Avalanche Tricolor: coisa de torcedor!

 

Grêmio 1×1 Santos
Brasileiro – Arena Grêmio

 

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A camisa 7 que Renato vestia, na partida deste fim de domingo, tinha o nome de Paulo Sant’Ana. Na braçadeira preta que estava no braço esquerdo do técnico e de todos os demais jogadores gremistas havia o rosto dele ilustrado. Era uma das homenagens que o time fazia ao jornalista e torcedor declarado do Grêmio, morto em 19 de julho.

 

Logo que percebi as menções, lembrei-me de algumas histórias que vivenciei com Sant’Ana. Ele sempre trabalhou na empresa que era a principal concorrente daquela em que meu pai, também jornalista e gremista declarado, atuava. Ele era da RBS e o pai da Caldas Junior. Na última vez que vi Sant’Ana, os dois estavam internados no mesmo hospital, e ele foi visitar o pai no quarto, quando contou que era o único paciente com autorização implícita para fumar no hospital.

 

Havia entre eles respeito e divergências, nada que os afastasse; mas o suficiente para protagonizar momentos curiosos, como em 1975, do qual participei, também, apesar de estar com apenas 12 anos. O Grêmio era treinado por Ênio Andrade, meu padrinho por adoção, e tinha no ataque um dos meus maiores ídolos: o ponteiro esquerdo Loivo, batizado pelo pai como o Coração de Leão.

 

Loivo ganhou o meu coração quando entrei com ele de mãos dadas no gramado antes de uma partida no estádio Olímpico. A cena inesquecível me impedia imaginar um dia o Grêmio sem aquele batalhador que vestia a camisa 11. No entanto, havíamos contratado Nenê que era mais jovem, tinha estilo de jogo diferente, entrava ao longo da partida e se tornava uma ameaça ao meu ídolo.

 

Na crônica esportiva, Sant’Ana defendia a escalação de Nenê. O pai preferia Loivo. Ênio Andrade, também, e passou a ser criticado pelo jornalista com frequência. Santa’Ana costumava tocar alto sua corneta quando não gostava de alguma coisa no Grêmio – nestes momentos era mais torcedor do que jornalista.

 

Houve uma partida no Olímpico, e não vou lembrar o adversário, na qual o Grêmio somente venceu depois da entrada de Nenê que fez o gol da vitória. No momento em que deixávamos o estádio, eu e meu pai, fomos abordados por Sant’Ana, no Largo dos Campeões. Sem se fazer de rogado, o jornalista se atirou aos meus pés e de joelhos, sob olhar de todos os demais torcedores que deixavam o jogo, berrava: “ouça sempre o seu pai, ele é o maior pai do mundo, mas quando for de futebol ouça a mim, por favor, ouça a mim” – repetiu várias vezes.

 

A cena me deixou chocado, eu ainda era um guri de calça curta e sem capacidade de entender o que levaria um homem maduro como ele tomar aquela atitude diante de uma criança. Claro que havia algo de espetaculoso, mas entendi com o tempo que tinha muito a ver com a personalidade histriônica de Santa’Ana e a paixão que mantinha pelo Grêmio, a mesma que eu e pai cultivamos até os dias de hoje.

 

Torcedores têm dessas coisas – e Sant’Ana era um. Às vezes nos apaixonamos por um. Às vezes nos incomodamos com outro. E num caso ou noutro somos passionais. Tomamos atitudes nem sempre lógicas. Como torcedor – e aprendi isto com o pai -, sempre preferi torcer a favor de todos, mesmo quando percebo que alguns não mereceriam estar vestindo nossa camisa. Nesses casos, torço o nariz, esbravejo entre quatro paredes mas jamais seria capaz de vaiar um dos nossos ou fazer campanha pela sua saída.

 

Confesso que não acompanhava os comentários de Sant’Ana nos últimos tempos, mas imagino que ele estivesse satisfeito com o que Renato vinha conquistando no comando do Grêmio, não bastasse ser um amigo do treinador. A qualidade do futebol jogado pelo nosso time é indiscutível, mesmo que tenhamos perdido alguns pontos que farão falta no Brasileiro. Os dois que deixamos de somar hoje, por exemplo. A partida era do Grêmio, fomos melhores, e tivemos mais chances e até pênalti a nosso favor não sinalizado. Infelizmente, faltou mais um gol.

 

Mesmo assim, só consigo encontrar um motivo a lamentar na partida de hoje: a ausência de Sant’Ana.

 

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