de quando passei em frente ao primeiro shopping, o recém-inaugurado Iguatemi, da  Avenida  Faria   Lima.  Achei tudo aquilo deslumbrante e na maior curiosidade de saber o que  tinha ali dentro.

 

Assim que cheguei ao estádio, me atrapalhei de cara. Em qual portão deveria entrar? Fiquei apavorada, pois nunca tinha visto um estádio tão grande e com tantas   entradas. Quando   consegui   entrar,   senti   que   a   minha   respiração   ia desaparecer   diante   do   impacto   provocado   pelo  tamanho   do estádio, pois não imaginava nunca que pudesse ter aquela dimensão. 

 

Tenho a impressão de que não passei no vestibular por conta desse baita terceiro susto; a concentração foi para os ares. A minha cabeça viajava naquela imensidão sem fim, parecia estar em um outro mundo. Tudo aquilo me fazia crer que estava sonhando. A todo instante insistia e procurava retornar à realidade…e tentar responder as questões da prova, pois a sensação era mesmo a de um sonho.

 

O quarto susto…

 

Como não passei no vestibular, precisava inventar o que fazer para continuar na capital. As ideias eram muitas, mas os medos eram maiores. Afinal, o meu então namorado, já morava aqui há algum tempo e o medo maior de meus pais era ficar sozinha com ele nessa imensa cidade.

 

Os dias pareciam se alongar mais e mais, e nada de uma resolução. De repente, uma decisão foi tomada e recebi uma intimação:

 

– Você vai estudar em Curitiba…

 

Fiquei uns cinco meses, sempre na expectativa de um dia voltar para a capital dos meus sonhos… E não é que o meu sonho se realizou rapidinho?

 

Toda mãe tem um pouco de fada e de bruxa, e a minha tinha em excesso. Sentia que eu não estava bem e era preciso fazer alguma coisa. Acho que ela mexeu tanto em suas poções de alquimias que acabou descobrindo que na cidade de São Paulo iria abrir a primeira faculdade de Turismo. Pronto… ali estava a resposta retirada daquele caldeirão mágico. Ela escondeu isso de mim por um bom tempo até a minha volta à pequena Piraju.

 

Parecia que estava adivinhando. Saí de Curitiba em férias do cursinho e levei toda   minha   bagagem   para   Piraju e, é claro, sempre articulando e pensando no que faria para engabelar o meu pai para poder morar em Sampa e não  mais em Curitiba.

 

Quando cheguei a minha terrinha era cedinho ainda. Até dava para ouvir o cantar de galos e o despertar daquele céu azul clarinho, maravilhoso e inconfundível. Percebi que também estava sozinha, diante daquele cenário singelo, delicado, calmo e bonito. Por uns instantes fiquei triste, por não saber o que me esperava dali para a frente. Mas o ambiente mudou quando avistei meus irmãos menores correndo para me abraçar… e lá longe, bem devagarzinho, o meu pai, acompanhado por Lili e Lulu, a dupla de cachorrinhos.

 

Nossa!!! Como isso mexeu com as minhas benditas emoções… 

 

Assim que cheguei em casa, ali estava a minha mãe pronta para me receber de braços abertos e com aquela surpresa escondida, esperando o momento certo para me falar. Ela esperou uns dias, quem sabe até para captar se era aquilo mesmo que eu queria:  voltar a morar em São Paulo.

 

Lembro-me que foi um dos dias mais felizes de minha vida. Era uma manhã bastante fria e ainda estava na cama com o meu acolchoado estampadão preferido. De repente, a porta foi sendo aberta devagarinho e percebi minha mãe, pensando que eu estava dormindo, colocar ao lado do meu travesseiro, um pedaço de jornal. Continuei fingindo que estava dormindo e nem dei bola para aquele gesto. Achei que fosse mais uma reportagem que ela, habitualmente, sempre entregava para que lêssemos. Quando levantei, o   pedaço   de   jornal   caiu   e   notei   que   era o comunicado de um vestibular na cidade de São Paulo, para a primeira  faculdade de Turismo do Estado, a do Morumbi.

 

Foi um baita susto, só que desta vez de alegria!

 

Prestei vestibular, ainda nas férias de julho e passei… Voltei para a terra que sempre sonhei, a minha querida São Paulo.

 

Agnes Gati é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Para conhecer a história completa dela, visite meu blog miltonjung.com.br Para contar outras histórias, escreva para milton@cbn.com.br.

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