Conte Sua História de São Paulo: o gorila que gostava de gravata

 

Por José Carneiro de laia

 

 

Chegando a São Paulo, em dezembro de 1969, vindo de Belo Horizonte, não via a hora de chegar junho de 1970, quando completaria 18 anos e poderia conseguir o meu primeiro emprego formal, nesta que para nós era a terra das oportunidades. Só com o ginasial completo, precisando trabalhar para ajudar meus pais, e continuar estudando à noite para concluir na época o chamado colegial – claro que teria que ser à noite.

 

Sem muita exigência ou seleção, consegui o meu primeiro emprego com registro em carteira profissional: cobrador de ônibus na Empresa de Auto Ônibus Alto do Pari. Mas um senhor cobrador, que na época tinha uma indumentária toda especial e característica; um boné, gravata, camisa e calça, na cor cinza claro, com sapatos pretos, impecáveis e bem engraxados, nada de tênis.

 

Diferentes de nós eram os cobradores da extinta CMTC, que também usavam os uniformes, mas na cor azul claro. Os motoristas também acompanhavam o mesmo uso, e para todos nós, cobradores e motoristas, era motivo de orgulho e responsabilidade trabalhar no transporte público de uma já grande cidade, embora não chegasse ainda a 5 milhões de pessoas.

 

Por três meses, trabalhei na linha Nº 81, que circulava entre o Correio central e Vila Maria Baixa, fazendo o seu ponto final ao lado de um pequenino zoológico que existia por ali. Nas paradas de alguns minutos para irmos ao sanitário ou tomar um cafezinho, um dos cobradores, como muitos outros faziam, entrou rapidamente no minizoológico, e parou em frente a jaula de um pequeno gorila, que era a atração principal. Mas por uma aproximação e distração, não recomendadaS, o animal lançou os seus longos braços e agarrou a gravata do cobrador. Passou a puxar fortemente, quase enforcando o colega que só foi salvo por outras pessoas que o puxaram de volta para trás. Foi um enorme susto para ele e uma boa advertência para mim.

 

Visitar um zoológico, por menor que seja, de gravata, seja social, ou de trabalho, é bom não se aproximar de nenhum animal, principalmente quando eles são quase do nosso tamanho.

 

Felizmente, fiquei por poucos meses neste meu primeiro emprego em São Paulo, mas a lembrança do gorila que não gostava de gravata, sempre ficou gravada em minha mente, ao longo desses 64 anos, 48 deles, morando nesta capital…

 

José Carneiro de Laia é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Conte você outros capítulos da nossa cidade: escreva para milton@cbn.com.br 

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